No início dos anos 90, muito antes do filme ‘‘Priscilla, A Rainha do Deserto’’ estrear nas telas, o curitibano Victor Salvaro já liderava o engraçadíssimo grupo de drag queens ‘‘Abalaram no Pancake’’, que viajava pelo País animando festas. Na época, encarnando a personagem Victoria Principal, conseguiu notoriedade nacional.
Hoje, aos 26 anos, consagrado como um dos melhores produtores de moda do Sul do Brasil, já são muitas histórias para contar. Tantas que Victor planeja em breve lançar um livro de memórias. Nele falará sobre os altos e baixos que o mundo das festas e da moda já lhe proporcionou.
Como uma via de mão dupla, obteve reconhecimento e respeito ao descobrir tops internacionais como Isabeli Fontana e Vanessa Greca. O mesmo glamouroso mercado, entretanto, o envolveu com o submundo das drogas e quase fez com que perdesse o talento, a família e os amigos.
Atualmente, Victor se considera uma pessoa ‘‘transparente e limpa’’. Concentrado na boa fase de seu trabalho, ele faz planos para o futuro e comemora as conquistas que já são reais.
Com o bom humor, a coragem e a autenticidade de sempre, Victor conversou com a reportagem da Folha. Acompanhe alguns trechos:
Quando você começou a se interessar por moda?
Eu sempre gostei. Apesar de ter tido uma educação super rígida e nem ter tido muita infância, eu me interessava pelas revistas italianas que a minha mãe comprava. Ao invés de ler livros, eu lia as revistas de moda dela... Acho que aconteceria de qualquer forma, mas isto antecipou todo o meu envolvimento com o mundo da moda.
E como foi esta infância?
Eu fui preparado para ser campeão paranaense e brasileiro infanto-juvenil de judô e consegui isto. Foi uma meta cumprida. Depois, na adolescência, comecei a pegar onda de body-boarding. Eu me dedicava muito, até que consegui o segundo lugar num campeonato nacional da Redley. Foi outra meta cumprida.
Os esportes o ajudaram a ter mais disciplina e determinação?
O judô me ajudou a ter disciplina, mas na verdade eu só comecei a cumprir esta disciplina dois anos atrás, quando minha vida recomeçou. Antes disto eu estava dentro de um abismo, envolvido com drogas, viciado em cocaína...
Como você conseguiu superar?
Aquilo tudo estava abalando a minha vida profissional, a minha imagem no mercado estava prejudicada e a minha família, que eu amo e venero, sofria muito. Chegou uma hora em que eu percebi que teria que escolher: ou ficaria com as drogas ou com a minha família. A partir daí eu parei, fiquei sozinho e pedi a Deus que me ajudasse a me tornar uma pessoa limpa e transparente.
Conseguiu?
Hoje eu sou esta pessoa. Sou muito franco com todos os que estão a minha volta. Não há mais mentiras, digo sempre a verdade. Sempre fui muito alegre, muito divertido e sempre gostei muito do que fazia.
E por que você começou com as drogas?
Eu acabei entrando nessa por causa do meu envolvimento com o mundo da moda e da publicidade. São mercados onde rola muita droga e as vezes fica difícil separar as coisas, especialmente se você é muito novo. Eu, para entrar no mercado, tive que me adequar a ele. Como muitas pessoas usavam drogas, entrei de cabeça.
Com quantos anos você começou a trabalhar com moda?
Aos 15 anos de idade fiz um curso de produção de moda, em que gastei todo o dinheiro que tinha na poupança. A partir daí comecei a trabalhar.
O que mudou de lá para cá?
Você nunca está no local onde quer estar. É uma batalha constante, são estudos constantes, porque eu não posso me considerar o melhor produtor de moda. Eu não sou. O meu trabalho continua o mesmo, mas hoje as responsabilidades são maiores. Atualmente produzo festas de R$ 150 mil, em que tudo passa por minhas mãos.
Além do livro de memórias, quais são seus planos para 2001?
Eu já entrei em 2001 de cabeça, trabalhando muito. Em fevereiro estarei abrindo um escritório em Curitiba que levará o meu nome, só para cuidar de criação e execução de grandes eventos e desfiles.
Algum evento já confirmado?
Sim. Fechei um projeto com a empresa importadora de Barbies no Brasil. Será um evento em cinco Estados (Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, São Paulo e Rio de Janeiro), que unirá moda, filantropia e fotografia. A partir de abril, estilistas locais de cada Estado irão vestir bonecas Barbie. Depois, fotógrafos locais irão registrar as produções, que se transformarão em cartões postais, exposições e depois em livros. Todo o dinheiro arrecadado vai para crianças com câncer. Em Curitiba, irá para o Hospital Erasto Gaertner.
Por falar em Barbies, recentemente você foi estrevistado pelo Jô Soares e levou a platéia ao delírio com um desfile de suas bonecas...
A produção do programa recebeu mais de mil telefonemas e e-mails, o que fez com que o programa fosse reprisado neste mês... Elas são hoje a fonte de inspiração para o meu trabalho. Tenho 142 Barbies no sotão da minha casa.
Como começou a coleção?
Com a minha irmã, nove anos mais nova que eu. Desde que nasceu e até hoje ela é a minha bonequinha. Eu a enfeito faço ela usar tudo o que eu gostaria de vestir se fosse mulher. Quando ela ainda era um bebê, eu já gastava a minha mesada comprando Barbies para ela. Na verdade, as bonecas eram para mim e aquilo tudo era só um pretexto. As bonecas mais simples eu dava para ela e as mais sofisticadas eu escondia no sotão. Minha mãe só foi descobrí-las no ano passado.
Quais são as mais raras?
A última, que eu comprei há duas semanas. Depois da minha entrevista no Jô, uma senhora me procurou dizendo que tinha visto a matéria e me vendeu um protótipo da Barbie de 1948. (A Barbie tem 51 anos). Paguei super caro, mas fiquei louco quando vi.
Quanto?
Paguei US$ 5 mil. São R$ 10 mil...
Quais as outras mais importantes da coleção?
Tenho uma vestida pela Chanel, outra Versace, outra Alexandre Herchcovitch. A Isabeli (Fontana) me dá muitas bonecas que ela traz de suas viagens, A Vanessa Greca também. Todas as modelos quando viajam me trazem Barbies...
Você descobriu estas e outras modelos internacionais. Como funciona este faro de caçador de talentos?
A imagem de Barbie, de beleza e de moda são referenciais para mim. Tenho orgulho da Isabeli e da Vanessa (ambas curitibanas), descobertas por mim e que são hoje tops internacionais e estão dois degraus abaixo da Gisele Bundchen.
Você continua atuando como talent hunter?
Sempre. A minha mais nova descoberta foi a Kátia Kuczynski, 15 anos, de uma família de origem humilde em Curitiba. Ela estava andando com a mãe na Praça Rui Barbosa e eu estava preso num engarrafamento. Quando vi aquela menina alta e linda larguei o carro com o pisca ligado e saí correndo atrás delas. Quando as alcancei tive um ataque de asma e precisei usar a bombinha antes de falar... Foi engraçadíssimo... Hoje, um ano depois, a Kátia já está com contrato assinado na mesma agência da Gisele Bundchen, em Nova York, e é a nova promessa. Ela está indo neste mês para o Japão, depois irá a Paris, Nova York e Milão, antes de se estabelecer definitivamente em Nova York.
Você pretende lançar em breve as suas memórias. O livro já tem nome?
Ainda não sei qual será o nome, mas sim a capa: um boneco Falcon vestido de drag-queen. (risos).

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