Fenômeno que ganhou força no ambiente virtual, "cancelamento" personalidades e marcas prejudica reputação e negócios
Fenômeno que ganhou força no ambiente virtual, "cancelamento" personalidades e marcas prejudica reputação e negócios | Foto: iStock

Palavras e expressões volta e meia entram e saem de moda no nosso dia a dia. Nos últimos tempos, uma das mais famosas e repetidas envolve a chamada “cultura do cancelamento”. Com força no ambiente virtual, o verbo “cancelar” deixou de se referir exclusivamente à interrupção de um serviço ou algo semelhante – passou a mirar personalidades, marcas e reputações.

Após erros ou deslizes, famosos foram alçados ao “Supremo Tribunal Virtual”, no qual muitos são os réus e mais ainda os juízes. Ali, todos se sentem autorizados a dar seu veredito. E qualquer vacilo, em maior ou menor grau, acaba levando à mesma pena: o “cancelamento” do indivíduo.

Uma das vítimas foi Gabriela Pugliesi, blogueira fitness que ganhou fama ao compartilhar nas redes sociais dicas saudáveis de alimentação, atividades físicas e estilo de vida. Em abril, em meio à pandemia do novo coronavírus e diversas restrições para se evitar aglomerações, ela não se preocupou em realizar uma festa em casa e postar imagens celebrando com as amigas. A reação foi imediata: internautas “cancelaram” Pugliesi e passaram a pressionar as marcas que a patrocinavam para rescindir contratos de publicidade. Pelo menos cinco deles foram para o espaço, com um prejuízo acima de R$ 2 milhões. Após três meses afastada das redes, ela desabafou no retorno.

“Eu perdi uma boa parte da minha paz, perdi alegria, perdi trabalho, como vocês sabem, perdi a confiança de vocês. Mas de tudo isso, o que eu mais perdi foi a mim mesma. Eu não estava vendo o quanto eu estava estagnada, iludida, não enxergando um palmo à frente. Por um momento eu estava tomada pelo ego, vivendo nessa bolha e deixando de olhar para o mundo o tanto que eu deveria”, afirmou.

Alessandra Negrini foi alvo de "cobranças" e ataques nas redes sociais
Alessandra Negrini foi alvo de "cobranças" e ataques nas redes sociais | Foto: Bruno Poletti/Folhapress

Por motivos diversos, a onda de “cancelamentos” também já mirou as atrizes Alessandra Negrini e Bruna Marquezine, o ator Arthur Aguiar, a escritora Lya Luft, a cantora Anitta e o médico Dráuzio Varella, entre tantos outros. Até figuras do passado, como a Princesa Isabel e o ex-primeiro-ministro inglês Winston Churchill, entraram na rota. Segundo o Google, as buscas pelo assunto cresceram 1.200% nos últimos três meses.

Até figuras do passado, como a Princesa Isabel, entraram na lista dos indesejados
Até figuras do passado, como a Princesa Isabel, entraram na lista dos indesejados | Foto: Insley Pacheco/wikipedia.org/Domínio Público

“É fato que algumas críticas são pertinentes e toda pessoa pode ser cobrada por algo que fez ou falou, mas será que todos que atacam, principalmente os mais exaltados e radicais, possuem condições morais de fazê-lo? São figuras que não erram, que pairam acima do bem e do mal?”, questiona a antropóloga Maria Cristina Neves.

“Vivemos em uma era de cobranças constantes e isso não é o problema, mas passa a ser quando esse ataque se torna histeria apressada para linchar reputações sem direito à defesa, com a possibilidade de se cometer injustiças exatamente em uma hipotética busca por justiça”, complementa.

O médico Dráuzio Varella foi uma das personalidades colocadas na "geladeira" pelos internautas
O médico Dráuzio Varella foi uma das personalidades colocadas na "geladeira" pelos internautas | Foto: Bruno Santos/Folhapress

O psicólogo Régis Abreu vai na mesma direção. Para ele, o sentimento revanchista acaba repetindo as práticas que se pretende criticar. “O clima de animosidade das redes sociais é cada vez mais surreal e, em alguns casos, tem um tom de birra, de insatisfação com algo que não se concorda e deseja eliminar, apenas porque é diferente. Só que, às vezes, aquilo não é algo errado ou um crime, mas um posicionamento, que pode ser político ou técnico sobre algo. E aí um grande contingente de pessoas quer silenciar o outro lado, apenas porque não concorda, esquecendo os princípios básicos da democracia. Eu não gosto então cancelo, simples assim. O custo disso é um empobrecimento, ou até o fim, de diálogos e debates importantes, já que ao invés de se discutir um tema ou problema, ‘cancela-se’ o outro lado e ponto final. É superficial e até infantil”, avalia.

