Curitiba- Médico de formação, artista plástico por opção. Se você pensa que escolher entre essas duas profissões tão distinas é algo fácil, não conhece a história do paranaense Carlos Eduardo Zimmermman, um dos artistas mais premiados e reconhecidos do Estado. Filho de imigrantes libaneses e alemães, ele nasceu em Antonina, em 1952, e passou a infância entre Curitiba e o Litoral. Mas foi na Capital que a história dele como artista começou a ser desenhada. Ainda criança foi levado pela mãe, professora, a um ateliê de artes. ''Ela achava que eu tinha afinidade com desenhos e trabalhos manuais''. Estava certa. Mas daí até a decisão definitiva de trilhar o caminho das artes e deixar uma promissora - e tradicional - carreira de lado, muitas tintas seriam derramadas.
Ainda na adolescência, Zimermmann teve aulas com o mestre Guido Viaro, cujo nome dispensa apresentações no meio artístico. ''De lá para cá, foi tudo muito rápido'', revela. Já reconhecido pelos principais artistas paranaenses, ele não deixou de lado a oportunidade de cursar uma faculdade. Escolheu a medicina e foi até o fim, mesclando as duas aptidões. ''Eu vim de uma família de engenheiros, médicos e advogados. Era uma época muito incerta, eu não conseguia me enxergar como artista, vivendo da arte'', conta, citando a difícil fase econômica e política pela qual passava o País. Ignorando as dificuldades e incertezas, porém, o mundo ainda o esperava.
Assim que terminou a faculdade, Zimmermaan ganhou uma importante bolsa de estudos do governo inglês. Foi um tempo muito curto entre a formatura em medicina e a ascensão artística. Em Londres, ele foi estudar desenho e pintura no Royal College of Art, e lá ficou dois anos. O retorno ao Brasil duraria pouco tempo, já que em seguida foi recomendado para o programa de um ano de especialização em artes, da Fullbright Commission, na School of Visual Arts, de Nova York. ''Eu trabalhei como médico apenas um ano, mas ainda não me desliguei totalmente da medicina. As escolhas que tomei é que me diferenciam. A vida, aliás, é feita de escolhas'', salienta o artista ressaltando que tudo é uma questão de organizar tempo e priorizar tarefas.
Foi seguindo essa premissa que ele conseguiu levar a faculdade sem deixar as artes, e vice-versa. Mas foi quando voltou ao Brasil, depois da temporada na Inglaterra e Estados Unidos, que decidiu definitivamente pelos pincéis e telas. De lá para cá, mais de três décadas depois, centenas de quadros pintados, dezenas de prêmios e incontáveis exposições coletivas e individuais. Uma trajetória que foi compilada no livro ''Zimmermann - O objeto e sua aura'', ainda inédito. Com lançamento marcado para o próximo dia 8 de novembro, o livro traz textos e fotos que remetem à produção do artista nos últimos 35 anos. Com 124 páginas, o livro traz mais de 120 reproduções em cores das obras assinadas por ele.
''A intenção era fazer um diário de bordo e mostrar as etapas mais significativas do meu trabalho'', revela. Tarefa difícil, já que ele reúne uma vasta obra e muita experiência. ''Mais uma vez, o que regeu o trabalho foram as escolhas'', salienta sobre o critério de seleção das telas que ilustram a publicação. A confecção do livro, realizada nos últimos três anos, foi também um período de reflexão sobre toda sua trajetória. ''É curioso contar nossa própria história e saber que damos o perfil que queremos que as outras pessoas saibam'', conta o paranaense.
De todas as fases, vividas e representadas em suas pinturas, ele diz não ter afeição especial por nenhuma. ''Todas são importantes porque representam algo''. Mas ao olhar para trás e rever suas escolhas - e sua obra - uma certeza Zimmermann diz ter: não existe espaço para arrependimentos. ''Vejo tudo com muita satisfação e plenitude espiritual.'' Uma serenidade que o artista leva para a sua fase atual na carreira.
Ele tem feito obras que levaram até dois anos (cada uma) para ficarem prontas e que mostram apenas detalhes de espaços arquitetônicos. Uma síntese que ele leva também para a vida pessoal. Zimmerman mantém um confortável ateliê muito perto do Parque Barigui, onde também mora. Lá, acorda cedo para ter tempo de ficar com Tebas e Luxor, o cachorro e o gato, seus companheiros inseparáveis; pintar e tratar de assuntos pessoais, antes que o mundo acorde. ''Gosto de ter tempo para mim antes que o telefone começe a tocar'', brinca. E lá também tem tempo de se reinventar e parodiar Clarice Lispector na frase que abre o livro do artista: ''Um dia, depois que nascemos, nós nos inventamos''.

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