Vidas dedicadas ao outro
PUBLICAÇÃO
sábado, 21 de abril de 2012
Silvana Leão <br> <br> Reportagem Local 
Um casal que não teme distâncias nem novos desafios. Assim podem ser definidos o fisioterapeuta Robson Daniel Jacinto Barbosa, 31 anos, e a teóloga Aline Maria da Silva Alves Barbosa, 28. Há dois anos, eles moram como voluntários no sudeste asiático e são responsáveis por um orfanato que hoje abriga adolescentes e jovens cujas famílias foram vítimas da perseguição religiosa. Neste tempo, já deram assistência às vítimas de um tsunami em ilha da Indonésia, às vítimas do vulcão Merapi, que entrou em erupção em 2010, e de um tufão nas Filipinas, no início deste ano, quando morreram mais de 1,5 mil pessoas.
Por segurança, eles preferem não divulgar o nome da cidade em que moram atualmente, mas revelam que a localidade fica a poucos quilômetros de um vulcão. Nem isso, porém, assusta o jovem casal, que recebe apoio de uma organização cristã de assistência humanitária a vítimas de desastres naturais. ''No começo, logo que fomos para lá, ficamos ansiosos, nos questionamos se seríamos capazes de cumprir nossa tarefa, embora tenhamos nos submetido a um treinamento de dois anos antes de embarcar. Mas tudo deu sempre muito certo'', revela Robson, que é londrinense. Aline é de Bauru, no interior de São Paulo, e se mudou para Londrina, anos atrás, para estudar.
Atualmente a família se prepara para nova tarefa. Como os moradores do orfanato - criado há 10 anos - cresceram e logo estarão todos na universidade, a instituição deixará de existir. Mais uma vez, o jovem casal que abriu mão do conforto e segurança da vida perto da família seguirá para um distante canto do planeta. ''Ainda não sabemos para onde vamos, mas provavelmente iremos trabalhar com crianças em situação de prostituição'', informam Robson e Aline, de passagem por Londrina.
Antes de rever suas famílias no Brasil, eles passaram 22 dias visitando países da Ásia, como Nepal, Índia, Tailândia e Malásia, para conhecer outros projetos envolvendo crianças em risco. A vida nômade não os assusta, muito menos as incertezas do futuro. A calma e a resignação surpreendem, acima de tudo porque há um ano eles têm a companhia de Melissa, primeira filha do casal. A pequena Mel, como a chamam, já conheceu nove países em seu pouco tempo de vida. ''No mínimo, ela vai falar três línguas: português, inglês e a língua local de onde estivermos morando'', constata Aline.
O casal também não esconde a saudade que sente dos familiares que aqui ficaram, mas ameniza as dificuldades. ''Deus colocou esta missão nos nossos corações há bastante tempo. Antes mesmo de nos conhecermos, eu e a Aline já tínhamos o desejo de ir para fora do Brasil e trabalhar com crianças, em locais de extrema pobreza. Viemos de famílias estruturadas, que sempre nos ofereceram boas condições de vida, e sabemos que muitos jovens e crianças pelo mundo não tiveram a mesma sorte. Nosso desejo é dar um pouquinho daquilo que eles nunca receberam na vida'', conta o fisioterapeuta.
Segundo Robson, o processo de preparação para trabalhar no exterior com socorro emergencial começou ainda no Brasil. Enquanto moravam aqui, foram enviados às enchentes de Santa Catarina e a desastres naturais no Maranhão e Piauí, o que os ajudou a se prepararem para as difícieis situações que viriam. Mas talvez não imaginassem a dimensão do que os esperava. ''Quando a Aline estava grávida de três meses, um vulcão entrou em erupção em uma ilha da Indonésia e em outra houve um tsunami. Eu fui convocado para socorrer as vítimas da tsunami. Para chegar a esta ilha, foi preciso ir para a capital, viajar algumas horas por terra e depois ainda passar a noite inteira em alto mar, de barco, em uma região conhecida por sediar campeonatos mundiais de surf, por causa de suas ondas gigantes. Isso logo depois de um tsunami, imagine...''
O mais difícil é imaginar de onde vem tanta abnegação. A certeza que fica é que Robson e Aline são jovens especiais, que fazem da sua fé o combustível para uma forma muito peculiar de viver, onde não há muito espaço para medos e dúvidas. A escolha foi feita bastante tempo atrás. Robson conta que decidiu, ainda na faculdade, dedicar sua vida aos que tiveram sua existência arrasada por tragédias. Já Aline começou a delinear seu futuro na adolescência.
''Quando nós nos casamos, já sabíamos que um dia iríamos nos desfazer de tudo para iniciar uma nova vida. E foi o que aconteceu. Depois de dois anos, com uma casa recém-montada, vendemos tudo o que tínhamos para ir morar em um quartinho, em São Paulo. Ao chegar na Ásia, moramos em um pequeno barracão, desprovidos de qualquer conforto. Abrimos mão de tudo, inclusive do convívio da família, mas o que Deus nos deu em troca até agora foi muito mais do que podíamos imaginar receber em uma vida inteira de trabalho'', revela Robson.
Para o londrinense, o que mais conta é a satisfação de poder ajudar crianças e jovens que antes teriam poucas perspectivas de vida, lhes garantir um futuro e receber de volta o afeto deles. ''Somos chamados de pai e mãe, acompanhamos o seu crescimento, isso não tem preço. Nos sentimos totalmente realizados, aqueles meninos são a nossa família.''


