"Eu realizo o sonho de muito motociclista, vivendo e trabalhando do que mais gosto", conta Anthero Luchetti, mecânico especialista em Harley Davidson e dono de bar que reúne a tribo de motocilcistas
"Eu realizo o sonho de muito motociclista, vivendo e trabalhando do que mais gosto", conta Anthero Luchetti, mecânico especialista em Harley Davidson e dono de bar que reúne a tribo de motocilcistas | Foto: Marcos Zanutto



"A estrada começa aqui, mas nunca acaba" (The Road Starts Hero, It Never Ends) é mais do que o slogan de uma lenda de duas rodas, a Harley-Davidson. Representa a gênese de um estilo de vida que teve data para começar, mas, enquanto existir a humanidade, nunca acabará: os motorcycles boys.

Para continuar lendo esta reportagem, a sugestão é colocar um rock para tocar, encher o peito do sentimento de liberdade e cruzar com os personagens as estradas do mundo sobre duas rodas, descobrindo um pouco do estilo de vida dos motociclistas.

De Marlon Brando, no filme "O Selvagem" (1953), e James Dean - que ganhou de presente uma motocicleta Czech Whizzer, em 1947 e, a partir daí teve uma coleção de motos -, ao visual motociclista esporte, custom, urbano ou off-road, a vida em duas rodas é uma cultura.

O jeans surrado e a jaqueta de couro dos anos 1950 não foram aposentados, mas hoje os motociclistas também rodam nas versões old school, rústicos, cabelos compridos, barba espessa e muitos acessórios.

Todo esse visual não existiria se as motos custom, como a Harley, também não fossem, cada vez mais, identificadas com os seus donos, por se diferenciarem das normais de série. Em geral, têm guidão largo, tanque em forma de gota e para-lamas metálicos sobre as rodas.

Essa imagem da moto e motociclista na estrada é um retrato de independência e ousadia. Enquanto as pessoas comuns sabem falar de liberdade, o homem em cima de uma motocicleta afirma que a conhece de verdade.

"Eu realizo o sonho de muito motociclista, vivendo e trabalhando do que mais gosto: a moto. A motocicleta também me proporcionou uma das melhores viagens da minha vida até o Rio de Janeiro, com o meu pai, para assistirmos juntos ao show dos Rolling Stones", conta o mecânico especialista em mecânica Harley Davidson, Anthero Luchetti, de 32 anos, o Bob, que também é dono de um bar onde a rapaziada das motos se encontra.

Com um way of life inspirado nos norte-americanos em quase tudo, os motociclistas brasileiros se diferem por preferirem os clubes e a camaradagem entre amigos à violência das gangues da América.

"A moto me deu muitos amigos em Londrina. Já mudei para Curitiba e voltei só por causa das amizades", diz o empresário Leonardo Luchina, de 38, que tem mais de 200 mil quilômetros rodados sobre duas rodas. Distância suficiente para dar mais de cinco voltas ao redor da Terra.

Esse estilo paz e amor não faz distinção também entre os tipos de moto, como acontece nos EUA.

"Quem curte moto e leva o estilo de vida nosso, diz que vive o que a vida oferece. Poucas pessoas adotam isso de verdade", ressalta o mecânico Henrique Alves, de 32, que fez parte do grupo dos harleyros londrinenses, apesar de ter uma moto Honda MC 700X.

A fama de durões dos motociclistas, popularizada pelo cinema, ainda pega garupa de quem vive em duas rodas. Gisele Bolteri, de 28, esposa de Bob, diz que até hoje a sua família não gosta do estilo de vida do marido.

"Estamos juntos há sete anos e temos dois filhos. Apesar de eu ter os meus limites, como a própria velocidade, que é uma coisa do estilo moto, quando eu conheci o Bob ele já gostava de motocicleta", explica Gisele, como é compartilhar o estilo do marido.

