O londrinense Alexandre Yokoyama não é astrólogo ou vidente e tampouco faz as tradicionais previsões para o Ano-Novo. Mas ele aponta algumas tendências do que podemos vivenciar daqui cinco, 10 anos. E o faz com a propriedade de quem há anos faz dessa percepção um ingrediente para seu sucesso profissional. Em seu currículo aparecem passagens pelo Frigorífico Chapecó, IBM e Google, empresa que deixou em março de 2014, após oito anos, para se tornar um empreendedor digital.

Um dos primeiros funcionários contratados do escritório brasileiro da Google, Yokoyama ainda trabalhava na IBM quando ficou sabendo da vinda da empresa norte-americana para cá. Além de enviar o currículo pelas vias tradicionais, ele ainda contou com um toque de sorte. "Viajei ao lado de uma pessoa que estava recrutando profissionais mas que não contou para que empresa, mas eu imaginei que seria para a Google", explica.

"Naquela época, a entrada na empresa era mais restrita, passei por 12 entrevistas", lembra Yokoyama, que foi contratado para o time de vendas. "Fazer negócios no Brasil é diferente dos Estados Unidos", conta. "Ajudei a formatar um modelo de parceria", completa. Dos cerca de 40 funcionários iniciais, a Google conta com quase 1.000 contratados hoje, segundo uma projeção de Yokoyama.

Desde que deixou Londrina para estudar em São Paulo, 25 anos atrás, Yokoyama se acostumou a sempre pensar alguns bons passos à frente. "Sabia que queria fazer Administração de Empresas e optei pela melhor escola, a FGV. Conversando com meu pai decidimos que eu faria o cursinho em São Paulo", lembra, sobre a preparação.

Ainda como universitário, um estágio no Citibank serviu para confirmar a falta de vocação para o setor. "Não me encontrei na área financeira", diz. Por outro lado, a tecnologia sempre fez parte da sua carreira, além da área de importações em empregos em Florianópolis, Curitiba e São Paulo.

Em 2010, em uma das revisões de carreira promovidas pela Google, Yokoyama se viu instigado à uma grande mudança. Poderia ter ido para os Estados Unidos e Europa, mas preferiu a Ásia. "Apesar de ser neto de japoneses, eu não tenho domínio no idioma para fazer negociações, então tinha que ser um país que falasse inglês", justifica Yokoyama sobre a opção por Cingapura. "Também poderia ir para a Austrália, mas acabaria ficando restrito a um país, como no Brasil. Cingapura é um hub regional", explica.

"O Brasil tem uma produtividade de 60, 70% do americano e o Sudoeste Asiático estava com 25%, então levei para lá as boas práticas quem vinham sendo aplicadas aqui", lista Yokoyama, que também ajudou a melhorar a reputação da Google entre os parceiros asiáticos. "É um trabalho que vai ter frutos ao longo dos anos", prevê.

Para surpresa geral, Yokoyama pediu demissão depois de oito anos de casa, que por sinal, figura nos topos das listas das melhores empresas para se trabalhar no mundo. Tudo em prol do empreendedorismo, já que ele se tornou CEO de uma startup que promete revolucionar a telefonia. "No Brasil eu já fazia umas palestras para devolver à comunidade o que aprendi. Em Cingapura, em uma das palestras, um aluno de uma das incubadoras de startups veio falar comigo", conta sobre o primeiro passo para a mudança na carreira.

A aposta de Yokoyama tem a ver com alguns dos rumos que ele aponta para os próximos anos. "A fala veio antes da escrita", lembra. "Em tempos de touchscreen, a voz pode ser um meio de incluir pessoas com dificuldades", completa. Para ele, são duas grandes tendências que veremos em um horizonte de 10 anos.

"São duas buzzwords, a internet das coisas e a computação portátil com os wearables (vestíveis). Os serviços de celular sem um celular propriamente dito", indica, citando dispositivos como o Google Glass e os smartwatches, que funcionam como projetores de telas. "Vejo como possibilidade as pessoas usarem dispositivos que não precisem ser recarregados com tanta frequência", ensina.

"Já na internet das coisas, vejo quase tudo dentro de casa conectado e dentro do contexto da sua vida. Então você chega em casa e tem geladeira conversando com a banheira. A sua casa já sabe o que tem que preparar para sua comodidade antes mesmo de você chegar", traduz.

Aproveitando a folga das festas de final do ano, Yokoyama e a esposa Alessandra cruzaram o planeta para passar o Natal e o Réveillon ao lado dos familiares e amigos em Londrina. O convívio, mesmo que curto, é uma das três grandes fontes de conhecimento para ele. "Nessas visitas anuais eu vejo o usuário final", explica. As outras duas fontes são as reuniões profissionais e a própria internet, com a percepção de trending topics e hashtags populares nas redes sociais.

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