Vida feita de luz e sombra
PUBLICAÇÃO
sábado, 11 de outubro de 2008
Katia Michelle Pires<br> Equipe da Folha 
Curitiba - Até pouco tempo atrás, a iluminação teatral de Curitiba estava inevitavelmente ligada a um nome: Beto Bruel. Atualmente, no entanto, não é mais necessário ter alguma ligação com a arte paranaense para conhecer o trabalho de um dos mais conceituados profissionais da área. A pesquisa cênica do artista nascido na Lapa já ultrapassou barreiras, e ele virou referência no Brasil, quando o assunto é iluminação no palco. Seu mais recente trabalho foi assinar a luz de cena de um dos shows mais comentados dos últimos meses, o espetáculo que comemorou os 50 anos da Bossa Nova e que uniu dois ícones da música brasileira: Roberto Carlos e Caetano Veloso.
O convite, claro, não surgiu por acaso. Nos últimos anos, Bruel acumulou experiência e prêmios na área e assinou a iluminação de espetáculos que marcaram a história do teatro nacional. Com dois Prêmios Shell - um dos prêmios mais importantes do teatro brasileiro - e outros 17 Gralha Azul (prêmiação do teatro paranaense) na bagagem, ele é parceiro de trabalho de Felipe Hirsh, na Sutil Companhia de Teatro. Hirsh, outro ícone atual do teatro, dirigiu o show de Roberto Carlos e Caetano ao lado de Monique Gardenberg.
''Quando Hirsh me telefonou, avisando que poderia dirigir o show, eu fiquei muito feliz por ele. Quando ele me disse que eu estava incluído, fiquei surpreso e disse: 'Só acredito quando eu acender a contra-luz''', lembra. E acendeu. ''No dia da estréia fiquei nervoso, claro, mas foi muito emocionante''. A experiência se uniu a outras recentes e bem-sucedidas vividas por Bruel. Ele já assinou a luz de espetáculos que tinham no palco atores consagrados. ''A dedicação é diferente. É muito bom você ver o trabalho de atores como Renata Sorrah e Marco Nanini, por exemplo'', elogia.
E ele tem como comparar. Em quase quatro décadas de carreira, contabiliza cerca de 400 espetáculos com luz assinada por ele. A relação do paranaense com a iluminação teatral começou por acaso, nos anos 70, quando ele era estudante do Colégio Estadual do Paraná. No festival de teatro da escola, fez assistência para um amigo que escreveu e dirigiu uma peça. Quando chegaram ao auditório Guairinha, do imponente Teatro Guaíra, os funcionários perguntaram quem iria fazer a luz. Ele acabou se oferecendo. Começaria ali uma trajetória que envolveria muita dedicação, intuição e trabalho.
Na mesma época, ele também conheceu a mulher, Regina Bastos, com quem está casado há 35 anos. A época, aliás, pode ser considerada de efervescência cultural no Estado. Um tempo que foi divisor de águas na arte paranaense. E Bruel participou ativamente das mudanças. Ele trabalhou com nomes que ajudaram a escrever parte dessa história, como os hoje cartunistas Solda e Rettamozzo, o jornalista Manoel Carlos Karam (que morreu em dezembro passado) e a cantora Denise Assunção (irmã de Itamar Assunção), que integravam o extinto grupo Margem.
Mas Beto considera mesmo um marco na sua carreira um convite essencial para a sua opção na área, que recebeu 1974, de Oraci Gemba, diretor que ficou conhecido pela grandiosidade com que montava os espetáculos. ''Ele teve muita coragem em me chamar'', brinca. O espetáculo, que tinha 45 atores no palco, é considerado até hoje por Bruel o que mais marcou a sua carreira, justamente pelo desafio de montar uma luz para uma produção tão importante quando ainda era inexperiente na área.
Anos depois, no entanto, Beto não mudaria a dedicação com que trabalhou na época. ''A maneira de fazer teatro é a mesma. É preciso fazer direito em qualquer espetáculo, seja para famosos, seja para anônimos. O importante é você gostar do que você faz''.
Nos próximos dias, Bruel estará envolvido com um projeto de luz de cena de uma série de espetáculos de uma grande escola de Curitiba. Também vai assinar a luz de uma ópera do Teatro Guaíra e do espetáculo de Natal do Palácio Avenida, que virou referência em Curitiba e no resto do País. Também está nos planos, um espetáculo com Fernanda Montenegro, que deve ser dirigido por Hirsh no ano que vem, que terá a luz assinada pelo mestre. ''Mas a vida não muda muito depois disso'', conclui o modesto e bem-humorado mestre da luz.


