Aprendizado além da academia
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sexta-feira, 28 de setembro de 2018
Lais Taine<br>Reportagem Local 
Portugal é o destino de muitos estudantes brasileiros que desejam ter ensino de qualidade tendo como aliada a língua portuguesa, mas há quem contradiga essa vantagem. "A maneira como eles falam é muito formal, é difícil, tive muitas aulas que eu não entendia o que eles falavam. A construção gramatical é diferente do português do Brasil, fora o sotaque", conta Luiza Beloti Abi Saab, 27, que está fazendo doutorado na Universidade de Coimbra.

A estudante de Londrina teve a oportunidade de conhecer o país como turista, além de passar pela experiência de um mestrado na Europa, onde desenvolveu pesquisa em antropologia da dança, assunto que continua a pesquisar. "Essa área é um pouco deficiente no Brasil. Teriam outros países da Europa que dominam o tema, mas dentro disso, escolhi um país que fosse financeiramente viável para mim", afirma. Assim, chegou a Portugal há dois anos, onde pretende finalizar a carreira acadêmica daqui um ano e meio.
Ao chegar lá, algumas questões agradaram. "É completamente reconfortante sair à noite e voltar sem medo de passar em uma rua escura, cruzar com um homem que não vai fazer nada com você", aponta. A estudante também elogia como o país comanda a política. "O governo socialista, que está há alguns anos no poder, promoveu políticas públicas e conseguiu evoluir muito em um país pequeno. Hoje o turismo está movimentado e Portugal se tornou a menina dos olhos da União Europeia, investindo em indústrias, startups... Aqui é barato de se viver, mais barato que no Brasil, com paisagens muito diferentes a poucas horas de distância", defende.
Em outro aspecto, teve uma surpresa negativa. "A gente gosta de vir como turista, mas vindo morar aqui eu percebi um conflito que eu jamais esperava encontrar em Portugal. Existe muita xenofobia, inclusive dentro da universidade. Os estereótipos são muito presentes, principalmente com mulheres brasileiras", conta. Saad também salienta que esse é o cenário da região onde vive: Coimbra tem aproximadamente 150 mil habitantes que moram ao redor da universidade mais antiga do país. "Por ser antiga, possui um caráter conservador muito forte. É uma questão de região também, por ser uma cidade pequena e do interior", ressalta.
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A política é um dos aspectos que mais impressionam Saad, por isso, os aprendizados vão além da academia. "Portugal tem muito para ensinar. A gente acha que o Brasil é um lixo, que está perdido, a gente tem todos nossos problemas, mas tem muita ferramenta para lutar por isso", afirma. A estudante conta que se envolveu em coletivos políticos e acadêmicos, em grupos e instituições ativistas para entender o governo e a universidade. "Isso tem me trazido muitos ensinamentos e só vejo como isso tem potencial de desenvolvimento no Brasil."
O crescimento econômico de Portugal tem atraído muitos turistas. Segundo o Instituto Nacional de Estatística de Portugal, em 2017 foram mais de 24 milhões de hóspedes, um crescimento de 12,9% face a 2016. O número é duas vezes maior que a quantidade de habitantes do país. Neste ponto, a estudante tem observado um processo conhecido como gentrificação. "Com as pessoas vindo para cá, o preço (do aluguel) começa a subir, porque há alguém que pague por isso e há o despejo de portugueses que moram há 40 anos aqui. Portugal tem o menor salário mínimo da Europa, para quem quer investir é propício, ao mesmo tempo, desvaloriza e afasta a população nativa", explica.
A percepção social que Saad tem do país é bastante apurada, por isso o relacionamento com o país é de muito aprendizado. A história e a cultura lusitanas têm esse lado muito forte com as origens do Brasil e acabam mostrando um pouco de autoconhecimento. "Fazer esse retorno à terrinha é muito importante para desconstruir o que eu achava que eu era como brasileira e eles como portugueses. É um processo de conscientização dessa história e isso não tem preço. Seria muito bom se todos os brasileiros pudessem vir para cá ter esse contato", finaliza.


