Ter cabelo branco não é sinônimo de velhice. É maturidade, resultado de experiências. É bem verdade que se perde algumas coisas nas transições da vida, mas nem tudo é perda, é preciso valorizar os ganhos. Inteligência emocional, poder de decisão, liberdade. O outono da vida chega para todos, saber aproveitar é fundamental.

"A maturidade, se for bem vivida, permite uma apreciação da vida que a juventude não permite. Às vezes a gente corre tanto atrás de umas coisas achando que vai ser feliz, na maturidade até larga mão disso, descobrindo que precisa de outras coisas, outros valores", explica Sylvio do Amaral Schreiner, psicoterapeuta.

Nesta fase da vida, quando os filhos já estão crescidos, os netos vão chegando e com eles a aposentadoria, há que se aproveitar. No entanto, muitos só veem os prejuízos que a idade traz. O corpo não é o mesmo, apresenta as limitações e medos. "Esses medos nos mostram que somos parte da natureza, portanto, fadados a morrer. Existe uma tendência em pensarmos que somos eternos. Essas mudanças vêm avisar que não somos. Algumas pessoas reagem mal", aponta.

O psicoterapeuta indica que esta é só mais uma fase de transição, por isso, como as outras, é assustadora. No entanto, este período em particular apresenta uma regressão física. "Isso não significa que seja uma regressão psíquica, pode ser uma fase de extrema riqueza", indica Schreiner. "Nos países onde se tem neve, o outono é época de colheita. É época de colheita de coisas que nós fizemos na nossa vida também. A gente pode colher muito, aproveitar e mudar muita coisa". Ainda há tempo de mudar, continuar vivendo.

Na maturidade, com sabedoria e experiência, também é possível descobrir o amor. "Na juventude o amor é distorcido pelas cobranças e idealizações e acaba não sendo bem vivido. Muitos casais se separam e depois descobrem no segundo, terceiro casamento o que é realmente o amor, de uma perspectiva mais livre, leve, mais gostosa, prazerosa, sem idealizações", orienta.

Além da descoberta de novas formas de amor: pelos netos, por novas pessoas, amor sexual. "Hoje em dia o sexo não acaba, pode ser descoberto e redescoberto de outras maneiras. Claro que não temos a resistência de quando tínhamos 20 anos, no entanto, se vive uma coisa muito melhor do que quando se tinha 20".

Aceitar é o melhor caminho. Viver e permitir que se viva, sem buscar o controle do tempo e fonte da juventude. "Quem não aceita, não está vivendo, está querendo controlar", afirma. Só assim é possível olhar através. Compreender que há sim perdas, mas devemos enxergar os ganhos. "As árvores perdem as folhas, mas algumas coisas dentro delas estão em gestação. Na nossa vida psíquica também, a gente perde aquele viço da vida, mas se ganha uma perspectiva de olhar mais experiente, maior e mais panorâmica".

A dica do psicoterapeuta é saber viver uma fase de cada vez. "É o que temos. Não dá para falar que a melhor época da minha vida foi infância, tudo bem, podemos carregar memórias, mas a melhor fase da vida tem que ser agora, porque querendo ou não, tem que ser", finaliza.

'É uma fase muito boa'

Maria de Fátima de Freitas, 63: "Com a maturidade, você tem mais experiências de todas as batalhas que já venceu para se tornar mais forte"
Maria de Fátima de Freitas, 63: "Com a maturidade, você tem mais experiências de todas as batalhas que já venceu para se tornar mais forte" | Foto: Saulo Ohara



Uma lesão impossibilitou a continuidade do trabalho de Maria de Fátima de Freitas, 63, que foi surpreendida com uma aposentadoria precoce em relação ao que tinha planejado. Trabalhar com movimentos repetitivos das mãos não era mais permitido e, como faxineira de condomínio, teve que largar a função para evitar que a lesão piorasse. "Para eu aceitar isso... Na minha cabeça eu tinha sido diagnosticada como incapaz. Tive que gerir tudo isso, tive uma depressão, ainda estou me tratando, mas cada dia é uma vitória", comemora.

No momento, parece estar em um período de reavaliação. Com os quatro filhos "encaminhados", um neto de 10 anos e uma vida para chamar de sua, começou a exercer novas atividades. Caminhadas, trabalhos voluntários três vezes por semana, estudos sobre áreas do seu interesse, viagens, encontros com a família e os amigos... Freitas não se priva de nada.

Compreende que agora está em uma fase diferente, um período de maior reflexão em que as crises da juventude servem de experiência para enfrentar desafios com maior ponderação. "Quando você está com filho pequeno, está naquela roda viva, enfrenta tudo sem pensar nas consequências. Com a maturidade, você tem mais experiências de todas as batalhas que já venceu para se tornar mais forte. É uma fase muito boa", afirma.

É neste período que também concretizou sonhos. "Faz dois anos que a gente (ela e o marido) construiu a nossa casa. É espírito aventureiro, com 60 anos se aventurar a construir uma casa", brinca. E os sonhos não param. Com a liberdade de não ter mais responsabilidade com dependentes, revela que morar na praia é um desejo palpável. "Porque posso vender minha casa e ir mora lá. Os filhos já estão todos formados, encaminhados, esse sonho com o filhos eu já concretizei."

A liberdade e a descoberta. O amor também chega para quem está no outono da vida. "Quando eu soube que tinha um neto a caminho, foi uma emoção... Quando a gente tem os filhos, a gente mesmo se cobra para dar o melhor, tanto materialmente quanto espiritualmente. Eu estava já entrando na depressão, mas quando ele nasceu, me tirou do fundo do poço", conta com a voz embargada. "É muito diferente, você está ali, plena para viver aquilo sem cobrança. É muito forte. Eu o apelidei de vivida", emociona-se.

Descobrindo-se a cada dia, Freitas não para. Dedica-se às novas atribuições e se desdobra para dar conta de tudo ao mesmo tempo em que agradece ter saúde para realizar todas as atividades que escolheu desempenhar. Apesar das limitações, reconhece que a idade lhe trouxe sabedoria para lidar com os novos desafios da melhor forma possível. "A doença me privou de fazer muita coisa, estou limitada nesse sentido, mas isso não impossibilitou meu ir e vir", defende.

mockup