A Tubaína que dá leite
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sexta-feira, 29 de junho de 2018
Lais Taine<br>Reportagem Local 

Na jarra de vidro, o leite até parece mais branco embaixo de uma crosta de gordura que se forma aos poucos, demonstrando sua consistência. Na chácara da família do Carmo, nas proximidades do distrito de Warta, duas vacas são responsáveis por garantir o café da manhã de 10 pessoas. Nessa rotina, há muito amor e valorização pelo trabalho no campo.
A família de Everaldo Correia do Carmo, 48, responsável pela chácara, já está toda de pé quando o sol ainda ameaça aparecer. Apesar do domingo, o trabalho o aguarda. "Aqui é de domingo a domingo, não tem feriado, não tem chuva, nem sol", afirma.
Ele pega o balde de lata, calça a galocha e chama: "vem, Tubaína!". A vaca se aproxima um pouco arisca com a presença de uma pessoa estranha, a bezerra a acompanha. "Essa vaca apanhou muito antes de vir pra cá, por isso ela é assim", explica em tom de zelo. Ele amarra o banco na cintura e começa o trabalho. O primeiro gole é sempre para os gatos que aguardam ansiosos ao redor.
O local de três hectares possui duas vacas, um boi e um bezerro,entre outras criações. As vacas revezam o período de lactação, Tubaína está na ordenha e a Neguinha está prenha. São retirados aproximadamente 10 litros de leite por dia, o suficiente para alimentar 10 pessoas da família. "Nós fomos criados tomando leite direto da vaca, às vezes tomava do balde mesmo, sem ferver", recorda.
Além da família, vizinhos também compram o que sobra da produção. A quantidade de produção ideal para a sustentabilidade do local. "Uma vaca de alta lactação aqui eu não quero, eu não preciso de mais leite, para mim está ideal", afirma.

Do Carmo acredita no valor do que faz, assim ele vê de onde cada coisa vem e tem interesse em saber para onde vai. Atenção difícil atualmente, até mesmo na questão da bebida. "Hoje está se perdendo o hábito de tomar leite. Além disso, aquele de caixinha não tem nada, é um suco. Eu nunca vi um leite durar 40 dias", critica.
Segundo ele, a correria do dia a dia acaba influenciando. "Para a pessoa, é ideal que ela coloque as caixas embaixo da pia e não tenha trabalho com isso, porque ela não tem tempo. Essa conversa de não ter tempo é que dói", argumenta quem trabalha na própria chácara e sai cedo para o trabalho fora.
Embora viva a correria, insiste no sítio, inclusive como um negócio que exige além do trabalho pesado, conhecimento de administração. É um esforço para consumir com qualidade. "Uma xícara do nosso leite me sustenta, eu posso tomar um litro de leite daquele que não faz efeito. A proteína do nosso leite é forte, dá resistência", compara, lembrando que levou dois coices na canela em menos de uma semana e o médico avaliou seus ossos como muito fortes por não terem se quebrado. "Ele disse que eu tinha ferro no lugar do osso, mas é por causa do leite."
Entre o trabalho formal e o do campo, vai persistindo. Neguinha e Tubaína dividem o pequeno pasto e reconhecem o dono pelo cheiro e pelo chamado. É assim que o produtor espera que as próximas gerações continuem: separando os maus costumes, mantendo os bons, produzindo com bom trato dos animais e consumindo leite. Alguma coisa já estão aprendendo. "Aqui, se você colocar só garrafa de café na mesa, vai arrumar briga", brinca.


