Quem vê a professora aposentada Dorian Rocha Guerra circular com desenvoltura entre as crianças e adolescentes da ONG Viver e do setor de quimioterapia do Hospital Universitário (HU) não imagina que até há alguns anos, isso era impensável. Na manhã da entrevista, ela chegou ao Hemocentro do HU carregada de sacolas com materiais de recreação e lanche para a criançada, que imediatamente passou a andar em volta dela, até que tudo estivesse pronto para as atividades.
Para as mães, a chegada dos voluntários também é um alívio, afinal, a rotina de tratamento do câncer é dura e dolorosa e ver o filho ser apenas criança, mesmo que só por um tempo, vale qualquer sacrifício.
Natural de Ivaiporã, no Vale do Ivaí, Dorian veio para Londrina em 1991, acompanhando o marido bancário, que tinha sido transferido para a cidade. Já aposentada, ela conta que em 1995 começou um trabalho voluntário no Núcleo Social Evangélico de Londrina (Nuselon), onde visitava e brincava com as crianças que ficavam nos abrigos da entidade.
Pouco tempo depois, uma amiga que já era voluntária no Hospital do Câncer de Londrina (HCL) a convidou para participar das atividades com as crianças atendidas lá. O medo em lidar com pacientes tão fragilizados a fez negar o convite. "Eu disse que prepararia qualquer coisa que ela precisasse, mas não tinha condições de trabalhar com crianças com câncer", conta, acrescentando que ficou com aquela ideia na cabeça.
"Como sou cristã, tenho muita fé em Deus e quando vou fazer alguma coisa sempre vou buscar diante de Deus para ver o que Ele tem para mim. Começou a vir fortemente essa questão de ir ao hospital, mas eu não tinha coragem", diz.
Na preparação para a festa do Dia das Crianças, em 1997, Dorian lembra que essa mesma amiga pediu a doação de um bolo. Ela prontamente aceitou o pedido, desde que a guloseima pudesse ser entregue na portaria do hospital.
"Em mim mesma eu não tinha força nem capacidade de fazer esse trabalho, mas Deus me preparou para isso. Quando cheguei lá, o porteiro disse que eu teria que levar o bolo. Eu fui tremendo. Posso confessar que quando Deus te prepara para alguma coisa, é incrível. Parece que toda vida estive ali naquele lugar, com aquelas crianças e foi um amor tão grande no meu coração que eu comecei a brincar, a participar daquela festa como se há muitos anos eu estivesse ali. Aquilo foi maravilhoso, ai eu entendi que a única coisa que a gente precisa é ter essa disposição para servir e abrir o coração. Eu creio que a prioridade nesse trabalho é ter o coração cheio de amor, porque ele vai fazer diferença em tudo que você fizer", destaca.
Após a festa, ela soube que precisavam de um voluntário para fazer recreação e contação de histórias dentro da internação e se ofereceu. De lá para cá são inúmeras histórias com as crianças e suas famílias. Dorian diz que não é fácil participar de tantos momentos difíceis e muitas vezes foram as próprias crianças que a ensinaram a superar tudo.
Com o tempo e a companhia de mais voluntários, o espaço no HCL começou a ficar pequeno e a carência de algumas famílias, muitas vindas de outros municípios, chamava a atenção. Foi então que surgiu a ideia de fundar a ONG Viver.
"Deus foi trazendo tudo nas nossas mãos, foram surgindo parceiros, cada um dentro da sua área. Ai vemos que essas instituições têm que funcionar como um corpo. A pessoa que faz um trabalho que a gente acha que é menor, não é, se ela não fizer vai fazer uma falta imensa. É isso que fez acontecer a ONG Viver. Depois de muitos anos a ONG é uma instituição reconhecida. Esse trabalho só foi possível porque cada um contribuiu, trouxe a sua parcela."
Em 2007, ela conta que ficou sabendo que o HU estava com carência de voluntários e se ofereceu. "Fiz o treinamento com uma amiga e direcionei meu trabalho para o setor de quimioterapia. Agora toda segunda-feira estamos aqui, fazendo recreação, trazendo alegria e tudo mais que eles precisam", afirma.
O desafio agora é melhorar a situação dos pacientes de lá e para isso a equipe está em busca de recursos para investir no setor. "Queremos construir uma ala oncológica no HU, porque os pacientes ficam internados com outras patologias", explica.
A quem oferece ajuda, Dorian afirma que sempre retribui com um convite para conhecer o trabalho. "Ai cada um vê no que pode ajudar." E ajudar inclui também marido, filhos, genro e nora, todos envolvidos com o voluntariado. "Se a minha família não tivesse abraçado a causa, talvez eu não tivesse permanecido neste trabalho."

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