Curitiba - Um dos arquitetos e designers mais importantes do Brasil tem uma ligação curiosa com Curitiba: na década 50, o carioca Sérgio Rodrigues foi convidado pelo então governador Bento Munhoz da Rocha para desenvolver o projeto arquitetônico do primeiro Centro Cívico da cidade, ao lado de outros nomes consagrados. Em território paranaense, enquanto executava o projeto, o então iniciante - e promissor - profissional chegou até a montar uma loja de móveis, o que ele chama de primeira butique de peças com design do Brasil. ''Mas, naquele tempo, este nome 'design' nem existia'', brinca.
O bom-humor aliás, é parte integrante da personalidade do sobrinho do dramaturgo Nelson Rodrigues. Filho do artista plástico Roberto Rodrigues, ele cresceu sentindo ''o cheiro da madeira'', como revela. O bisavô tinha uma marcenaria em casa. Gostava de desenhar peças e pedia para os carpinteiros executarem. Com Sérgio não foi diferente. Ainda menino, ele começou a desenhar brinquedos. ''Eu fazia rabiscos e entregava para os funcionários que entendiam de madeira executarem'', revela.
Da brincadeira de infância para a decisão profissional foi um pulo. Mas salto mesmo, Sérgio Rodrigues deu quando desenvolveu a internacionalmente conhecida Poltrona Mole, também chamada de Sherriff ou Ipanema, em 1957. A peça recebeu o primeiro prêmio no Concurso Internacional do Móvel em Cantu, Itália, em 1964. Posteriormente, a cadeira foi produzida pela empresa italiana Bérgamo, que a exportou para vários países. Hoje, é peça cobiçada por quem entende de móveis. E de arte.
Assim como as outras criações de Rodrigues, a cadeira tem a ''cara do Brasil'', uma das principais característica do trabalho do carioca, que até os dias de hoje trabalha essencialmente com madeira. ''Eu já trabalhei com outras matérias-primas, mas não tenho como negar que a madeira é minha predileta'', revela, salientando que todas as suas criações tem como base o produto sustentável.
Mas assim como o arquiteto começou a trabalhar com peças únicas e inusitadas, em uma época em que o design nem nome tinha, a sustentabilidade já era premissa em seu trabalho quando o tema ainda não era moda (e obrigação). Ele fundou, em 1955, a indústria Oca, um estúdio de arquitetura de interiores, ambientação, cenografia e componentes de decoração, além de galeria de arte. A empresa mudou a história da arquitetura brasileira. Pouco mais de uma década mais tarde, Sérgio montaria seu próprio ateliê, também no Rio de Janeiro, desenvolvendo linhas de móveis para produção industrial, projetos de arquitetura e ambientação. Sistemas de casas pré-fabricadas também estavam no pacote.
Ao longo de seus mais de cinquenta anos de carreira, ele fez ainda projetos de mobiliário para vários edifícios governamentais, como a Embaixada do Brasil, na Piazza Navona, em Roma, a Universidade de Brasília, o Palácio dos Arcos e o Teatro Nacional de Brasília. Sobre sua experiência como arquiteto de um dos complexos mais importantes de Curitiba, ele não esconde sua decepção. ''Eu fiz o projeto na década de 50, e só na década de 80 voltei para a cidade. Fizemos um projeto para o Centro Cívico que era para ser uma praça, um ambiente livre e depois encontrei essa proposta deturpada. Virou um grande estacionamento'', reclama.
Aos 81 anos e dono de uma produção impecável, tanto na arquitetura quanto em design, Sérgio não deixa muito espaço para reclamações. ''Ficou no passado''. No presente, uma galeria americana está preparando um livro sobre o conjunto de sua obra, e ele também prepara uma publicação só com suas ilustrações e desenhos técnicos, que deve ser lançada já no próximo ano. Sobre as tendências na área, o experiente profissional é categórico: ''Acho tendência uma palavra lamentável. As tendências são necessárias para acalmar lojistas. Os artistas e criadores não precisam delas''. Sérgio Rodrigues, certamente, não precisa. O que ele faz vira moda.

Serviço:
Em Curitiba, é possível conhecer mais sobre o trabalho de Sérgio Rodrigues no showroom anexo à loja Tonarte, na Av. Vicente Machado, 975. Visitas das 9 às 19 horas.

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