Com uma infância passada às margens do Rio Paranapanema, no interior de São Paulo, Ricardo Armando já se considerava um naturalista em suas brincadeiras de criança. "Subia em árvores e observava o verde", lembra. Paulista de Ourinhos, ele estudou Agronomia em Ponta Grossa e se mudou para Londrina seguindo seu coração. "Foi por amor à minha esposa, que é daqui", confessa.

"Eu era recém-formado e estava em Londrina para o Festival de Música", conta Ricardo, revelando seu lado musical. "Era professor de violão", entrega. Por aqui, deu início à uma nova profissão, a de paisagista. "Meu TCC (trabalho de conclusão de curso) foi em botânica", lembra, justificando a escolha verde. "Em Ponta Grossa tem um dos lugares mais lindos do mundo e pouco conhecido, que é o Buraco do Padre, e eu ia muito lá para fazer coletas de orquídeas", conta.

"As primeiras imagens que eu tenho são no rio, subindo em árvores, olhando as plantas, estudando insetos, colecionando pedras. Desde novo me considerava um naturalista, que é um termo que quase nem existe mais hoje, como Burle Marx e Darwin. Eu tinha livros, adorava ver fotos e enciclopédias, tudo que existia. Uma das primeiras coisas que li falava das terras das tamareiras e eu tive a oportunidade de ir até lá nas Ilhas Canárias para ver a tamareira", anima-se Ricardo enquanto aponta para uma tamareira plantada em sua propriedade, no Heimtal (zona norte de Londrina).

É por ali que está parte da coleção de plantas do paisagista, que tem especial apreço pelas espécies vindas da Espanha, do México e Texas. Em comum, são plantas que não precisam de muita água para sobreviver. Muitas delas passaram da coleção pessoal para a produção em escala comercial depois de mais de uma década de cuidados especiais.

"Cresci numa família italiana com um quintal grande na casa da avó e na casa do meu pai. Tinha o meu pé de manga, meu pé de lima. Era muito familiar eu estar no meio das babosas. Então não é só um olhar de respeito, mas também de intimidade", explica. "Consigo perceber a quilômetros de distância se há alguma coisa errada com as plantas, como as palmeiras."

Ainda universitário, Ricardo pensava em como juntar a Agronomia e a Botânica. "Normalmente no Brasil as duas coisas andam separadas e eu não queria ser um frustrado", conta. "Tinha o conhecimento de Agronomia e a minha relação intuitiva com as plantas que aprendi na infância", conta. Mais uma vez foi a esposa que o ajudou a achar o caminho e descobri-lo paisagista. "Ela que me falou que eu era paisagista. Eu não sabia", afirma.

"Numa viagem ao Rio de Janeiro, minha cunhada me apresentou Burle Marx – que, infelizmente não conheci pessoalmente. Ele morreu no ano que me formei. Mas quando bati o olho no jardim que ele fez eu pensei é isso que eu faço. Claro que não com aquele nível dele, que eu ainda estou buscando ter", conta. "Isso foi em 1996, bem no meu comecinho como paisagista, foi no mesmo ano que fiz a mostra de decoração com o (arquiteto) Álvaro Côrtes", diz.

Quase 20 anos atrás, Ricardo acreditava que podia ser como Burle Marx. "Pensei sou músico, sei cozinhar, sei cultivar plantas, sei todos os nomes científicos, já viajei um monte", conta o paisagista. Duas décadas depois, ele tem mais referências.

"Burle Marx é uma das inspirações, mas não só ele. Tem algumas coisas dele que concordo, outras não. Foi num primeiro momento. Gosto muito do trabalho do Sig Bergamin, que não é necessariamente um paisagista. Gosto muito daquele bom gosto colonial, a forma como ele usa as cores, que acho muito dinâmica e rica. Mas também gosto muito do trabalho da Martha Schwartz, paisagista norte-americana, que fez o paisagismo do aeroporto de Miami. Já é um paisagismo diferente do Burle Marx, que usa tecnologia. É extraído da natureza sem ser tão natural", destaca.

A lista ainda inclui o arquiteto espanhol Santiago Calatrava, "que tem um estilo mais museu". A Espanha, por sinal, tem forte influência na vida de Ricardo e que vai além das questões verdes. "Gosto de cozinhar receitas espanholas", avisa, entregando um outro lado, o de chef. Assim como começou a cultivar o que usaria nos projetos paisagísticos, ele também deu início à uma horta, mas desistiu do projeto porque não tinha quem cuidasse. "Mas tenho uma pequena horta em casa", avisa. O dedo verde não falha.

mockup