Desde muito cedo Murilo Toma, de 44 anos, corre atrás do que quer. Na adolescência, ele e um grupo de amigos – todos apaixonados por skate – resolveram investir na paixão e compraram uma pista half pipe. Para pagar o novo "brinquedo" o grupo vendeu adesivos, camisetas, rifas e contou ainda com a ajuda dos pais de Toma e de um candidato a vereador. A "aventura" começou em 1985, mas continuou pelos anos seguintes. A pista foi colocada em um terreno na Rua Ibiporã, graças ao pai de um dos amigos, que tinha contato com o dono do local, mas não agradou muito a vizinhança. "Chegaram a tacar fogo na rampa", conta ele. Para defender o patrimônio, a turma chegou a montar guarda noite e dia na pista. "Nós dormíamos na pista ou dentro do carro do lado da plataforma", diverte-se.

A pista pioneira acabou passando por vários lugares como o Iate Clube, a Associação Cristã de Moços e o Zerão, até ficar em definitivo em um sítio dos pais de Toma. Sempre ligado ao esporte, o skatista participou também de outras conquistas do meio em Londrina. "Eu não era o cara que mais encabeçava (os movimentos), tinha amigos que eram mais ativos, mas sempre estava no meio."

Muito mais do que um hobby, o skate se transformou em um negócio para Toma. Com 17 anos ele já fabricava shapes de skate em casa e pouco tempo depois abriu o próprio negócio. "Muita gente vinha em casa, comprava o shape e falava: 'mas você não tem a roda, o rolamento?' Era em um momento bom do skate e eu vi a necessidade de ter um local."

A princípio, para evitar burocracia, Toma abriu o negócio junto com a loja do pai, que vendia acessórios para escritórios. "Era superengraçado. Você entrava na loja e tinha um pedacinho separado por arquivos, sempre tocando um som", relembra com carinho. "Pouco menos de um ano depois vimos que estava dando certo e abri a loja em sociedade com um amigo", complementa Toma, que até hoje mantém a MT3 Skate Shop, no centro de Londrina. "Nunca imaginei que ia estar fazendo a mesma coisa 26 anos depois", revela. Ainda assim, comemora o fato de ter conseguido fazer da paixão uma profissão.

INFLUÊNCIA
Segundo Toma, a afinidade com o skate começou ainda na infância, por influência do irmão mais velho. "A primeira vez que meu irmão apareceu com um skate em casa foi em 1974, ou 1975, e eu pegava, ficava em cima. Mas foi com 13, 14 anos que comecei a andar mesmo." Nascido em Lucélia, no interior de São Paulo, Toma mudou-se para Londrina ainda bebê, com nove meses de idade. Por esse motivo, explorou bastante Londrina, primeiro de bicicleta, depois com o skate. Da época em que "descia ladeiras e escorregava" com os amigos em cima do skate pelas ruas da cidade, ele relembra da reação nada amigável dos moradores. "Cansei de ter ovo, laranja, tomate, arremessados em mim na madrugada", conta aos risos.

O preconceito, aliás, faz parte da rotina de Toma. "Sofri bastante, pois deixei meu cabelo crescer desde muito cedo, andava só de bermuda, andava de skate. Mas isso acabou me ajudando a me tornar uma pessoa mais tranquila. Eu falo que se fosse brigar com todo mundo que encana com o meu cabelo ia ter que brigar com metade da cidade. Então eu tento mostrar meu outro lado para a pessoa baixar a guarda", pondera.

As adversidades, no entanto, não abalam Toma, que afirma ter uma relação de gratidão com o skate. "Estar em cima do skate é muito emocionante. Te dá um nível de relaxamento. Acertar uma manobra nova, andar num local novo, te dá uma dose extra de adrenalina. Além disso, o skate me proporcionou muitas coisas como um trabalho que eu gosto e a possibilidade de ter conhecido vários lugares, várias pessoas e de ver o mundo de uma forma diferente", valoriza.

Muito mais do que um esporte, Toma acredita que o skate é uma arte e uma ferramente de inclusão social. "Numa pista não tem cara rico ou cara pobre. Na mesma pista tem o garoto que chega de motorista e aquele que foi 'remando' do bairro até lá porque não tem dinheiro para pegar o ônibus. Ali, os dois falam a mesma língua. Ali não tem diferença", reflete.

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