Vencendo limites
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sábado, 26 de janeiro de 2019
Érika Gonçalves <br> Reportagem Local 

Fazer novos amigos, exercitar o corpo e a mente, conhecer novos lugares. Inúmeras experiências possibilitam tudo isso, mas para o empresário e físico paulistano Vagner Gomes de Souza, 47, essa equação só fica completa com a união da bicicleta e o radioamadorismo.
No dia 2 de janeiro ele saiu de São Paulo tendo como destino Foz do Iguaçu, com previsão de chegada no dia 15 de janeiro. A data, entretanto, foi alterada, já que o percurso com muitos morros e o forte calor exigiram paradas maiores para descanso e revisão da bicicleta. O destino final foi atingido no último sábado (19). A chegada no Museu do Radioamador de Foz do Iguaçu teve direito à recepção de diversos ciclistas, que foram recebê-lo na entrada da cidade.
"Foi uma excelente viagem, o Estado é muito bonito para esse passeio de bicicleta. Tive apoio em 100% dos pontos programados, foi incrível a recepção do paranaense. Uma preocupação e uma alegria constantes, sempre fui muito bem recebido, em todas as cidades. Cada expedição sempre é muito diferente da outra, mas essa foi enriquecida pelas pessoas, pelo volume do grupo de apoio no WhatsApp. A divulgação foi muito boa também", avalia ele.
No total foram 1.161 km percorridos de bicicleta carregando cerca de 30 quilos de carga, entre barraca, radioamador, roupas, carregadores e baterias, além de ferramentas. Intitulada "Brazilian Bike Dxpedition Quarta Edição - São Paulo/SP - Foz do Iguaçu/PR", onde DX corresponde a um termo usado no radioamadorismo, essa expedição faz a alegria não só de Souza mas também de outros radioamadores. Isso porque parte da atividade consiste em conseguir estabelecer contato com eles, seja no Brasil ou fora dele. Para isso o expedicionário precisa divulgar o horário em que deverá estar on-line. Quem conseguir se comunicar depois recebe uma espécie de cartão-postal, com fotos da expedição e data e horário da comunicação. Esses cartões são objeto de colecionadores, inclusive, tudo porque a comunicação via rádio depende de uma série de fatores alheios à vontade de seus praticantes.
COMUNICAÇÃO
"O sistema de comunicação não tem provedor, é antena com antena, por isso é emocionante, você entende o que está acontecendo. Você montou sua antena, configurou o seu rádio, acabou. Só que depende da natureza, ela muda de acordo com vários fatores: sol, época do ano, e dependendo do horário e do dia ela vai mudando o comportamento, possibilitando ou não a comunicação inclusive com pessoas dos Estados Unidos, do Japão. Pode ser que a pessoa me escute, pode ser que não. Se me escutar, ela me chama. Se eu escutar eu anoto o indicativo dela. Não basta querer falar, tem que conseguir. É um desafio completar a comunicação. Tem gente que quer ter cartões de todos os países do mundo", explica Souza.
Ter a bicicleta como meio de transporte foi uma escolha do físico, que já utilizou o veículo em outras ocasiões. A primeira grande viagem foi feita para o Rio de Janeiro, como forma de provar para si próprio que estava recuperado de um acidente de moto, em 2003. Com o ligamento posterior do joelho esquerdo rompido, ele recebeu do médico a opção de se submeter a uma cirurgia ou fazer um longo trabalho de fisioterapia e exercícios físicos. Com a escolha da segunda alternativa foi necessário um ano de dedicação diária até a recuperação. "Fiz a viagem e gostei, não senti nada e voltei com autoestima elevada", avalia.
A primeira expedição foi realizada em 2013, com o trajeto São Paulo - Bertioga - Copacabana, em 2013. Depois veio São Paulo - Atibaia, em 2014. e por fim a 3ª edição, compreendendo Santos/SP - Chuí/RS, em 2016. Esta última compreendeu 27 dias pedalando, com o total de 1.783 km percorridos.
