Um bate-boca aparentemente inofensivo travado na internet entre o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, e o presidente francês, Emmanuel Macron, em razão das queimadas na Amazônia não só constrangeu a comunidade política internacional e causou uma saia-justa diplomática como ainda pode ir além e gerar consequências mundiais muito ruins. O incidente pode abalar as relações políticas e econômicas do Brasil com a França e com toda a UE (União Europeia).

"Queria dizer, já que vejo câmeras aqui, duas palavras aos brasileiros e às brasileiras em português: muito obrigada" Brigitte Macron após viralização da #DesculpaBrigitte nas redes sociais
"Queria dizer, já que vejo câmeras aqui, duas palavras aos brasileiros e às brasileiras em português: muito obrigada" Brigitte Macron após viralização da #DesculpaBrigitte nas redes sociais | Foto: AFP

As consequências desse "bate-boca" foram potencializadas ainda após outra "brincadeira inofensiva" de Bolsonaro no Twitter em relação à aparência da primeira-dama da França, Brigitte Macron. O desenrolar dessa história foi trending topics (mais comentadas) no Twitter por vários dias (veja mais na página 2) e quando se pensou que o assunto iria esfriar, o embaixador de "turismo internacional" da Embratur Renzo Gracie colocou mais lenha na fogueira ao chamar Macron de "franga" e Brigitte de "dragão".

Após a profusão de ofensas, especialistas em ciências políticas e relações internacionais preveem uma fragilização do Brasil diante de países europeus e afirmam que a postura de Bolsonaro favorece Macron em um momento em que o presidente francês se sente acuado por alguns setores que veem com receio a formalização do acordo de livre comércio entre a UE e o Mercosul.

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“(A conduta do Bolsonaro) no curto prazo coloca o Brasil em rota de colisão com alguns países centrais dentro da política internacional. Em primeiro lugar, a França, mas como consequência, a União Europeia como um todo”, avalia Ramon Blanco, professor de Relações Internacionais na Unila (Universidade Federal da Integração Latino-Americana) e professor no programa de pós-graduação em Ciência Política na UFPR (Universidade Federal do Paraná).

Alemanha, Dinamarca, Noruega e Finlândia, nação que preside a UE, reagiram imediatamente às declarações do presidente brasileiro e, a médio e longo prazo, o posicionamento de Bolsonaro abre margem para que outras questões sejam colocadas como pressupostos para intervenções dos países do norte global em países do sul global. “Isso, de alguma maneira, já é uma dinâmica que existe sobretudo em relação à discussão sobre a responsabilidade de proteger. Há um entendimento na cena internacional de que quando um país não consegue proteger a sua população, outras nações intervenham. Essa discussão abre margem para ter discussões relativas à Amazônia”, destacou Blanco.

Para Macron, que começa a se mobilizar pela sua reeleição, o incidente diplomático veio a calhar, analisa o cientista político e professor da FGV (Fundação Getúlio Vargas) em São Paulo Eduardo José Grin. Agricultores franceses já demonstraram descontentamento com o acordo entre UE e Mercosul por se sentirem prejudicados e, de maneira não intencional, Bolsonaro acabou dando palanque político ao francês que poderá usar a questão ambiental para criar obstáculos e barrar cláusulas do acordo. “A cortina de fumaça foi bem aproveitada pelo Macron. Bolsonaro foi inábil ao não compreender a geopolítica do debate quando podia minimizar as consequências dos impactos para o agronegócio brasileiro. Com isso, ele prejudica as atividades econômicas do Brasil. Tem vários países querendo abrir mercado, tirar mercado dos outros”, analisou Grin. “Para Macron foi um ganho inesperado no momento em que estava sem muitos argumentos para se defender. Agora ele consegue gerar um discurso em defesa do seu público interno e se a União Europeia ratificar o acordo, terá argumentos para dizer que tentou, mas que a França sozinha não decide.”

Imagem ilustrativa da imagem Bate-boca entre presidentes pode abalar a relação com a Europa

Após o bate boca virtual, a imagem do Brasil e de Bolsonaro que fica para o mundo, afirmou o cientista político, é a do presidente despreparado para lidar com questões internacionais. “O destempero é típico do presidente brasileiro quando se sente acuado”, lembrou Grin.

A inabilidade de Bolsonaro, afirmou Blanco, pode resultar em boicotes a produtos brasileiros, especialmente no setor do agronegócio, fragilizando a posição econômica do Brasil dentro da política econômica internacional. “O que aconteceu está longe de ser algo só circunscrito a um pequeno debate no Twitter. Tem consequências muito graves no âmbito interno e internacional.”

Grin acredita que a indisposição entre Brasil e França tenha começado um pouco antes, quando no final de julho Jair Bolsonaro cancelou uma reunião com o chanceler francês, Jean-Yves Le Drian, alegando problemas de agenda e minutos depois do horário do encontro fez uma transmissão ao vivo na internet onde aparecia cortando o cabelo. “Bolsonaro, naquele momento, dá mostras de desprezo pela França, que não é um grande parceiro comercial, mas não é desprezível. E se a relação com a França se deteriorar, pode se estender a outros países e ao mercado europeu.”

No dia em que se encontraria com Bolsonaro, o chanceler francês passou a manhã com o Ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, e após a reunião, Le Drian sinalizou que a França não teria pressa em aprovar o acordo entre UE e Mercosul, concluído em junho. A França já vinha questionando a política ambiental brasileira publicamente e chegou a ameaçar ficar de fora do acordo comercial entre os dois blocos caso o presidente brasileiro cumprisse a ameaça de retirar o Brasil do Acordo de Paris.

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