Curitiba- A vida oferece muitos desafios. Cabe a cada um transformá-los em obstáculos ou em aprendizado. Maria Carolina Zani, escolheu a segunda opção. Filha de imigrantes gaúchos, ela chegou ao Paraná na década de 60. Os pais, e os nove irmãos passaram algumas dificuldades, mas sempre ressaltando dois valores muito importantes para a família: a cooperação e a educação. Duas características que Maria Carolina levou ao longo da vida e que, certamente, contribuíram para a sua formação. Ela foi uma das mais altas executivas do Estado. Por 22 anos à frente da maior indústria de cosmético paranaense, chegou a ostentar um dos salários mais altos do Brasil. Depois de chegar ao topo, não hesitou em deixar tudo para reconquistar sua individualidade e dar ainda mais valor (e tempo) para a vida pessoal.
''Quando você fica muito tempo em uma empresa, você perde sua individualidade. Com o passar dos anos, você vê que não tem nada mais a aprender ali e tem de esperar as pessoas passarem por aquilo que você já passou centenas de vezes'', analisa. Para resumir, Maria Carolina é uma pessoa que precisa de desafios e os encara com muita positividade. Foi assim que, por três anos, alimentou a decisão de deixar a empresa e também a estabilidade financeira que a acompanhava, para trilhar outro caminho e seguir mais um sonho: montar seu próprio empreendimento.
Antes porém, ao consolidar o afastamento, deu um tempo de maturação para si mesma. De mochila nas costas, deixou as duas filhas já adolescentes e o marido em Curitiba e partiu rumo à Europa para uma peregrinação que durou quatro meses. ''Fui literalmente de mochila nas costas e poucas roupas. Quando a calça jeans ficava muito suja, eu jogava fora e comprava outra'', diverte-se. De volta ao Brasil, ela consolidou um sonho adormecido e deu uma guinada na sua vida, mas antes disso, muita coisa aconteceu. E para entender a trajetória da empresária, nascida no Rio Grande do Sul e criada no Paraná, é preciso voltar ao tempo.
Com a família radicada no interior do Paraná - ''Morei em várias cidades do interior, meu pai contribuiu para 'desbravar' esse estado'' - Maria Carolina decidiu buscar condições melhores de estudos na Capital. Antes mesmo de completar 18 anos, viajou de ''mala e cuia'' para Curitiba, sabendo apenas que existia um cursinho chamado Positivo e uma pensão para moças perto da escola. Chegou na rodoviária, deixou a mala no guarda-volumes, fez a matrícula e seguiu direto para a pensão que, na época, não tinha vagas. Não foi um empecilho. ''Conversei com a dona da pensão e expliquei minha situação. Ela me deixou ficar e foi lá que morei enquanto estudava'', lembra.
Na época, seu sonho era cursar engenharia, mas acabou passando no vestibular em ciências contábeis. Já no primeiro ano de faculdade, ela foi trabalhar numa grande empresa. Foi crescendo no cargo, dentro da área em que estudava, e em pouco tempo era a única mulher a administrar a área financeira. ''Eu cresci muito rápido e aprendi muito. Mas também era muito indisciplinada. Regras para mim, só podiam ser obedecidas se fizessem sentido'', diz.
A dedicação e o crescimento na profissão foram tantas que atrapalharam até mesmo o término da faculdade, já que ela começou a viajar pelo Brasil. Foi uma época complicada para Maria Carolina. Nesse mesmo período, ela levou toda a família, que passava por dificuldades, para morar com ela. ''Aos 23 anos, era responsável por uma família de seis pessoas'', lembra. Isso contribuiu para algumas decisões da empresária. ''Eu estava crescendo, tinha condições de ir para fora do País, mas não quis por causa da minha família. Eles eram minha prioridade''.
Tanta responsabilidade tão cedo não fez com que Maria Carolina desistisse de imprimir a sua própria história familiar. Em meio à ascensão na carreira, ela casou e teve duas filhas. ''Não vou dizer que foi fácil, mas eu tive um marido que me apoiou bastante. Dividíamos os cuidados com as crianças e isso foi muito importante'', conta. Nessa época, ela já havia entrado na empresa em que ficou a maior parte da sua vida profissional. ''Foi mais do que uma relação profissional. Eu adotei a empresa e participei do seu crescimento'', revela orgulhosa. Mas como toda ''mãe'', a decisão de deixar o ''filho'' seguir sozinho, aconteceu. E Maria Carolina não se arrepende.
''O que aconteceu é que, para mim, acabaram os desafios. E isso não cabe na minha vida'', reflete. E foi em busca deles, os desafios, que ela decidiu transformar uma propriedade de 3 mil metros quadrados que comprou para morar, em São José dos Pinhais, na Região Metropolitana de Curitiba, em um condomínio gastronômico que reúne dois restaurantes com cardápios diferenciados e um café, além de espaço para eventos e uma cozinha gourmet. Ou seja, um conceito inovador que exige dedicação da empresária. Com uma (grande) diferença: ''Agora posso manter minha individualidade e tenho tempo para mim''. Se está satisfeita? Sim, mas não conformada. ''Eu ainda tenho tanto para fazer que sei que vai faltar futuro'', diz.

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