Curitiba- O dom da musicalidade soprou no ouvido de Octávio Nassur aos cinco anos de idade. O menino foi surpreendido pelos pais, ganhando seu primeiro instrumento de corda, hábito que se estendeu até que sua casa se enchesse de violões, violinos, bandolins e mais tarde percussões. ''Eu ganhava tudo que tem corda e comecei a tocar violão clássico, MPB, tinha uma facilidade musical muito grande e meus pais perceberam''.
Começava aí a história de um dos melhores bailarinos e coreógrafos de hip hop ou street dance, como é mais conhecido por aqui, do planeta. Hoje, aos 30 anos, o curitibano tem uma porção de coisas a contar. Depois das primeiras entradas no mundo da música como aprendiz na Faculdade de Artes do Paraná (FAP) e com reforços em casa através de professores particulares, o menino foi se tornando adolescente e se interessando por outras modalidades. Como por exemplo, a paquera.
Para cuidar do corpo entrou numa academia. Atento às meninas que iam lá viu uma que lhe interessou. Só tinha um problema. A donzela praticava aula de aeróbica e tinha um pai que era um verdadeiro leão de chácara. Portanto, para poder manter qualquer aproximação, Nassur teria que virar seu colega.
Foi aí que começou a aprender com o professor Honey Ferreira, a quem hoje dedica o título de ídolo ao lado do pai e do avô. Isso era 1993, ano em que a aeróbica como espetáculo havia estourado no mundo inteiro. Atletas de ginástica olímpica (o caso de Hony) se dedicavam ao esporte, hoje em baixa no País, mas com alguns focos nos Estados Unidos.
A admiração pelo professor Nassur ganhou ao ser estimulado a dançar e competir. Era a musicalidade entrando em ação através dos passos da coreografia. Daí Octavio Nassur começou e não parou mais. Logo logo começou ele mesmo a substituir Ferreira quando este ia para competições fora e, já aos 15 anos, tinha suas próprias turmas e começava a ganhar os primeiros tostões.
De família de classe média alta, o pai é médico e a mãe artista plástica, Nassur ainda tinha outra facilidade: conhecer outros mundos. E foi numa viagem com os pais que conheceu o hip hop.
Ao ver uma apresentação em Barcelona, Espanha, ele logo se interessou. Aproveitando que ficaria lá por alguns bons dias tomou aulas. Chegando ao Brasil, a veia já estava no ponto. ''Aqui no Brasil, o hip hop ainda era um movimento cultural, não havia a dança com uma linha mais artística''. E foi isso que Nassur começou a fazer: ir aos Estados Unidos periodicamente para se aprofundar no assunto e começar a formar escola aqui.
''Comecei a buscar uma linha que pudesse ser mais sensual. Com a alma da música black que tem uma linguagem de transferência de idéias e vivências transferidas para o corpo. É um estudo''. Com essa sacada ele começou a comprar Cds de jazz, R&B e hip hop e desenvolver passos originais.
Em 1996, não contente em simplesmente dar aulas para academias e com a certeza de que educar era uma vocação forte, Nassur criou o projeto ''Educando pela dança e crescendo com saúde'' e o apresentou às redes de ensino musical e estadual. A idéia era que, ao invés das aulas de educação física, os alunos das escolas pudessem ter contato com a dança. De 1996 a 2001 trabalhou dentro desse projeto no colégio Terceiro Milênio, onde permaneceu de 1996 a 2001, ensinando a garotada do colégio. Deu tão certo a iniciativa que o projeto deve virar uma lei em breve. Tanto que Nassur já ensina aos professores das redes públicas passos de hip hop e percorre o interior para polarizar ainda mais junto às escolas de vários cantos do Estado.
De suas idas e vindas a Los Angeles surgiu a bagagem para começar um trabalho de união de sensibilidade com técnica. De lá trazia a parte que não tinha e daqui começou a montar um grupo só formado por mulheres, uma raridade no hip hop que é na maioria praticado por homens. Nascia ai o Hart Beat. Eram 35 meninas maestradas por ele que tiveram uma carreira de sucesso absoluto. Dos 18 festivais que participaram no Brasil incluindo o de Joinville, um dos mais conceituados ganharam 16.
Vendo que o sucesso já era uma realidade Nassur, achou que era hora de continuar e através da educação investiu mais fundo na carreira de coreógrafo. A iniciativa que o levaria a fundar sua própria escola em 2000, já lhe garante alguns títulos interessantes. Ele entrou para o Guiness Book com o recorde de 27 aulas de street dance em 27 horas. E recentemente foi coreógrafo da delegação brasileira de hip hop numa apresentação em Miami, Estados Unidos. Em 2003 foi apontado como um dos quatro melhores coreógrafos do mundo em Praga, República Tcheca.
Quer mais? Octavio sim. Ele acredita que tem que passar para frente a alegria de viver. Quer ''vender sensações'' e vê a dança como o elemento catalisador. Como odeia drogas, quer mostrar aos alunos das escolas onde ensina que não há caminho com elas. Acredita que pode ''alterar a visão de mundo das criança''. Que com acesso aos passos e a musicalidade da dança os jovens entram em uma outra frequência. Uma onda positiva de sucesso. E dá até o exemplo de uma aluna sua que vivia aparecendo machucada no colégio, por maus tratos familiares, e que hoje é uma fisioterapeuta de sucesso. Através da dança, ela foi dando seus passos em busca de uma vida melhor. Conseguiu sua sobrevivência e saiu do inferno em que vivia.
Isso tudo que acontece na vida de Nassur, ou seja, todas as vitórias vêm de uma certeza que ele tem de não parar quando os infortúnios o rondam. ''Gosto muito de frases e uma delas é : 'Avalia-se a inteligência de um indivíduo pela quantidade de incertezas que ele é capaz de suportar'. A citação de Emanuel Kant mostra que Nassur está dentro de um processo que acredita ser ''tudo evolutivo''. Com esse pensamento, essa realidade existencial, para ele realmente as coisas nunca vão parar de acontecer.

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