PROANTAR -

ANTÁRTIDA - Um continente de muitos mistérios

No território dos superlativos, o Brasil é um dos países que mantêm bases científicas e o compromisso até 2048 de protegê-lo e explorá-lo pacificamente

Micaela Orikasa - Grupo Folha
Micaela Orikasa - Grupo Folha

De tempos em tempos, a Antártida invade o imaginário das pessoas. Décadas atrás, a atenção se deu pela curiosidade sobre esse território que não pertence a ninguém e impõe todos os desafios à sobrevivência humana.  


ANTÁRTIDA - Um continente de muitos mistérios
 

Anos seguintes, foi a vez da ciência entrar em cena com a instalação de bases de pesquisas, inclusive brasileira, e de um acordo global – o Tratado da Antártida - para garantir a preservação dos recursos naturais do continente. Parte importante deste documento é o uso pacífico do território, incluindo troca livre de informações e de resultados de estudos científicos.  




O incêndio que destruiu 70% da base brasileira EACF (Estação Antártida Comandante Ferraz) em 2012, despertou novamente a população para o assunto. E agora, no primeiro mês de 2020, a Antártida volta a circular entre os assuntos mais comentados nas redes sociais.  



O #Proantar (Programa Antártico Brasileiro) chegou aos Trending Topics (assuntos mais comentados) do Twitter, na semana em que foi reinaugurada a nova EACF (em15 de janeiro), uma das maiores e mais modernas estações presentes na Antártida.  

ANTÁRTIDA - Um continente de muitos mistérios
 



O Proantar surgiu na operação de verão 1982/83, com a primeira expedição brasileira naquele continente. O objetivo era fazer o reconhecimento hidrográfico, oceanográfico e meteorológico para a implantação da primeira estação. Todas as pesquisas feitas pelo Brasil na Antártida são coordenadas dentro deste programa.  



ANTÁRTIDA - Um continente de muitos mistérios
 

 

Essa atuação foi essencial para que o País se tornasse, ainda naquele ano, membro consultivo do Tratado da Antártida, junto com mais 24 países. Outros 24 países constituem as partes não-consultivas deste documento e os Estados Unidos, Rússia, China, França e Reino Unido são nações permanentes por formarem o Conselho de Segurança da ONU (Organização das Nações Unidas).  


O que diz o Tratado da Antártida? 

Assinado em 1° de dezembro de 1959, em Washington (EUA), o Tratado da Antártida, que conta com 53 países signatários, permite que essas nações desenvolvam atividades no continente diante do compromisso de dialogar sobre o seu uso, preservá-lo e de não permitir que ele se torne objeto de discórdia internacional.     


Um dos destaques do documento é “a exigência de que países membros divulguem antecipadamente o plano de atividade de suas expedições”, e que promovam “cooperação científica internacional, incluindo a troca de informações sobre pesquisa e pessoal, exigindo que todos os resultados sejam disponibilizados livremente".  


Protocolo de Madri 

Em outubro de 1991, a Antártida ganhou o status de “Reserva Natural Internacional dedicada à Ciência e à Paz”, por meio do Protocolo ao Tratado da Antártida sobre Proteção ao Meio Ambiente, chamado “Protocolo de Madri”.  


Ele passou a vigor desde janeiro de 1998, impedindo a exploração de recursos minerais, incluindo água e petróleo, ou seja, garantindo a proteção integral daquele território até, pelo menos, 2048. 

Gigante

Apesar de ser o lar de uma grande diversidade de animais, como as colônias de pinguins-imperador e pinguins-de-adélia, lulas, focas, orcas e a baleia azul, não há uma população nativa na Antártida. 


Os mais de 14 milhões de quilômetros quadrados que formam o continente são praticamente cobertos de gelo e as temperaturas são as mais baixas do planeta, chegando a - 90°C. Além disso, os ventos podem atingir 200 km/h. Toda essa condição climática faz da Antártida um continente gigante, misterioso e desafiador.  


É como um deserto polar, que abriga praticamente 70% da água doce do mundo e também reservas intocadas de gás, minérios e petróleo. Tudo isso vem sendo drasticamente ameaçado pelo aquecimento global.   


Além da população instalada nas estações científicas, entre os meses de novembro e março é possível avistar navios carregados de turistas, que desembolsam milhares de dólares para visitar as zonas livres de gelo. O turismo na Antártida começou a ser explorado no final dos anos 50.  


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Há mais de 30 anos, o Brasil se faz presente na Antártida para a realização de estudos nas áreas de biologia, oceanografia, glaciologia, meteorologia e paleontologia. Tais pesquisas foram essenciais, por exemplo, para a formulação de medicamentos, fabricação de produtos como protetores solares e desenvolvimento de pesticidas e herbicidas.  

