Cleuza Fornasier, professora do departamento de Design de Moda, da UEL : "O mercado da moda para a sociedade carente é uma grande possibilidade de melhorar de vida"
Cleuza Fornasier, professora do departamento de Design de Moda, da UEL : "O mercado da moda para a sociedade carente é uma grande possibilidade de melhorar de vida" | Foto: Anderson Coelho



A moda, por mais presente que esteja em nossa rotina, é mais complexa do que se imagina. O conceito pensado, estruturado, uma obra de arte desfilando em grandes espetáculos. Dos museus à indústria. As "maisons" de alta costura e seus estilistas renomados. O fast fashion, que coloca a sua versão nas vitrines e populariza o que parecia inalcançável. O comportamento, o negócio, a expressão, o consumo desenfreado. Moda nunca foi só uma peça do seu guarda-roupa.

"Existem vários vieses da moda: o sociológico, histórico, psicológico e o dos negócios. É um assunto que abrange muitas facetas que estão interligadas", conta Cleuza Fornasier, docente do departamento de Design de Moda, da UEL (Universidade Estadual de Londrina). Nos negócios, o momento é de crítica ao consumo exagerado. No entanto, a professora apresenta alguns pontos favoráveis.

Segundo ela, a alta costura dos desfiles de hoje não é, necessariamente, consumida por pessoas, mas por museus. "É um negócio como outro qualquer e que demonstra o que o estilista fez de raiz, de conceito daquele determinado momento", explica. Assim, a roupa é uma mensagem, como em uma obra de arte. "São espetáculos, não roupas para serem consumidas. Eles ditam tendência? Ditam", afirma.

Esses desfilem influenciam a confecção mundial. E com a rapidez dos meios de comunicação, tudo acontece de forma imediata. "Depois da Segunda Guerra Mundial, surge o prêt-à-porter (pronto para vestir), primeiramente vendido para as lojas de departamento com características de alta costura. Hoje não tem mais essa característica, não no Brasil", informa.

Tecidos e modelagem adequadas (não exatamente os melhores) e acabamento mais perfeito possível que uma indústria possa fazer são elementos que caracterizam o nosso prêt-à-porter de hoje. "Que custa tão caro quanto uma alta costura custava antigamente", argumenta.

Para essa produção, as indústrias entenderam que era necessário fazer um planejamento de cores, tecidos, comprimentos e formas da macrotendência, aquelas que perduram por algum tempo, e microtendência, que passam mais rápido. Com isso, o processo dá início pela indústria química de tinta, que se reúne para definir as cores do ano.

Com essa cartela de cores, o estilista monta a sua coleção até porque outras cores não são produzidas. "Aí teria que mandar fazer tudo. Uma 'grand maison' tem a possibilidade de fazer, mas sai caro e para isso você tem que pensar. Não adianta ser um grande estilista e não ter condição financeira. Por que Yves Saint Laurent deu certo? Por que Valentino deu certo e continua mesmo depois da sua aposentadoria? Porque não eram eles que cuidavam da parte econômica", explica.

Embora o consumo exagerado apontado no início do texto esteja implantado, expressar a personalidade, ter atitude para vestir o que quiser e exigir uma mudança social são pontos importantes. "A moda sempre esteve de acordo com seu contexto. Você já pensou em nós hoje em dia dirigindo, cuidando de filho, casa, profissão e usando espartilho e saia comprida?", questiona.

A moda tem muitas facetas e, apesar da crítica ao consumismo, Fornasier ressalta que esta é a segunda indústria mais poderosa do mundo e que tem uma grande quantidade de mulheres trabalhando. "Ou seja, é aquela indústria que tira as famílias da pobreza, que dá emprego para quem não conhece nada. Quanto mais pobre a sociedade, mais as mulheres sabem costurar. Portanto, o mercado da moda para a sociedade carente é uma grande possibilidade de melhorar de vida", enfatiza.

'É muito trabalho, mas é algo que eu gosto'

"Vamos incentivar a moda local, valorizar os pequenos produtores que fazem tudo com carinho", diz Danielly Narimato, que lançou grife própria em Londrina em 2014
"Vamos incentivar a moda local, valorizar os pequenos produtores que fazem tudo com carinho", diz Danielly Narimato, que lançou grife própria em Londrina em 2014 | Foto: Gina Mardones



Londrina forma profissionais qualificados para o mercado da moda. Além de cursos técnicos, universidades públicas e particulares oferecem cursos de graduação e pós-graduação na área. Apesar de a moda não ser um dos principais segmentos econômicos da cidade, muita coisa boa sai daqui.
Empreender faz parte. Danielly Narimato entrou para a indústria logo após a formatura. Depois de dois anos e meio de experiência, decidiu arriscar e emplacar sua própria marca de roupas femininas. A loja Nary foi lançada em 2014 com foco em vendas online, mas a etapa faz parte de um projeto maior. "É um processo, eu gostaria de ter a loja física", revela a estilista.
De modelagem versátil, a marca visa a praticidade da mulher moderna. Um pouco o espelho da estilista, que faz todo o processo praticamente sozinha. "Primeiro vou pesquisando ideias, definindo conceitos, cores, pesquiso tecidos em Londrina", conta. Narimato produz a peça toda na cidade, desde a compra do tecido, passando pela estamparia e contratação de modelos e fotógrafo.
Na cidade e dentro da própria casa. "Moro com duas irmãs, elas lidam bem com isso, elas sempre me ajudam", ri. Excetuando-se a costura e estamparia, Narimato faz tudo. Desenvolve a ideia, compra o tecido, produz a estampa, faz a modelagem, cria a grade de tamanhos, contrata agência de modelos e fotógrafo para o catálogo, diagrama o catálogo, divulga a marca na internet e atende as clientes. "É muito trabalho, mas é algo que eu gosto", afirma.
Além das duas coleções anuais (inverno e verão), a estilista se arrisca também nas encomendas de vestidos de festas, segmento que está se desenvolvendo. Enquanto isso, vai levando as duas formas de criação. Como inspiração, observa arte moderna e surrealista, além da natureza e culturas diferentes. "Já fiz uma coleção inspirada na Tailândia", recorda-se.
O negócio ainda exige bastante, mas a estilista já possui clientes fidelizados. "Minha primeira cliente foi uma amiga que comprou o primeiro vestido da coleção. Outra amiga é minha melhor cliente, que indicou para várias pessoas", relata. E assim vai crescendo a marca de conceito slow fashion, mais cuidadosa, humana e sustentável.
Elegância, conforto e versatilidade são as assinaturas. Em cortes diferenciados, texturas, formas em processo um tanto tecnológico e outro tanto artesanal, Narimato vai costurando uma linha minimalista e sofisticada nas peças. Com baixo investimento, mostra que é possível, desde que haja consciência do consumidor. "Vamos incentivar a moda local, valorizar os pequenos produtores que fazem tudo com carinho", finaliza. (L.T.)

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