A  escritora Lya Luft também entrou na onda dos "cancelamentos"
A escritora Lya Luft também entrou na onda dos "cancelamentos" | Foto: Adriana Zehbrauskas/Folhapress

Fora do país, o assunto também gera polêmica, e não apenas com famosos. Pessoas comuns também são alvos da cega ira virtual. Em junho, o americano Emmanuel Cafferty voltava para casa após passar mais de oito horas em inspeções na rede subterrânea de gás e eletricidade da cidade de San Diego, na Califórnia. No volante da caminhonete da empresa, ele mantinha a janela aberta, o braço esquerdo pendendo sobre a porta do veículo. Segundo ele, estalava as juntas dos dedos da mão esquerda, o polegar alongando os demais dedos em direção à palma da mão. “Nesse momento, um homem desconhecido, com um celular e uma conta de Twitter, virou minha vida de cabeça pra baixo”, contou Cafferty em entrevista. O homem começou a buzinar e xingar, gritando “você vai continuar fazendo isso?”. E pegou o celular para fotografar.

Duas horas após o fato, o supervisor de Cafferty telefonou para dizer que ele havia sido denunciado como racista nas redes sociais e estava sendo suspenso do trabalho, sem salário. Uma hora mais tarde, colegas chegaram à sua casa para levar a caminhonete e o computador da empresa embora. Cinco dias depois, foi demitido.

De acordo com a Anti-Defamation League (ADL), uma organização que combate discursos de ódio, o símbolo de “OK” foi adotado em 2017 por usuários racistas em fóruns online. Mas a própria organização recomenda cautela na interpretação do sinal, ponderando que, na esmagadora maioria das vezes, o gesto significa apenas consentimento ou aprovação. Por isso, não se pode presumir que alguém que faça o gesto o esteja usando em um contexto de racismo, a menos que exista outra evidência contextual para confirmar esse entendimento. Desde 2017, muitas pessoas foram falsamente acusadas de racistas ou supremacistas brancas por “usarem o gesto no seu sentido tradicional e inócuo”, alertou a ADL.

É exatamente o que teria acontecido com Cafferty. “No meu caso, nem era um símbolo, só estava estalando os dedos. Mas um homem branco interpretou como um gesto parecido com ‘OK’, que seria racista e disse isso a meus chefes, também brancos, que decidiram acreditar nele, não em mim, que não sou branco”, afirmou.

O autor da fotografia e do primeiro post contra Cafferty admitiu à emissora americana NBC que pode ter exagerado na interpretação que fez do suposto gesto e que, apesar de ter marcado a empresa em que Cafferty trabalhava, não queria que ele fosse demitido. O usuário apagou a mensagem original e a própria conta de Twitter. Mas já era tarde: o post havia viralizado e o emprego estava perdido.

“É uma situação bem didática de como a velocidade de julgamento, a ânsia por punição sem ouvir o outro, sem entender contextos e um justiçamento com base apenas nas próprias percepções podem causar danos graves, até irreversíveis. E, geralmente, os covardes autores desaparecem depois, como nesse caso. Só falam em justiça, mas na verdade não a praticam. É algo muito sério”, lamenta o psicólogo Régis Abreu.

A antropóloga Maria Cristina Neves prega prudência. “É preciso refletir sobre a sociedade que queremos. Para quem é famoso, o medo de ser cancelado vai ser proporcional à fama alcançada. Isso pode tirar de debates importantes pessoas com relevância, opiniões interessantes, por simples medo de se posicionar e ser atacado. Por outro lado, vai haver pressão para se posicionar, senão cancela-se por não opinar. Ou seja, um ambiente péssimo, tenso, insustentável. Será que é isso que queremos, esse clima bélico? Acho que é preciso maturidade e calma para lidar com essas situações”, sugere.

E se alguém errar comprovadamente, o cancelamento é merecido? Para Régis Abreu, é possível encontrar formas menos agressivas de se “dar um toque” nas pessoas. “Que se faça a crítica, já que ela leva ao amadurecimento, mas sem esse dedo em riste da superioridade moral, do linchamento, do silenciamento. Isso não é bom nem para quem ataca, muito menos para o atacado, acarretando danos para a saúde mental dos dois”, observa o psicólogo.

Mas a julgar pelo clima das redes sociais, a “cultura do cancelamento” ainda vai perdurar por um longo tempo. É preciso pisar em ovos para não ser o cancelado da vez.

mockup