A criança dentro de cada um
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 07 de outubro de 2016
Carolina Avansini<br>Reportagem Local 

Na canção "Bola de meia, bola de gude", Milton Nascimento já cantava que "há um menino, há um moleque, morando sempre no meu coração. Toda vez que o adulto balança, ele vem pra me dar a mão".
O psiquiatra e psicoterapeuta suíço Carl Jung, antes disso, afirmou que dentro de todos nós há uma criança eterna, algo que nunca está completo e que solicita atenção e educação incessantes.
A música, as artes e a ciência estão sempre lembrando que os adultos de todas as idades mantêm dentro de si a chamada criança interior, que precisa ser eternamente cuidada. Mas como ouvir o que ela quer e precisa?
A professora doutora Denise Tinoco, coordenadora do curso de Psicologia da Unifil, introduz a resposta ao explicar que respeitar os desejos e talentos de cada um é fundamental para manter os adultos conectados com a criança interior.
Segundo ela, a personalidade é composta por um lado adulto, ligado à racionalidade; um lado pai, relacionado a crenças e valores; e o lado criança, ligado à criatividade, aos sentimentos e às emoções. Este lado criança não diz respeito apenas à infância, mas se faz necessário durante todas as fases da vida justamente para garantir o desenvolvimento de adultos realizados e felizes.
No momento do nascimento, os seres humanos são totalmente espontâneos. Denise explica que, à medida que vão crescendo e se educando, a espontaneidade passa a correr riscos, principalmente quando o amor oferecido à criança é condicionado ao atendimento de expectativas dos pais, por exemplo. "Quando o indivíduo não é aceito como realmente é, leva à perda da espontaneidade e da criatividade. Isso pode transformar a criança em um adulto infantilizado, birrento, revoltado ou então muito tímido e acuado. É preciso terapia para trazer a criança de volta", analisa.
A professora esclarece que a criança tem que ser amada naquilo que apresenta. "O filho não precisa ser do jeito que os pais querem. Muitas vezes o que os pais desejam não tem nada a ver com o talento das crianças. Há pais que ficam obcecados com a ideia do filho ser médico, por exemplo, mas não percebem que a criança gosta de música ou de comércio", exemplifica.
Na infância, o cuidado com a criança interior se manifesta na valorização das brincadeiras, dos talentos e da vontade dos meninos e meninas. "É brincando que eles desenvolvem papeis, possibilidades na vida... Infelizmente as crianças estão sendo podadas nisso, pois há pais muito bem intencionados que enchem a agenda dos filhos de compromissos sem saber se eles gostam daquilo. A criança precisa do olhar, da escuta, do interesse pelas coisas que ela faz. Se os pais se apegam só a um aspecto, a criança pode se tornar frustrada, muitas vezes até perdedora na vida, pois os talentos que ela tem não foram sequer enxergados", critica.
Já os adultos podem cuidar da criança interna pensando e refletindo sobre as situações que os travam ou causam muita alteração. "Se tem vontade de fazer algo e se isso não vai prejudicar ninguém no sentido ético, vá e faça!", aconselha Denise, lembrando que ninguém vai conseguir agradar os pais sempre. Outra dica importante é liberar a criatividade e abrir espaço para o brincar também na vida adulta. "Ninguém faz sexo com o lado adulto ou crítico, as pessoas fazem sexo brincando. Também é assim que fazemos amigos, com espontaneidade", aponta.
A criança interior também ajuda a comunicação com as crianças do dia a dia, seja adotando uma linguagem adequada à idade, abaixando-se para falar com elas e brincando do jeito que elas sugerem. "Pais que não deixam as crianças brincarem estão desrespeitando a infância dos filhos", avisa.


