Uma vida dedicada ao próximo
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sábado, 17 de maio de 2014
Érika Gonçalves<br>Reportagem Local 
"O foco da matéria não sou eu. O mais importante é que as pessoas conheçam e saibam como funciona o Lar das Vovós e o Lar dos Vovôs." "Não precisa fazer fotos minhas não, fotografa os lares!" Os pedidos da encabulada telefonista aposentada Maria Julia Dutra de Barros foram feitos mais de uma vez, durante e após a entrevista à FOLHA. A atual vice-presidente da Sociedade Espírita de Promoção Social, mantenedora dos lares, é voluntária há 30 anos na instituição e por isso é quase impossível dissociar sua história da trajetória das casas.
A Sociedade Espírita fundou inicialmente, em 1953, um albergue e seis anos depois o Lar das Vovós. Em 2006, os voluntários decidiram transformar o albergue em um lar para idosos masculinos. Hoje, os dois atendem 70 idosos.
Nascida em Londrina, Julia diz que começou a ajudar no albergue quando a caçula de seus três filhos tinha apenas seis meses de idade, por convite de uma amiga. "Era para vir nos sábados à tarde, fazer a sopa e separar as roupas. Meu filhos eram pequenos, mas aceitei vir porque seria rápido. Lembro que no primeiro dia, logo após o almoço deixei a mamadeira da minha filha preparada, saí e disse que voltava logo. Mas só voltei no fim da tarde", conta rindo.
De um dia na semana, ela passou para dois, depois três, até ser convidada para participar do conselho da diretoria. "Nunca tinha participado, mas fui na primeira reunião e fui tomando ciência dos problemas, das dificuldades, das contas na gaveta, dos eventos que tínhamos que fazer para arrecadar recursos", diz.
Para tentar resolver esse problema, ela explica que se inspirou em uma cidade onde a comunidade fez um pedágio no centro para recolher fundos para uma instituição. "Falamos com a Polícia de Trânsito e fizemos o primeiro pedágio na Avenida Madre Leônia Milito. O shopping tinha recém-aberto as portas, todo mundo ia conhecer. Fechamos as duas pistas, ida e volta. Fizemos três pedágios alternados e conseguimos quitar todas as contas atrasadas", diz, mostrando alívio.
Com o passar dos anos, Julia foi assumindo outras funções até ser eleita presidente da instituição. Já aposentada, ela tomou a resolução de dedicar diariamente parte do seu tempo ao trabalho voluntário. "Como eu não precisava mais trabalhar para ganhar meu sustento e não tinha mais filhos pequenos, me propus a usar meu tempo para o serviço voluntário. Então venho todos os dias, no mesmo horário."
Em 30 anos, muitas histórias marcaram a voluntária, algumas boas, outras nem tanto. Entre as com final feliz, ela se lembra de um senhor que voltou para Londrina depois de 20 anos e como não conseguiu contato com os parentes, foi para o albergue. "Uma voluntária reuniu as informações que ele tinha e decidiu procurar pela família, que na época morava em um patrimônio. Perguntando aqui e ali, encontrou alguém que sabia para onde haviam se mudado e conseguiu reuni-los", conta emocionada.
Em outra ocasião, chegou ao albergue uma senhora que havia morado muitos anos no Nordeste, depois de sair de Londrina. Quando ficou viúva, com filhos pequenos, resolveu voltar. Como não conseguiu mais encontrar a família e decidida a permanecer na cidade, contou com a ajuda dos voluntários para conseguir um terreno no Jardim João Turquino e construir uma casa simples, de madeira. "Ela pôs as crianças na creche e foi trabalhar. Depois começou a fazer lá o trabalho que fazíamos, fazendo a sopa nos sábados. Percebo que era alguém com coragem de ir além. Sei que ela se casou de novo, tocou a vida dela, mudou de lá. São histórias bonitas que saíram daqui. Eu gosto de olhar para trás e ver o que é positivo", destaca Julia.
Ela também se orgulha de contar que a partir das atividades desenvolvidas pelos voluntários da instituição nasceram outros trabalhos voluntários de destaque, como a Casa Frei Fabiano de Cristo, no Jardim Olímpico, o Núcleo Espírita Irmã Scheilla, no Jardim Interlagos, e a Casa do Caminho, no Jardim Aeroporto. "Criou-se uma escola de voluntários, o nosso serviço foi uma preparação para outros lugares", pontua.
Talvez por isso, Julia goste de ressaltar a importância do compromisso daqueles que querem ser voluntários. "Precisa ter dedicação nesse trabalho, não é só dizer sou voluntário e nunca mais aparecer. Mas a pessoa tem que procurar o seu lugar, o que lhe dá satisfação, senão não dá certo. O serviço voluntário tem que ser prazeroso!"


