Curitiba - O que a publicidade tem em comum com a gastronomia? Para o restaurateur Marcelo Amaral, absolutamente tudo. Tanto que ele pensa em escrever um livro sobre a temática e adota em seu restaurante nomenclaturas utilizadas nas agências de propaganda. Para começar, Marcelo eliminou a função dos garçons. ''Aqui, assim como nas agências, temos atendimentos'', explica. Os funcionários do restaurante Lagundri, especializado na cozinha do sudeste asiático, em Curitiba, recebem treinamento para oferecer aos clientes não só informações sobre o cardápio, mas também repassar a cultura que é especialidade do lugar. Uma característica que Marcelo aprendeu na prática.
Formado em design pela PUC-PR, em 1999, ele trocou a carreira como diretor de arte que acabara de começar por uma aventura pra lá de arriscada. ''Queria ir para Califórnia surfar e me especializar na área de propaganda, mas eu era recém-formado e estava desempregado. É claro que cheguei em São Paulo e o meu visto foi barrado'', lembra, com bom humor. O retorno para a capital paranaense durou apenas o tempo de ele escolher um novo destino. ''Um lugar em que eu não precisaria de visto e que eu pudesse surfar''. Foi assim que sua passagem para Nova Zelândia foi marcada, dando início a uma série de experiências que mudaram a rota e a vida do paulista, natural de Piracicaba, mas radicado em Curitiba desde a infância.
Músico e surfista, além de publicitário, Marcelo viajou com pouco dinheiro, uma prancha numa mão e um violão na outra. Chegou na Nova Zelândia e logo foi trabalhar em subempregos. ''Primeiro eu queria aprender inglês. Estudei sete anos o idioma, mas quando cheguei lá, parecia que eles falavam alemão'', brinca. Enquanto isso, funções como lavar pratos e cortar grama o ajudavam a sobreviver. Da Nova Zelândia, ele rumou para Austrália, com um visto conquistado de forma, digamos, inusitada e criativa. Foi lá que começou a trabalhar na cozinha, dando início a uma longa trajetória. ''Até então, a cozinha era um mistério para mim, um carma'', revela.
Mas o mistério foi se dissipando à medida que a experiência avançava. No primeiro momento, o designer trabalhou em cozinhas de restaurantes e pousadas, mas ao longo do tempo e das mudanças de cidade e região, passou a se encantar com a origem dos pratos. ''Em cada lugar que passava, sempre procurava conhecer a cozinha das casas dos nativos. Eu queria conhecer a maneira deles cozinhar. Era fantástico ver aquelas pessoas cozinhando numa casa de chão batido, com panelas penduradas nas paredes e fazendo os pratos mais sofisticados que conheci'', conta. E quanto mais longínquo e inóspito era o local conhecido por Marcelo, mais esse desejo se aprimorava, fazendo com que ele mudasse seus planos de trabalhar com publicidade.
Isso foi acontecendo ao longo de sua prática fora do Brasil. Depois de um ano na Austrália, ele decidiu voltar para Curitiba, mas entre a decisão e o retorno ainda transcorreria um ano. Isso porque ele escolheu uma rota nada usual - no entanto, mais barata - de retornar ao país natal. O bilhete passaria pela Tailândia, Grécia, França até chegar ao Brasil. ''Quando cheguei na Tailândia, decidi ficar''. Foram mais seis meses viajando pela Tailândia e cidades do sudeste asiático. Também de uma maneira nada convencional. ''Sempre fugi de rotas turísticas. Ficava em pousadas que não estavam nos guias e busquei conhecer a cultura das regiões e não o que tentavam passar para os turistas'', revela. Assim, ele se deslocava de carona, de trem e até de barco em rotas nada usuais.
Engana-se quem pensa que tudo são flores nesse modo aventureiro de ver a vida e provar o mundo. No meio dessas andanças e aprendizados, Marcelo passou maus bocados, como uma vez em que foi parar em um hotel fantasma, cercado de pessoas que não falavam inglês e que o vigiavam em seu quarto através de uma fresta na parede. Chegou a descer três andares de escada correndo e subi-los na mesma hora, ao se deparar com umas 30 pessoas o observando. Peripécias e riscos a parte, o ex-publicitário também acumula experiências místicas. ''Cheguei a dormir nos braços de um Buda, na cidade de Ayuthaya, na Tailândia'', confessa. Experiências que o fizeram aproximar mais de Deus e de uma vertente espiritual que ele alimenta até hoje.
Só que as aventuras não encerraram quando Marcelo voltou do exterior. No Brasil, recomeçou a trabalhar com publicidade tanto em Curitiba como numa rápida passagem pelo Rio de Janeiro. A diferença é que já estava contaminado pelo vírus da gastronomia e intercalava o trabalho de propaganda com eventos gastronômicos fechados, onde apresentava os pratos que aprendeu lá fora. ''Eu servia a comida em folhas de bananeira. E o sabor era muito diferente, isso foi encantando as pessoas'', diz. No Rio, por exemplo, o restaurateur chegou a preparar pratos para o pessoal do Projac e elenco da Globo, além de pessoas influentes na Cidade Maravilhosa. Isso não fez com que o rapaz ficasse no Rio de Janeiro, e logo ele voltou para a capital paranaense.
Na capital paranaense, finalmente, decidiu montar um restaurante especializado na comida do sudeste asiático. Uma empreitada, na época, nada fácil. ''Curitiba ainda não estava acostumada a consumir esse tipo de gastronomia. Isso foi mudando aos poucos'', analisa. O risco não estava apenas em mergulhar num novo empreendimento. Marcelo escolheu um local aparentemente nada adequado, numa rua que até então não tinha nada que lembrasse qualidade. Mas logo a antiga casa, localizada na Rua Saldanha Marinho, foi sendo transformada. ''Eu não tinha visão de administração, mas tinha minha visão de diretor de arte. E a cozinha, o restaurante, assim como a publicidade, precisam de muita criatividade. Não vejo diferença alguma nas duas funções''.
E foi com muita criatividade e pouco dinheiro que ele começou a desenhar o que se transformou num dos endereços mais charmosos da Capital. No interior do Lagundri, plantas gigantes disputam espaço com lustres feitos de palha e acessórios garimpados aos poucos na Tailândia. Hoje, o empresário faz questão de voltar à região que deu origem ao restaurante (Lagundri é uma referência à baía onde fica Nias, em Sumatra, a maior ilha da Indonésia) para trazer badulaques, temperos e acessórios que transformam o local numa experiência cultural, muito mais do que um restaurante.
Da inauguração do espaço em Curitiba até hoje, lá se vão quase três anos. Agora Marcelo, que ganhou apoio do irmão, Ricardo, vai abrir uma filial em Campinas (SP), que deve inaugurar em agosto e também prepara a mudança de cardápio da matriz curitibana. Sobre a experiência que o levou a mudar de rota e de carreira, ele avalia: ''Acho que deu certo porque fiz tudo com o coração''. Quem sabe aí esteja o segredo do sucesso.

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