América Latina #Revolta

Como o passado e presente influenciam visão dos brasileiros sobre as crises latino-americanas?

Rafael Costa - Grupo Folha
Rafael Costa - Grupo Folha

Formação histórico-cultural e políticas de governo contribuíram para o distanciamento e desconhecimento da sociedade brasileira sobre os países vizinhos




A sucessão frenética de acontecimentos na América do Sul ao longo do mês passado provocou um cenário incomum nas mídias sociais no Brasil.

De repente, brasileiros se viram tentando entender o papel de grupos indígenas nas mobilizações sociais no Equador ou discutindo a desigualdade social no Chile — para citar apenas duas das várias turbulências que explodiram na região em outubro.



 



Inúmeras reportagens foram produzidas pela imprensa brasileira para tentar explicar o que estava acontecendo em cada lugar, e não foi incomum o compartilhamento de mapas com coordenadas básicas sobre o que estava acontecendo na vizinhança.

Para alguns, foi o momento de descobrir o que se passa em realidades que estão, na maioria das vezes, fora do radar dos brasileiros. Para outros, uma oportunidade para alimentar a polarização ideológica do debate político no Brasil.

Na opinião de especialistas ouvidos pela FOLHA, a repercussão das recentes crises da América do Sul no Brasil pode estar condicionada por fatores que vêm desde os tempos coloniais e contribuem para um distanciamento histórico dos brasileiros em relação à região.



Ilustração de Marco Jacobsen registra momentos importantes das revoltas recentes sobre a silhueta da Mão da América, monumento criado por Oscar Niemayer para celebrar as lutas pela liberdade latino-americana.
Ilustração de Marco Jacobsen registra momentos importantes das revoltas recentes sobre a silhueta da Mão da América, monumento criado por Oscar Niemayer para celebrar as lutas pela liberdade latino-americana. | Marcos Jacobsen
 



Por outro lado, o atual momento político do País pode explicar o interesse de brasileiros em nuances como o sistema de previdência chileno.

“Em momentos como esse, as pessoas no Brasil se assustam, porque nós, brasileiros, não temos um olhar para a América Latina”, avalia a cientista política Renata Peixoto de Oliveira, professora de Relações Internacionais da Unila (Universidade Federal da Integração Latino-Americana), em Foz do Iguaçu. “A gente não estuda os processos políticos dos países vizinhos no colégio e eles não têm muito espaço na mídia. Quando essas reações mais exaltadas acontecem, causam espanto, porque parece que brotam do dia para a noite. Mas, na realidade, já estão acontecendo há algum tempo”, diz.


Para Leandro Gavião, doutor em história política e professor da Universidade Católica de Petrópolis (RJ), os acontecimentos políticos e sociais de países vizinhos só repercutem com maior intensidade no Brasil quando chegam a situações extremas.



Eleições gerais na Bolívia provocam revolta no país, após resultados parciais apontarem a vitória do presidente Evo Morales
Eleições gerais na Bolívia provocam revolta no país, após resultados parciais apontarem a vitória do presidente Evo Morales | AFP
 




Por outro lado, fatos ocorridos no Brasil costumam receber mais atenção da imprensa sul-americana. “Há, de fato, uma assimetria muito perceptível”, diz. “O Brasil tem uma posição muito autocentrada nesse sentido. A gente dialoga muito pouco com os países vizinhos”, avalia.


DIFERENÇAS VÊM DESDE O PROCESSO DE INDEPENDÊNCIA


O distanciamento dos brasileiros em relação à identidade sul-americana e latino-americana tem relação com a formação histórica do País, afirma o professor Leandro Gavião, doutor em história política e professor da Universidade Católica de Petrópolis (RJ). 


Manifestantes carregam ferido em protestos nas ruas de La Paz
Manifestantes carregam ferido em protestos nas ruas de La Paz | AFP
 




Embora o Brasil tenha em comum com todos os países da região o fato de ter sido uma colônia, os processos de independência foram muito diferentes. Enquanto, na América Espanhola, eles tiveram como marca guerras com grande participação popular, a independência brasileira foi liderada por uma monarquia que acabou proclamando um império, enquanto o resultado político na vizinhança gerou repúblicas. 


Outras diferenças seriam a continuidade da escravidão no Brasil, o gigantismo do território e a própria matriz linguística. “Tudo isso resulta numa desconfiança recíproca. O Brasil imperial estava muito mais identificado com uma Europa monárquica do que com as repúblicas da vizinhança, que eram consideradas modelos instáveis, desorganizados. Enquanto isso, as repúblicas do entorno olhavam para o Brasil como se fosse um corpo estranho no continente”, explica Leonardo Gavião.  



OS ACONTECIMENTOS NA REGIÃO TÊM MAIOR CHANCE DE GANHAR ATENÇÃO AQUI SE PUDEREM SER INSTRUMENTALIZADOS POLITICAMENTE




Poderiam estar neste processo histórico as raízes para o maior interesse dos brasileiros pelos Estados Unidos ou pela Europa quando se trata de turismo, por exemplo. “Parece que se herda da monarquia imperial a ideia de que a América do Sul seria menor”, especula Gavião. “Acho que isso é muito impregnado na nossa formação histórico-cultural”, diz. 