Em cima de sua moto, Bob consegue viver uma outra vida que o cinema é incapaz de reproduzir e que fica por conta do mito. "A motocicleta proporciona um prazer, no caso da Harley, datado de 1903, quando a famosa fábrica de motos foi fundada. Isso não tem preço", conclui.

Nas asas do vento

Regra de ouro entre os motociclistas é não pilotar mais rápido do que o seu anjo pode voar. Para o copiloto da aviação comercial, da ponte aérea Rio-São Paulo, Leandro Carvalho, de 39 anos, a norma não vale quando está no ar, beirando fácil os 900 quilômetros por hora. Em terra firme, pilotando a sua Glide, a velocidade respeita o princípio. Porém, a emoção do domínio do homem sobre a máquina é a mesma de voar na velocidade do som.

Desde a adolescência, a motocicleta faz parte dos sonhos do aviador, mas só há seis anos comprou a sua moto custom. "Desde então, eu vivo neste mundo de motos de viagem. Sempre gostei desse sentimento de liberdade, de conhecer novas culturas, desfrutar gastronomias e músicas diferentes, que o motociclismo proporciona", afirma.

Durante os voos de avião, Carvalho observa a paisagem lá embaixo. "Fico olhando os lugares que gostaria de fazer de moto. Um dos que já fiz foi de Angra dos Reis, no Rio, até Paranaguá", conta Carvalho, acrescentando que já incluiu no mapa de viagens futuras o Chile, o Peru, a Bolívia e a famosa Rota 66, na Califórnia (EUA).

Pioneira nas estradas

A psicóloga Juliana Bordin: "Quando saio na rua, é comum as pessoas aplaudirem, outras elogiam, gritam"
A psicóloga Juliana Bordin: "Quando saio na rua, é comum as pessoas aplaudirem, outras elogiam, gritam" | Foto: Arquivo pessoal



Da mesma costela que foi feita a paixão do homem pela motocicleta também saiu o prazer pela velocidade por parte de algumas mulheres que amam o estilo duas rodas.

A psicóloga Juliana Bordin, de 37 anos, aprendeu a pilotar aos 15 com o pai. Passou pela CG Titan 125 até chegar a sua Fat Boy Glide 1.600 cilindradas.

"Quando saio na rua, é comum as pessoas aplaudirem, outras elogiam, gritam. Eu realizo o sonho de muitas pessoas", afirma.

Juliana se considera uma pioneira nas estradas da região, sendo que até nos motoclubes a participação feminina é pequena.

A moto faz parte de sua vida e, inclusive, o marido dela, o advogado Ricardo Bordin, de 37, teve que adotar o visual capacete e luvas de couro.

"O Ricardo não andava de moto antes de me conhecer. Eu que o ensinei a pilotar motocicletas", conta Juliana.

'A motocicleta faz amizade'

Aos 64 anos, o comerciante aposentado Lúcio Flávio Santos registra a vida em milhas percorridas mundo afora de motocicleta. Para muitos motociclistas londrinenses, ele é considerado um mártir das estradas ao se entregar ao prazer de pilotar.

Em 2015, ele foi sozinho numa viagem de 22 dias, ida e volta, de Londrina à Patagônia, no fim do mundo. "Quando você viaja longas distâncias, carrega a bandeira do seu país e todos o ajudam pelo caminho. A motocicleta faz amizade, não tem explicação", revela.

Santos já cruzou três vezes a famosa Rota 66, que em suas milhas resume a contracultura americana. Pensa que parou por aí? Nada disso, o londrinense participou das edições 2012 e 2014 do Sturgis Motorcycle Rally, o mega encontro de motociclistas na cidade de Sturgis, em Dakota do Sul (EUA).

O leitor deve estar se perguntando porque Santos é considerado um mártir das estradas pelos companheiros. O mecânico de Harley Davidson, Anthero Luchetti, o Bob, conta que o amigo, em novembro, fez um transplante de fígado. Mas quatro meses depois já estava pilotando moto, revelando o quanto o estilo faz parte da vida de motociclistas.

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