Curitiba - A atriz curitibana Fernanda Farah já estava na Alemanha há algum tempo, quando teve uma conversa inusitada. Um padeiro perguntou porque ela havia mudado de país. ''Porque casei'', respondeu ela, resumindo. O homem, então, disse: ''Ah, mulheres fazem isso''. Não apenas mulheres mudam sua vida por amor, mas no caso de Fernanda, essa foi apenas uma das motivações. Casada com o compositor Chico Mello, radicado em Berlim, ela decidiu sair da capital paranaense há oito anos, em busca de novos desafios. Não foi a primeira vez. Já aos 17 anos, Fernanda deixou a casa dos pais para morar em São Paulo e estudar na escola do diretor de teatro Antunes Filho. A profissão, ela perseguia desde os 12, quando fez teatro na Universidade Federal do Paraná. ''Mas desde os seis anos eu já tinha certeza que queria ser atriz'', conta, determinada.
No Brasil, além de Antunes Filho, com quem tem suas ressalvas, ela trabalhou com um dos nomes mais citados do teatro contemporâneo: Felipe Hirsh e sua Sutil Companhia de Teatro. Foi com a Sutil que ela conseguiu fazer uma ponte entre Alemanha e Brasil no consagrado espetáculo ''A Vida é Cheia de Som e Fúria'', quando vinha de Berlim apenas para as temporadas da excelente montagem. A Sutil também foi responsável pela passagem mais recente da atriz em território nacional. Ela estreou aqui o espetáculo ''Thom Pain - Lady Grey'', com o também curitibano Guilherme Weber no elenco. O espetáculo foi um dos carros-chefes da edição 2007 do Festival de Teatro de Curitiba.
Antes de embarcar para Berlim, na última quinta-feira, Fernanda ainda filmou, com a premiada diretora Heloísa Passos (que recentemente ganhou o Prêmio Sundance de Melhor Fotografia pelo filme ''Manda Bala'') o curta-metragem ''Lá fora é aqui dentro'', gravado em Curitiba e que deve ser lançado até o final do ano. Com visto alemão permanente, ela não pensa em voltar tão cedo para o Brasil, mas também não descarta os planos de trabalho no Brasil. Entre eles estão uma parceria com a atriz Simone Spoladore. ''Ainda não sabemos o que, mas vamos fazer alguma coisa juntas'', revela Fernanda.
Na Alemanha, ela está realizando trabalhos regulares tanto na área teatral como na de música experimental, que está sendo um dos destaques da sua trajetória atual. Em Berlim, está coordenando uma série de apresentações da cena musical independente que acontecem em uma casa tombada na antiga Berlim Oriental, em que se apresentam músicos de todo o mundo. Ela também gravou recentemente um CD com o músico austríaco Christoph Kurzmann.
No seu currículo também aparecem ''Hamlet Maschine'', de Heiner Muller, que foi o primeiro trabalho feito na ponte entre Alemanha e Brasil; ''Unexpected Rules'', vídeo-instalação de Phillipe Schwinger e Frederic Moser, apresentado na Bienal de São Paulo em 2004, e ainda parcerias no teatro musical de Kesten & Weissmann e Ott & Rau.
Sobre o tempo que está fora, inclusive acumulando experiências de estudos em outros países e cidades - em 2005, Fernanda ganhou uma bolsa para estudar teatro-dança na Áustria e também estudou música em Nova York, num breve hiato da sua permanência na Alemanha - a atriz fala dos obstáculos enfrentados. ''São dificuldades que não param, se transformam. Mas a principal, acho que é a barreira da língua. Se você é uma pessoa eloquente essa eloquência te dá um certo status, mas quando você não fala a língua do país em que está isso não significa nada'', considera. Este obstáculo, Fernanda já superou, já que está dominando bem o idioma alemão, além do inglês.
Com toda essa trajetória, Fernanda, que também estudou na Escuela Internacional de Teatro da América Latina no Chile e na Nicarágua, acumula impressões da realidade teatral do Brasil e do mundo. Agora, já não se considera tão brasileira. ''Tenho a sensação de ser respeitada mais lá fora do que aqui. Lá, as pessoas não misturam tanto a vida profissional com a pessoal'', considera.
A relação com as pessoas e com o País também muda, depois de alguns anos fora. ''Quando volto ao Brasil tenho a sensação de estar sendo enganada. Quando o ônibus atrasa, olhando a situação das calçadas, por exemplo. Mas quando estou no Primeiro Mundo, tenho saudades de viver na enganação'', brinca. As relações pessoais e as amizades brasileiras estão na lista de saudades da atriz, que considera: ''Acho que está ocorrendo uma 'brasilização' no mundo. Antes, lá fora, as coisas aconteciam com mais antecedência, agora está tudo cada vez mais em cima da hora'', conclui.

mockup