Estação "Comandante Ferraz" na Bahia do Almirantado - Antartida (28/01/1985)
Estação "Comandante Ferraz" na Bahia do Almirantado - Antartida (28/01/1985) | Ulisses Capozolli/Folhapress
 



As análises também otimizam a previsão meteorológica, uma vez que a maior parte das frentes frias que chegam ao Brasil vêm da Antártida. Um levantamento feito pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) apontou que o País investiu quase meio bilhão de reais naquele continente de 2008 a 2017.    

Navio de Apoio Oceanográfico (NAPOC) Ary Rongel fundeado na Ilha do Rei George - Antartida (04/12/2016)
Navio de Apoio Oceanográfico (NAPOC) Ary Rongel fundeado na Ilha do Rei George - Antartida (04/12/2016) | Lalo de Almeida/Folhapress
 



Segundo o texto oficial publicado em janeiro de 2020 pelo governo federal, nos últimos sete anos, 250 cientistas brasileiros trabalharam em 25 projetos na Antártica e, cerca de 40% das pesquisas são produzidas a bordo do navio polar Almirante Maximiano, que funciona como uma espécie de laboratório flutuante.  



Presença paranaense 

Os primeiros estudos do Brasil na Antártida tiveram com a colaboração de cientistas paranaenses, que também cooperaram para a criação do Proantar (Programa Antártico Brasileiro). O professor Metry Bacila, que faleceu em 2012 aos 90 anos, contribuiu imensamente nas análises da bioquímica e fisiologia de organismos antárticos. 



Durante sua trajetória profissional, chefiou os laboratórios de Física e Química Biológica na UFPR (Universidade Federal do Paraná) e foi o idealizador do Centro de Estudos do Mar, no litoral paranaense.   


A professora Edith Fanta, que faleceu em 2008, também comandou pesquisas importantes na Antártida, especialmente sobre o comportamento e alimentação de animais da região. O trabalho foi realizado através do Geia (Grupo de Estudos de Impacto Ambiental), da UFPR.  


Atualmente, uma equipe de pesquisadores da universidade está no extremo sul do continente, para coletar amostras de água e de sedimentos marinhos a fim de analisar como o ambiente antártico vem se modificando com base em alterações ambientais (humanas ou naturais).  


Apesar de reinaugurada a Estação Comandante Ferraz, a equipe está hospedada no navio polar Almirante Maximiano e tem utilizado botes para deslocamentos e coletas em ambiente marinho. A nova base passa ainda por testes e ajustes com a equipe de construção.  


O trabalho vem sendo coordenado pelo docente César de Castro Martins, do CEM (Centro de Estudos do Mar), da UFPR. Conforme material divulgado pela instituição, o objetivo principal é trabalhar com o ciclo do carbono, pois um dos grandes agentes do aquecimento global é o aumento da concentração de gás carbônico na atmosfera. 



“O intuito é entender como esse elemento participa das atividades, dos organismos, da produção de matéria orgânica e qual é o papel dele nas mudanças climáticas, que são muito mais expressivas nessa região de estudo”, disse o pesquisador.  


O grupo também conta com a participação do pesquisador Rafael André Lourenço, da USP (Universidade de São Paulo) e Tatiane Combi, docente da UFBA (Universidade Federal da Bahia e egressa da UFPR.  



A expedição tem duração de 20 dias e também se dedicará à análise de “contaminantes orgânicos presentes na região e que chegam por meio de transporte atmosféricos vindo dos continentes onde estão estabelecidas as maiores atividades industriais e a maior aglomeração humana”. A equipe embarcou no dia 10 de janeiro e para os próximos dois anos, já estão planejadas outras visitas, inclusive com a participação de outras equipes, para coleta de amostras.  



Além das contribuições no campo científico, o Paraná também escreve outra história sobre a presença do Brasil na Antártida. O escritório de arquitetura Estúdio 41, de Curitiba, foi juntamente com engenheiros da AFA Consult, de Portugal, os autores do projeto da nova Estação Comandante Ferraz.     



“A Antártica é um território onde aqueles que podem estar lá, têm um privilégio de discutir como que a humanidade pode evoluir. Quando penso que o Paraná, um estado onde a urbanização é relativamente nova, consegue se inserir em um contexto desse que é global, acredito que estamos abrindo os olhos para uma nova realidade”, disse o arquiteto Emerson Vidigal.  


LINHA DO TEMPO


1958 - O primeiro brasileiro a visitar a Antártida foi o médico e jornalista Durval Rosa Borges, membro da Sociedade Geográfica Brasileira. A viagem rendeu reportagens na época e resultou no livro “Um Brasileiro na Antártica”, em 1959. 


