A assistente social Édina Mariene Rocha, de 62 anos, nunca se acomodou frente aos problemas, sejam os próprios ou de terceiros. Mesmo com dificuldades de locomoção, que a obrigaram a usar uma bengala e mais recentemente muletas, ela trabalhou durante muitos anos com crianças e adolescentes que viviam pelas ruas de Londrina. Tanta dedicação lhe rendeu recentemente uma homenagem da Câmara de Vereadores de Londrina, com a entrega do Diploma de Reconhecimento Público. Nascida em Ivaiporã, Édina iniciou seu trabalho social quando era religiosa da Congregação das Irmãs da Providência em Sorocaba, interior paulista. "Fiquei lá 10 anos e tive experiências na área de criança e adolescente, orfanatos, crianças em hospital, meninos de rua. Em 1986 deixei a Congregação e voltei para o Paraná. Meu irmão morava em Londrina e vim para cá para estudar. Aos 35 anos fui aprovada no vestibular para Serviço Social. Era a profissão que daria respostas ao trabalho que eu queria continuar fazendo, não só pelo senso comum ou caritativo, no aspecto religioso, mas que tivesse um cunho de mudanças", conta. Paralelamente à universidade, Édina começou a atuar como voluntária na Pastoral do Menor, que estava iniciando o projeto Educador de Rua com os adolescentes. No Brasil estava se fortalecendo o Movimento Nacional de Meninos e Meninas de Rua e Londrina não ficou de fora, logo formando uma comissão, que em seguida levava as discussões para Curitiba e de lá, para Brasília. "O Movimento era político, autônomo. Ele foi se expandindo em todos os Estados. Havia a necessidade da mudança, que a criança e o adolescente se tornassem um sujeito da sua história", diz Édina. Essas discussões foram o embrião para o Estatuto da Criança e do Adolescente, promulgado em 1990. Em decorrência do trabalho realizado com os adolescentes nas ruas, Édina acabou indo muito além. Sem uma casa em que os meninos pudessem receber alguns cuidados básicos como tomar banho antes de uma consulta médica, ela não hesitava em levá-los para sua própria casa. Nessa época ela ainda morava em uma república no centro da cidade e contava com a compreensão das colegas, algumas também voluntárias. "Depois fui morar em uma casa, com um colega militante, que depois se tornou meu companheiro e pai da minha filha. Levamos alguns meninos para morar conosco. Eles ficavam na minha casa, tinham encontros semanais com as famílias, tentávamos fazer um trabalho de retorno. Isso foi até a criação da casa abrigo da prefeitura e mesmo assim três deles continuaram conosco", explica. Depois dessa experiência, Édina e o companheiro também foram pais sociais, trabalhando com adolescentes que não se adequavam aos abrigos, principalmente devido ao problema com as drogas. Durante um ano eles cuidaram de 15 adolescentes, meninos e meninas, além da filha Stella Cristina Gil, hoje com 20 anos. "Tentamos criar o mesmo ambiente de uma casa. Foi uma experiência muito válida", pontua. Com a aprovação em um teste para trabalhar no antigo Setrem hoje Cense (Centros de Socioeducação), Édina acabou optando por deixar o abrigo, devido à rotina atribulada. Alguns anos depois, de volta ao trabalho na prefeitura, Édina pediu para trabalhar na abordagem das pessoas em situação de rua e participou da implantação da primeira casa de semiliberdade, um local para os adolescentes ficarem antes de retornarem para suas famílias. Depois foi coordenadora do Projeto Sinal Verde e trabalhou em diversas áreas da Secretaria de Assistência Social, até se aposentar, em julho deste ano. Durante esse período, encontrou alguns dos antigos adolescentes, hoje homens e mulheres que ainda estão na rua. "Do grupo que encontrava no Bosque, tenho contato com muitos deles. Alguns são mães de família, têm filhos entrando na faculdade. Tem meninos que estão em trabalhos humildes mas que estão bem, constituíram família. Alguns morreram e alguns ainda estão na rua, lutando para sair. Mas não fazemos o trabalho contando a quantidade, mas a qualidade. O que a gente fez naquela época marcou a vida deles. Eles têm respeito e carinho, assim como eu, porque digo que são filhos do coração." Sobre a homenagem da Câmara de Vereadores, Édina destaca que não cabe somente a ela, mas é o reconhecimento do trabalho de muitas pessoas. "Enquanto há vida, há esperança. Ninguém está perdido, a gente tem que acreditar no outro. Eu continuo acreditando", finaliza, acrescentando que pretende voltar a atuar como voluntária no Centro de Referência Especializado para População em Situação de Rua (Centro POP).