Uruguaios protestam nas ruas de Montevidéu em apoio às revoltas nos países vizinhos. Especialistas comentam a indiferença dos brasileiros com a pauta política da America do Sul
Uruguaios protestam nas ruas de Montevidéu em apoio às revoltas nos países vizinhos. Especialistas comentam a indiferença dos brasileiros com a pauta política da America do Sul | AFP
 




Já o professor de Relações Internacionais da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) Fabio Luis Barbosa dos Santos — autor do livro “Uma história da onda progressista sul-americana” — destaca o papel da ditadura militar no Brasil na construção deste distanciamento. Para ele, houve estímulo a rivalidades com países como a Argentina como forma de reforço do nacionalismo. 


“A noção de que o Brasil está de costas para a América Latina é uma construção política”, defende. “E a dimensão cultural do desconhecimento, da distância entre os países, têm a ver com a dimensão política e econômica”, conclui. 


PERSPECTIVAS


Para Rafael Villa, professor do IRI-USP (Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo), a orientação do atual governo brasileiro, que busca os Estados Unidos como aliado preferencial, pode contribuir para acentuar as distâncias.



“A ideia de uma identidade latino-americana é bastante distante, segundo instituições de pesquisa têm mostrado”, diz. “Este fator ideológico afeta qualquer proposta ou projeto de integração regional”, opina. “Esta ideia nunca esteve tão em baixa como está neste momento.”



Para Leandro Gavião, ainda que os esforços de integração cultural tentados principalmente durante os governos Fernando Henrique Cardoso (1995-2002) e Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2010) não tenham conseguido aproximar culturas ou fomentar uma identidade sul-americana ou latino-americana, o Brasil ainda poderia recuperar o papel de mediador da região por meio de organizações como a Unasul (União de Nações Sul-Americanas).



“Ela poderia ter atuado antes que as crises recentes escalassem a essas proporções”, argumenta.


CENÁRIO POLÍTICO EXPLICA INTERESSE DOS BRASILEIROS NA CRISE CHILENA



As frases “vá para Cuba” e, mais recentemente, “vá para a Venezuela” se tornaram um dos recursos mais usados nas discussões políticas travadas no Brasil nos últimos anos.



A ideia consiste em se valer da crise econômica e humanitária venezuelana como evidência da ineficácia de políticas econômicas defendidas pela esquerda do espectro político.


Uma lógica de natureza similar tem sido usada no campo oposto em relação à recente crise no Chile, transformado o assunto em mais um campo de batalha ideológica nas redes sociais.



OS ACONTECIMENTOS NA REGIÃO TÊM MAIOR CHANCE DE GANHAR ATENÇÃO AQUI SE PUDEREM SER INSTRUMENTALIZADOS POLITICAMENTE





Agora, são os críticos das medidas classificadas como “neoliberais”, colocadas em prática no país ainda durante a ditadura militar chilena e que estariam nos planos da equipe econômica do atual governo brasileiro, que alertam para a perspectiva de o Brasil cair em uma convulsão social similar.


Os dois casos ilustram outra característica da relação dos brasileiros com a realidade da América Latina: os acontecimentos da região têm maior chance de ganhar atenção por aqui se puderem ser “instrumentalizados” politicamente. A avaliação é de Leandro Gavião, doutor em história política e professor da Universidade Católica de Petrópolis (RJ).


Chilenos hasteiam bandeira Mapuche. País registrou os protestos mais violentos que resultaram em 20 mortos e centenas de feridos
Chilenos hasteiam bandeira Mapuche. País registrou os protestos mais violentos que resultaram em 20 mortos e centenas de feridos | AFP
 



“A crise no Chile está tendo repercussão pelo seu tamanho, mas também porque serve para tentar prever qual seria o impacto de uma plataforma neoliberal aplicada no Brasil”, explica. “Quem se identifica mais com a esquerda acaba replicando notícias sobre o Chile devido a um paralelismo com a política brasileira contemporânea”, avalia.



“Na eleição de 2018, falou-se no Brasil que, se a esquerda ganhasse, o País viraria a Venezuela. Agora, a esquerda está falando: com a direita no poder, a gente vai virar o Chile”, compara o professor.



“Toda crise em algum país vizinho pode ser instrumentalizada por alguma corrente interna no Brasil”, diz. “Elas se propagam porque há algum interesse político para que isso aconteça — o que muitas vezes nem é percebido pelas pessoas”, avalia.



FRONTEIRAS PERMEÁVEIS


O fato de a crise do Chile ter sido atribuída por analistas a uma reação social a reformas que fazem parte das inspirações do ministro Paulo Guedes (Economia) estaria despertando uma atenção genuína no Brasil, na avaliação de Fabio Luis Barbosa dos Santos, professor de Relações Internacionais da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo).



Para ele, a crise no país vizinho é motivo de preocupação para a elite brasileira e de interesse para “os de baixo”.


“Os protestos que acontecem no Chile, de certa forma, sugerem não só o tipo de desagregação do tecido social que este horizonte de reformas traz, mas também a rebelião que vem com ele”, argumenta.


Para Santos, as fronteiras dos países da região são permeáveis — o que seria ilustrado, por exemplo, pela influência que a Revolução Cubana (1959) teve na eclosão de guerrilhas em outros países e pela tomada de poder quase simultânea por ditaduras militares em todo o subcontinente. “Os vasos comunicantes são muitos”, diz.



“O Chile é o país que menos se importou com a integração sul-americana desde os anos 1970. No entanto, quando explodem essas crises, fica claro que somos irmãos. E o que acontece numa parte da família, afeta todos os outros”, diz o professor. “No momento em que isso é lembrado, uns tentarão abafar. Outros vão tentar entender e se inspirar. Todo mundo está olhando para lá por motivos diferentes.”




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