DESTINO
Souza explica que cada expedicionário escolhe seu meio de transporte e também o destino. Sua intenção para a 4ª edição era viajar rumo ao Norte do País, passando pela Bahia, terra natal de seus pais, com destino final no Oiapoque, no Amapá. Com previsão de dois meses para vencer os quatro mil quilômetros, mesmo com a aprovação do patrocinador - a Labre (Liga de Amadores Brasileiros de Rádio Emissão), ele preferiu mudar o destino devido ao tempo, já que está em processo de mudança para a Alemanha. "Resolvi fazer uma edição mais curta e como já tinha vindo para o Sul, até o Uruguai, resolvi vir para Foz do Iguaçu, porque aí seria fronteira com Paraguai e Argentina."
Além do patrocínio para as despesas de alimentação, Souza contou com a hospitalidade de seus colegas radioamadores, que ofereceram hospedagem, alimentação e, claro, a antena para conectar o rádio. Para isso, durante o planejamento da viagem ele divulgou os locais por onde iria passar e perguntou quem poderia recebê-lo, geralmente pessoas que não se conhecem, mas que têm em comum a paixão pela comunicação.
"Programei fazer em torno de 70 km a 100 km por dia, principalmente por causa do peso na bicicleta. Se tem muita subida, minha média cai muito, chego a 5 km/h, quando estou no plano chego a 21 km/h. Tudo depende da topografia e do sol. Procuro sair cedo para ganhar tempo e quando o sol chega já andei bem. Aí paro para almoçar, faço uma pausa e depois volto. A barraca é para imprevistos. Em Bandeirantes precisei parar. Era para chegar em Cornélio Procópio mas peguei muita subida e muito sol, não tive energia para chegar. Como sou da USP (Universidade de São Paulo), solicitei permissão para dormir na Universidade Estadual lá em Bandeirantes. Consegui um espaço para tomar banho, montar a barraca e ainda consegui montar o rádio e conversar com o pessoal", conta.
AMIZADES
Em cada parada, o prazer de fazer novas amizades e inspirar pessoas. Na expedição anterior, por exemplo, ele conheceu escoteiros e acabou se tornando um e agora desenvolve um trabalho voluntário em São Paulo. Souza diz que a expedição acaba contaminando as pessoas, que se animam a começar a pedalar. "Acho que o negócio é isso, levar essa mensagem de que o corpo nasceu para se mexer, não pode ser sedentário. Quanto mais você estimula, melhora. Eu nado, faço musculação, mas a força de perna ganho durante a viagem já que não ando com 30 quilos em São Paulo. Faço academia, mas não é a mesma coisa. O corpo é mágico, quanto mais você estimula, mais ele ganha resistência."
Antes de voltar para casa, Souza aproveitou para conhecer os principais pontos turísticos de Foz do Iguaçu e também os países vizinhos. Foram mais 75 km percorridos de bicicleta entre as fronteiras. "É possível fazer seu sonho, desde que tenha foco, planejamento. Para mim foi uma viagem incrível, marcante, uma boa lembrança, cidades muito bacanas, cidades que dá vontade morar. Viajando por essas cidades percebo quanto em São Paulo nós vivemos mal, a qualidade de vida é muito baixa comparada com o ritmo de vida daqui. Foi muito gratificante", avalia.
DE ÔNIBUS
Para a volta o ônibus foi o meio de transporte escolhido e por um motivo bastante peculiar. Souza diz que precisa de um tempo para se reconectar com a realidade da capital paulista. "Andar de avião é traumatizante demais, o retorno é muito deprimente, preciso entrar na realidade devagar. Moro em cidade grande, poluída, eu já sei onde vou chegar. Fiquei tanto tempo com a natureza, vendo animais, tendo interação com as pessoas, saio dessa energia, pego um avião e em uma hora e meia estou em São Paulo. Prefiro o ônibus porque minha mente vai aceitando o retorno, vou revendo a viagem no GPS. Voltar para a realidade, para a rotina, demora uns cinco dias."


