A alma do Pantanal
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sexta-feira, 15 de junho de 2018
Érika Gonçalves<br>Reportagem Local 

Há quem associe uma boa viagem a restaurantes requintados, hotéis de luxo, compras e muito conforto. E há quem considere uma boa viagem justamente o contrário de tudo isso, com direito a boas doses de aventura e muitas histórias. Para os expedicionários, quanto mais a ser desbravado, melhor! Os casais Mara Tkotz, fotógrafa, e Klaus Ronald Tkotz, engenheiro mecânico aposentado, e Rosani Paiva Ariosi, terapeuta, e Milton Luiz Ariosi, agricultor, se encaixam na segunda opção. Desde 2012 eles se aventuram em expedições para o Pantanal, tendo viajado mais de cinco mil quilômetros pelos rios.
Até hoje foram seis expedições, cujos objetivos foram se delineando e aumentando ano após ano. Se a intenção inicial era fazer um trabalho de divulgação e registro do Pantanal, com a produção de um livro e uma exposição fotográfica, hoje se ampliou para um trabalho social junto aos ribeirinhos e a pesquisa e documentação do ciclo das águas e da pesca da tuvira, um peixe usado como isca no Pantanal. Fotos, vídeos e histórias da Ecoclic Expedição Pantanal podem ser conferidos em seu site e também em uma página do Facebook.

O grupo conta que a ideia de fazer as expedições surgiu em uma conversa informal, já que os amigos gostavam de praticar a pesca esportiva no Pantanal e Rosani e Milton já tinham feito algumas viagens de chalana. A vontade, entretanto, era conhecer a região mais a fundo, em locais onde os barcos de turistas não entram e os pirangueiros não têm autorização para levar os viajantes.
"A cada ano inventamos alguma coisa nova para explorar outros rios, conhecer outras pessoas. Em um barco hotel você não tem a mesma independência de ir aonde nós vamos", explica Klaus.

Cada expedição dura em média entre 15 e 20 dias, contando os quase dois dias de viagem para chegar ao Pantanal. A última, em abril, é considerada a mais pesada, porque foram 14 dias no barco.
Ao longo dos anos a forma de viajar foi sendo aperfeiçoada. Se na primeira vez usaram apenas um carro e um barco, hoje os casais viajam em carros separados e cada um tem o seu barco, customizado segundo as particularidades da região. Feitas de alumínio e com motor de popa, as embarcações têm 22 pés por 2,40m de largura e são próprias para navegar em áreas rasas. O tanque de combustível foi ampliado de 86 litros para 320 litros, o que dá mais de 600 km de autonomia e resolve um problema sério, que era o reabastecimento em uma região precária em infraestrutura. Passando a maior parte do tempo navegando, é sobre os barcos que são montadas as barracas, o banheiro que inclui um chuveiro quente, e a cozinha. Os toldos também foram ampliados e mosquiteiros customizados protegem os viajantes dos insetos.

Mara conta que o grupo já viajou em diferentes épocas do ano, justamente para acompanhar os ciclos das águas e verem como os ribeirinhos e os animais se comportam frente a essas mudanças.
"Eles fazem uma horta em uma canoa, que sobe junto com o rio na cheia, então não perdem o que têm. E vão se isolando no pedaço de terra mais alto, onde ficam pessoas e animais. Já na seca os animais que costumam ficar mais na mata na época da cheia, descem para o rio para beber água, é quando os avistamos mais."

Ribeirinhos ganham fotos

A cada viagem o grupo leva doações para os ribeirinhos como materiais de higiene, café, bonés e escovas de dentes. Mas o presente mais especial para os moradores do Pantanal parece ser uma fotografia, tirada por Mara, impressa e entregue em um porta-retratos. "É um fator surpresa muito legal. Nessa viagem o mais bacana foi (a história de) um índio, civilizado. Ele estava indo em uma canoa visitar um amigo e nos encontramos em uma comunidade de ribeirinhos que sempre paramos. Pedi licença, tirei a foto, imprimi, na hora que ele pegou, disse: 'até que eu sou bonito, né?'", conta Mara. "A pessoa fica se perguntando o que está acontecendo, eles não entendem a rapidez daquilo", acrescenta Rosani.
O grupo também já se surpreendeu com a capacidade dos ribeirinhos de improvisarem uma antena de forma a captar um sinal de um rádio telefone no meio do Pantanal, possibilitando que os pescadores de tuvira consigam falar com a família nas cidades. Há locais também em que já existe sinal de internet suficiente para funcionar o whatsApp, o que fez multiplicar o uso de smartphones.
Uma situação bastante curiosa encontrada pelo grupo foi a da índia Catarina, da etnia Guató. Dominando a arte de trançar o aguapé para fazer artesanato, ela ensina a técnica para as mulheres de uma comunidade ribeirinha no pé da Serra do Amolar. Além desse trabalho ela tem seu próprio ateliê na Casa do Artesão, em Corumbá, e até uma página no Facebook, uma surpresa para os viajantes.
Os amigos também percebem que as pessoas estão se tornando mais conscientes da necessidade de preservar a região, mas ainda existe a pauta predatória e a caça dos animais.


