Qualquer prato feito a lenha ganha sabor diferenciado, típico da culinária caipira
Qualquer prato feito a lenha ganha sabor diferenciado, típico da culinária caipira | Foto: Shutterstock


A lenha como matéria-prima para o fogo que aquece a casa, cozinha alimentos e ainda acelera a secagem das roupas, além de garantir o carvão quente para dar um conforto térmico a mais na hora do banho. Há três anos, a pianista, compositora, pesquisadora e professora Marilia Giller, da Faculdade de Artes do Paraná, que integra a Universidade Estadual do Paraná (FAP/Unespar), incorporou na sua rotina as benesses de cozer a vida no tempo do fogão e forno a lenha.

"Vivemos em um chalé no caminho para Quatro Barras (Região Metropolitana de Curitiba), onde o fogão a lenha não só ocupa o centro do piso inferior como condiciona parte da nossa rotina, uma vez que passamos o ano todo armazenando lenha para esta época do ano. Como queremos ter o mínimo de impacto, buscamos recolher ao longo das quatro estações a madeira de árvores que caíram ou estão doentes", explica. "Quando a madeira é de bracatinga, por exemplo, um dia de forno consome umas três caixas de lenha. Sendo assim, não dá para ser cigarra, tem que ser formiga", brinca a musicista.

Essa preparação para os dias mais frios, que na capital paranaense muitas vezes independe de estação, é apenas um dos atributos pela devota do fogão a lenha. "Todo o cotidiano doméstico acaba se transformando em um ritual gostoso com o fogão a lenha. Pois ele vai prover calor em outro tempo para a cocção do alimento, para as pessoas que estão na casa e até para secar as roupas", reflete.

Quanto ao cozimento dos alimentos, ela diz que para um arroz estar pronto às 12h, por exemplo, a panela vai para o fogo às 8h. Vegetariana há mais de 40 anos, ela revela que um dos prazeres da culinária a lenha é aquecer frutas em uma chapa de ferro. "Lentamente e com qualquer alimento, a cocção no fogão a lenha vai despertando os sentidos para aquela refeição que será servida em algumas horas. Mas as frutas, com seus aromas e açúcares, garantem sensações ainda mais especiais aos sentidos de todos que estão de certa forma ao redor do fogo", conta. Giller admite, porém, que há dias em que ela começa o preparo no fogão a gás e termina no fogão a lenha para ganhar tempo.

O forno a lenha também está presente em projetos modernos, como mostra este apartamento decorado da Plaenge em Londrina
O forno a lenha também está presente em projetos modernos, como mostra este apartamento decorado da Plaenge em Londrina | Foto: Gabriel Teixeira/Divulgação



Adaptando os dois mundos
Para quem não quer viver afastado dos grandes centros, um caminho para poder apreciar a forma rústica de se preparar algumas refeições são os fornos a lenha, presentes em várias churrasqueiras e ambientes projetados pelos empreendimentos imobiliários mais recentes. A arquiteta Luiza Bohrer do escritório Bohrer Arquitetura, de Londrina, explica que por ser um equipamento que exige chaminé, o que deve ser levado em consideração é justamente a interferência que esse item terá naquele ambiente e nas construções ao redor. Quanto à escolha dos modelos, ela recomenda os pré-fabricados. "São os mais indicados para se ter garantia do perfeito funcionamento", diz.

A arquiteta afirma que o uso dos fornos é simples, mas destaca que o modelo deve ter a dimensão adequada. De quebra, ela acredita que essa escolha confere ganhos decorativos ao espaço. "É possível tirar partido, fazendo um ambiente um pouco mais rústico", observa Bohrer.

‘Tudo feito de forma mais lenta’

O chef Octávio Luz Rodrigues Alves, o Taíco, acredita que quem introduz um forno a lenha para o seu lar e ao preparo das refeições acaba trazendo todo o conceito de culinária caipira para a rotina. "A grande diferença do forno a lenha está no conceito desse tipo de culinária, onde tudo é feito mais lentamente", defende.

Segundo o chef, o grande encantamento da culinária caipira está em administrar o fogo com mais ou menos lenha conforme a necessidade de cocção. "E é lógico que a comida fica com um gosto mais saboroso nesse processo", admite.

Para ele, ao contrário do fogão a lenha , o forno a lenha "não é tão competente". "Ele não assa igualado. É um forno que precisa ser muito aquecido para poder trabalhar bem", argumenta. Nesse aspecto, o chef elege o forno elétrico como campeão na comparação entre lenha e gás.
"O forno elétrico é o que dá para trabalhar melhor qualquer tipo de ingrediente. Apresenta múltiplas possibilidades de administrar fogo superior e inferior", elenca. Para o chef Taíco, o forno a gás ocupa posição intermediária, sem ter muitos recursos, mas oferecendo um bom domínio sobre o calor. (M.M.)

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