Voando alto, com os pés no chão
PUBLICAÇÃO
sábado, 21 de abril de 2007
Katia Michelle<br> Equipe da Folha 
Curitiba - Independentemente do sexo, cultura ou classe social, existe um desejo recorrente no ser humano: a vontade de viajar, conhecer novos lugares, pessoas e comportamentos. Quem conseguiu realizar esse sonho, no entanto, alçou vôos altos, mesmo sabendo da necessidade de manter os pés no chão. O curitibano Vicente Frare é um exemplo. Ele saiu da capital paranaense aos 19 anos para concretizar o desejo de ''morar fora''. Abandonou o curso de jornalismo da Universidade Federal do Paraná, depois de ser aprovado em primeiro lugar no vestibular, e decidiu estudar hotelaria e turismo na consagrada escola de Glion, perto de Montreux, na Suíça,
Depois de se formar com louvor foi trilhando caminhos e encontrando maneiras de conhecer cada vez mais culturas e locais. Muitos, inusitados. Morou na Inglaterra, Espanha e fez estágios nos mais distintos lugares até decidir trabalhar como comissário de bordo em Dubai, na companhia aérea Emirates Airlines. Somente nos últimos três anos conheceu mais de 60 países, sem contar as viagens anteriores a sua experiência como comissário. Treze anos depois de sair de Curitiba, Vicente pode se considerar um 'cidadão do mundo'. ''Eu sempre quis viajar muito e acabei conseguindo unir o trabalho a esse sonho'', conta.
Mas agora, Frare decidiu voltar para a capital paranaense para montar, em sociedade com duas amigas de infância, a Pulp, uma agência de conteúdo. ''Eu percebi que se ficasse viajando muito, eu ia ser mais uma dessas pessoas 'soltas no mundo' e isso me assustava, sempre fui muito família'', conta. Aos 32 anos, Frare já estava sentindo falta dos amigos. Como estudou na Escola Anjo da Guarda, em Curitiba, desde o jardim de infância até o ensino fundamental e tem um família grande (são 25 primos muito unidos, conforme revela) tem uma relação muito próxima com os familiares e amigos. O aconchego que só o país natal e suas próprias raízes podem oferecer falou mais alto e em novembro último ele deixou a companhia aérea em que trabalhava para voltar para o Brasil.
Mas muita milhagem rolou antes disso. ''Depois que me formei em hotelaria, fiz alguns estágios e trabalhos na área. Durante o curso, por exemplo, fiz um estágio de seis meses em Londres e outro também de seis meses na Disneylândia'', lembra. Em 1998, Frare voltou ao Brasil, mas sua estadia durou pouco. Dois meses depois, ele já era chamado pra trabalhar em um hotel na Guatemala, na América Central.
A experiência com a violência da cidade, além dos terremotos que assolam a região, não foi muito agradável para o curitibano, que logo deixou o país. Nada que abalasse sua vontade conhecer lugares inóspitos e inusitados. Pouco tempo depois, ele aceitava um trabalho nas Ilhas Maldivas, no meio do Oceano Índico. ''Lá eu trabalhei cerca de um mês, mas valeu a pena porque aproveitei a oportunidade do trabalho para conhecer o lugar''.
Como a região também era muito pequena e distante, ele decidiu voltar para Curitiba. Novamente, não durou muito. Descendente de italianos e libaneses, ele conseguiu a cidania italiana em 2000. Foi uma oportunidade a mais para continuar viajando, dessa vez sem problemas com visto e sem precisar necessariamente estar vinculado ao trabalho. ''Depois de várias experiências trabalhando com hotelaria, decidi que queria algo mais criativo'', conta.
Paralelamente ao trabalho, Frare já flertava com a fotografia. E foi mais ou menos nessa época que ele decidiu investir nessa arte. Seguiu então para Barcelona, na Espanha, para se especializar. Enquanto estudava fotografia e web design e fazia alguns trabalhos temporários viu no jornal um anúncio da companhia aérea Emirates Airlines, que buscava um comissário de bordo.
''Diferente do Brasil, lá não é preciso fazer curso para exercer a profissão e eu achei que seria uma ótima oportunidade para conhecer outros locais'', conta. Com a experiência, Frare viajou para lugares como o Paquistão e regiões que nunca pensou em conhecer, como Bangladesh, na Ásia. ''Eu trabalhava em aviões grandes, com 400 lugares. E lá todo mundo viaja, não é como aqui no Brasil que precisa ser pelo menos de classe média. Andar de avião por lá é como andar de ônibus''. Nesses vôos, Frare atendeu desde refugiados até peregrinos que seguiam para Meca.
''Foi a época que mais viajei e também a que mais fotografei'', revela. Um período que Frare reuniu mais de 10 mil imagens, em suporte negativo e digital. A idéia é transformar todo esse acervo em livro, ainda sem data de lançamento. Por enquanto, Frare se dedica a recém-criada Pulp, que montou com as amigas Patricia Papp e Fernanda Ávila. ''É uma fase mais estática, mas por outro lado a cabeça tem pensado e viajado muito'', considera. Sobre a experiência de passar mais de uma década viajando, Frare é categórico: ''Eu queria experimentar coisas novas, conhecer o mundo e voltar com a bagagem cheia e isso eu consegui'', comemora.
Para quem quer arriscar aventura semelhante, Frare dá a dica: ''Vá. Você vai aprender muito, entrar em contato com as outras pessoas e culturas, mas tem um porém: sua vida nunca mais será a mesma''. Se isso é algo bom ou ruim, só quem ousar poderá responder.
ENTRELINHAS
Formado em hotelaria e turismo pela Escola de Glion, na Suíça, Vicente Frare elege os lugares e situações preferidas ou constrangedoras que viveu nesse período
- Um país: Brasil
- Culinária: Os pratos libaneses. Gosto de tudo, sem excessão.
- Uma bebida: O café com leite de Barcelona. Não tem igual.
- Um lugar: As praias de Dubai.
- Arquitetura: De Estambul
- Diferença cultural: Senti quando estava no Oriente Médio e ia caminhando para academia. Todos me olhavam com estranheza por causa do modo de vestir. Durante o Ramandan (período em que os muçulmanos fazem jejum, por motivos religiosos) também bebia água escondido e ficava constrangido de cozinhar no meu apartamento, sabendo que os vizinhos iam sentir o cheirinho de comida...