1975 - O Brasil assina o Tratado da Antártida, do qual passa a ser membro aderente. Um grupo de trabalho é criado para a formulação de uma política nacional e de propostas para as primeiras medidas concretas para a atuação brasileira na Antártida. Oficiais hidrógrafos brasileiros já atuavam desde o início da década de 70, como observadores em expedições chilenas à Antártica. 


1981 – O governo decide ativar o Programa Antártico e enviar a primeira expedição ao continente austral, em um navio polar batizado de Navio de Apoio Oceanográfico “Barão de Teffé”, construído na Dinamarca.    


1983 – Na operação no verão de 1983/84, o Brasil busca aumentar a presença nas pesquisas antárticas. O “Barão de Teffé” conduzia os módulos da estação que receberia o nome Comandante Ferraz, em homenagem póstuma ao Capitão-de-Fragata Luiz Antonio de Carvalho Ferraz, por sua intensa participação no projeto antártico brasileiro. Além dele, pesquisadores paranaenses também foram responsáveis pela organização dos projetos e laboratórios que deram origem ao Proantar (Programa Antártico Brasileiro).  


1985 – A ocupação na EACF (Estação Antártida Comandante Ferraz) passou a ser em tempo integral, com as equipes se revezando entre o verão e o inverno. A estação, situada na baía do Almirantado, na ilha Rei George que integra o Arquipélago das Shetlands do Sul, possuía nesta época, apenas com oito módulos.  


1988 - É inaugurada uma agência dos Correios na Estação Antártica Comandante Ferraz. 


1991 - É assinado o Protocolo de Madri, que classifica a Antártida como “Reserva Natural Internacional dedicada à Ciência e à Paz” e garante a proteção ao meio ambiente e ecossistemas dependentes e associados. O protocolo é uma complementação ao Tratado da Antártida e entrou vigor no Brasil em janeiro de 1998, visando a proteção integral daquele continente durante 50 anos, pelo menos. 


1994 – O NApOc (Navio de Apoio Oceanográfico) Ary Rongel é adquirido pela capacidade de operar com dois helicópteros de pequeno porte, além de abrigar laboratórios para pesquisa, acomodando até 27 pesquisadores. No mesmo ano é adquirido o Navio Polar H-44, operando com dois helicópteros também, mas com acomodação para 105 pessoas.  


2009 – O Navio Polar H-41 é incorporado à Marinha do Brasil, com cinco laboratórios, equipamentos modernos para o desenvolvimento de pesquisas a bordo e capacidade para acomodar até 115 militares e pesquisadores.   


2012 – Na madrugada do dia 25 de fevereiro, um incêndio afetou 70% das instalações da EACF. Oito meses depois, foi instaurada a Operantar (Operação Antártida) XXXI para reconstrução da Base. Houve o deslocamento do navio polar “Almirante Maximiano”, a instalação dos MAEs (Módulos Antárticos Emergenciais) e o desmonte de todos os escombros e resíduos pós-incêndio, que totalizaram cerca de 900 toneladas coletadas seletivamente. Todo esse material foi trazido para o Brasil.  


2013 – Por meio de concurso público, é contratado o projeto para a reconstrução da nova Estação Comandante Ferraz, no mesmo local, com capacidade para abrigar até 64 pessoas em uma área de aproximadamente 4.500m². Todo o espaço é dividido em seis setores: privativo, social, serviços, operação/manutenção, laboratórios e módulos isolados.  


2015 – Em dezembro, começam as obras para a reconstrução da nova Estação. O projeto foi desenhado pelo escritório Estúdio 41, sediado em Curitiba e executado por cerca de 200 operários chineses da empresa Ceiec (China National Electronics Import & Export Corporation). O custo total da obra foi de aproximadamente US$ 99,6 milhões (cerca de 419 milhões na cotação do dia 28 de janeiro de 2020). 


2016 – Nas últimas operações até 2018, o governo anunciou que por ocasião da reconstrução e por medida de segurança, as atividades de pesquisa na área da EACF foram suspensas ou realocadas para os navios oceanográficos polares e acampamentos, ou ainda bases estrangeiras. 


15 de janeiro de 2020 - é inaugurada a nova Estação Antártida Comandante Ferraz. Para marcar simbolicamente o início das pesquisas na região, foi lançado um balão meteorológico que coletará dados para análise da dinâmica atmosférica da Antártida e as interações com a América do Sul. A estação de pesquisa brasileira é uma das maiores e mais modernas no continente. O espaço conta com 17 laboratórios e tem capacidade para abrigar 64 pessoas.  




Fontes: Marinha do Brasil e Ministério da Defesa 

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