ANTÁRTIDA - Nova “casa” do Brasil foi projetada no Paraná

Projeto de reconstrução da estação brasileira na Antártida, que se destaca pela autossuficiência, foi desenvolvido por um escritório de arquitetura de Curitiba

Micaela Orikasa - Grupo Folha
Micaela Orikasa - Grupo Folha

Entre os 70 projetos apresentados à Marinha do Brasil e ao MCTIC (Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações) em 2013, no concurso público de Arquitetura para a construção da nova EACF (Estação Antártica Comandante Ferraz), a ideia desenvolvida pelo Estúdio 41, de Curitiba, foi o grande destaque.  


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Divulgação Estúdio 41
 


Durante cinco meses, a equipe formada para transformar o estudo preliminar em um projeto executivo, se espelhou na vivência de pesquisadores presentes naquele continente e buscou o que há de mais novo em tecnologia sustentável, para garantir a autossuficiência da estrutura, que fica na ilha Rei George, na Península Keller.  



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Divulgação Estúdio 41
 


O grande desafio era justamente pensar em um edifício que ofereça conforto e segurança à sua população, seja adequado para a produção científica e, ao mesmo tempo, respeite a fauna e flora local, ou seja, com o mínimo impacto ambiental possível. Tudo isso sem nunca ter estado na Antártida.    


“Foi um período intenso para pensarmos sobre um lugar onde a gente nunca esteve. A gente se transportou mentalmente para lá pelos olhos dos militares da Marinha e dos cientistas com quem a gente conversava. Essas pessoas eram nossas testemunhas sobre a rotina”, comentou o arquiteto Emerson Vidigal. 


Ele trabalhou no projeto desde o estudo preliminar, ao lado de uma equipe de 15 a 20 profissionais, até o projeto executivo, que incorporou engenheiros do escritório AFA Consult, de Portugal. A integração entre arquitetos e engenheiros que tivessem experiência em situações de clima mais severo foi um pedido especial da Marinha para a assinatura do contrato. Ao todo, 60 pessoas se debruçaram dia e noite para a EACF sair do papel. 

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Divulgação Estúdio 41
 




“É um projeto que tem um desenho de implantação muito condicionado por questão de meio ambiente. Também tem questões geográficas que são da Península Keller. A gente tem um local que está, digamos, entre a praia e a montanha, em um terreno linear. E o edifício acabou adquirindo essa configuração bem linear mesmo para se adaptar ao local. Isso acabou revelando uma força de partido de conceituação que resistiu bem às implicações que são complexas em projetos desse tipo”, disse.  

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Divulgação Estúdio 41
 




A nova base foi inaugurada no dia 15 de janeiro de 2020 e segundo o arquiteto, o projeto manteve a base original durante seu desenvolvimento. Algo que nem sempre acontece em grandes obras. “A gente percebe nas imagens das pranchas do concurso, nas imagens feitas na conclusão do projeto executivo e agora com as fotografias da obra construída, que o projeto manteve o aspecto principal que é a implantação, a volumetria”, afirma.  


Do conforto à autossuficiência 

Em um ambiente inóspito como a Antártida, é preciso pensar em um edifício que funcione como um suporte à vida humana e nesse contexto, o bem-estar psicológico das pessoas, que praticamente ficam em isolamento por lá - foi um dos pontos de partida dos arquitetos.  


Vidigal explica que de qualquer ambiente da Estação Ferraz é possível enxergar a paisagem. “O acesso visual permite que a pessoa veja o que está acontecendo lá fora e tenha a percepção da passagem do dia, da luz. Isso é importante para o ser humano”, diz.  


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Divulgação Estúdio 41
 




Vale lembrar que o inverno na Antártida, a luz solar está presente por apenas três horas durante todo o dia.  E no verão, é o contrário. Dessa forma, Vidigal explica que todas as janelas possuem blackout. “Nosso organismo está acostumado a ter a luminosidade como um indicador de descanso”. 


Ele também cita também que o sistema de isolamento térmico com poliuretano é inovador e se mostra muito eficiente, ao reduzir o gasto com energia para aquecer o ambiente interno. 

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iStock
 


“É um edifício, de certa maneira, autossuficiente porque gera a própria energia, trata a própria água do esgoto e a entrega praticamente limpa para o meio ambiente. A gente precisou também, por força do Protocolo de Madri, pensar em como tratar todo o lixo e trazer de volta para o Brasil. Funciona como uma pequena cidade, porém, sem ter uma concessionária para resolver, como estamos acostumados”, detalhou.  


Toda a estrutura é completada com as plantas de painéis fotovoltaicos, ao norte, e de oito turbinas eólicas VAWT (com eixo vertical) a sudoeste. Cerca de 30% da energia consumida nos laboratórios da estação vem de fontes renováveis produzidas pelas placas e os aerogeradores. 


Três grandes blocos 

Ao todo, as novas edificações ocupam uma área de cerca de 4.500 metros quadrados, com 17 laboratórios. O prédio principal é dividido em três grandes blocos, sendo o bloco Leste destinado às pesquisas, convívio e serviços da EACF, como laboratórios, refeitórios, cozinha, setor de saúde, sala de secagem e oficinas; o bloco Oeste, com setor privativo e de convívio dos hóspedes, através de 32 camarotes, biblioteca, academia e sala de vídeo/auditório. Nesse compartimento, encontram-se nos níveis inferiores, os paióis de mantimentos e os tanques de água potável e para combate a incêndio.  


E no bloco Técnico ficam a estação de tratamento de água e esgoto, praça de máquinas, geradores, sistema de aquecimento de água, setor de tratamento e incinerador de lixo, garagem de viaturas, sala de controle da rede elétrica, sanitária e automação. 


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Folha Arte
 





Antártida ou Antártica?


JAIR SEGUNDO - ESTAGIÁRIO*

O continente gelado guarda curiosidades e mistérios sobre sua fauna, flora e história. Porém, outro mistério, dos mais intrigantes para os falantes de português, é a grafia correta de seu nome. Nos antigos dicionários e enciclopédias, “Antártida” era apontado como termo correto. Inclusive, muitos que frequentaram à escola na década de 1980 e 1990 assistiram ao documentário "Antártida - A última fronteira", do diretor brasileiro Carlos Amorim.   

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Como a língua não permanece a mesma ao longo do tempo, a grafia “Antártica” também passou a ser utilizada. Segundo a professora do curso de Letras Vernáculas e coordenadora do Disque - Gramática da UEL, Cristina Simon, o adjetivo “antártico” vem do grego “antarktikós”, que significa "que se opõe ao polo ártico". Os que defendem a forma de escrita “Antártica” acreditam que, pelo continente se localizar no polo oposto ao Ártico, essa grafia seja a mais adequada.  



Já os defensores de “Antártida” creem que o nome do segundo menor continente do mundo é uma referência à Atlântida. A lendária ilha foi mencionada como um ponto de grande potência naval por Platão ainda na Grécia Antiga, mas foi eternizada como uma utopia submersa altamente desenvolvida pelo escritor estadunidense Ignatius Donnelly. A grafia com “D” também é utilizada em Portugal, assim como na Argentina, Chile e na Espanha.   


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Mas afinal, qual seria a forma correta para nós brasileiros? O doutor em geologia marinha e professor da UFF (Universidade Federal Fluminense) Eduardo Bulhões afirma que as duas formas podem ser utilizadas. Por mais que a grafia mais comum ainda seja a mais antiga, hoje em dia, “Antártica” também é aceita. Mas não confunda, “Antártida” não pode ser usada como adjetivo, apenas como substantivo próprio. Isso significa que é correto dizer que “O vice-presidente General Mourão foi à Antártida/Antártica”, mas é incorreto falar que ele foi inaugurar “a nova estação de pesquisa antártida”. O certo, nesse último exemplo, é “estação de pesquisa antártica”.   

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A dúvida quanto a grafia correta provocou uma acalorada discussão entre portugueses e brasileiros na sessão de discussões do Wikipedia em 2007, na qual as respostas misturavam humor, história e até certas doses de xenofobia. Mas o fato é que a língua adquire particularidades ao longo do tempo em cada localidade, devido a influências políticas, econômicas e sociais. E aqui em solo brasileiro, ela deu a possibilidade de nos referirmos corretamente ao continente mais frio do mundo de duas formas. 

Supervisão: Patrícia Maria Alves - editora 

 

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