Uma ótima desculpa
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domingo, 17 de dezembro de 2006
Karla Matida<br>Reportagem Local 
Bronzeadíssima de sol e com iluminados escarpins dourados de glítter, Franziska Hubener surpreende a todos os que esperavam por uma senhora. Afinal, nos últimos 20 anos, a designer de calçados viu seu nome virar grife e ganhar os pés não só das brasileiras como de muitas européias, japonesas e norte-americanas. ''Comecei com 19 anos'', avisa Franziska, que passou por Londrina esta semana visitando a multimarcas que revende seus sapatos e bolsas. Apesar de exportar suas criações para os quatro cantos do mundo, é pelo Brasil que ela resolveu viajar para conhecer ainda mais de perto a sua clientela.
As viagens de Franziska de norte a sul do País fazem parte das comemorações de duas décadas da marca. ''Não posso ficar presa apenas num escritório em São Paulo ou mesmo nas viagens que faço para participar das feiras internacionais'', conta a designer, que tem o espírito desbravador correndo nas veias.
Nascida na Alemanha, Franziska se mudou para o Brasil quando tinha apenas oito anos. ''Minha mãe se casou novamente com um alemão que veio trabalhar no Brasil'', lembra. ''Criança se adapta facilmente e quando me disseram que eu viria para cá aqui achei que iria morar naquelas casas construídas sobre as águas'', conta. Além de se imaginar morando em palafitas, Franziska também fez logo um pedido inusitado para a mãe. ''Perguntei se eu poderia ter um macaquinho'', diverte-se a designer, que acabou ganhando um papagaio.
O que começou com uma aventura familiar logo se transformou em paixão própria. Depois de completar o colegial na Inglaterra, Franziska sabia que precisava de um bom pretexto para voltar ao Brasil e não para a terra natal. ''Também queria fugir da faculdade'', confessa. Mas além do amor pelo País, havia também um amor de verdade. ''Ele foi me buscar na Alemanha'', relata Franziska sobre o primeiro marido.
Processo artesanal
''Sou apaixonada por bolsas e sapatos. Como toda mulher'', declara. Auto-didata, ela se recusou deixar o Brasil para um curso de design no exterior. ''Hoje eu sinto falta de saber desenhar'', explica Franziska, que costuma criar sobre formas pré-prontas. ''No começo quebrei muito a cabeça porque por aqui os calçados são negócios que passam de pai para filho. Não tinha escola'', lembra. De uma família de corretores de seguros, Franziska teve que aprender tudo sozinha. ''Acho que devo ser uma das únicas alemãs a criar calçados'', sobre a reputação dos conterrâneos, mais conhecidos pelos seus carros do que pelos pisantes.
''Há 20 anos, minha então cunhada me disse para não mexer com sapatos'', conta a designer, que ouviu o conselho. ''Mas seis meses depois eu já estava criando sapatos'', entrega. A primeira coleção de bolsas foi logo vendida para a Daslu, que na época era bem mais intimista que o atual império.
De lá para cá, os negócios cresceram muito e hoje a grife tem uma produção de dois mil pares mensais e mais 700 bolsas que abastecem lojas pelo País, loja própria no badalado Shopping Iguatemi, em São Paulo, e mais pontos de venda no Japão, Alemanha, França, Grécia, Emirados Árabes, entre outros cantos do mundo. Reconhecida pelo cuidado na escolha das matérias-primas, Franziska ainda mantém o processo artesanal do início. Seus produtos são todos feitos à mão.
Criadora de uma nova vertente na família, Franziska já vê seu filho de 17 anos se interessando pelo negócio. ''Mas ele é mais da parte administrativa'', afirma.
A colorida coleção Verão 2007 foi fotografada em Salvador e se divide democraticamente entre saltos altíssimos e rasteiras que, aliás, são feitas apenas para as clientes. Franziska é fã confessa dos saltos altos. ''Já as japonesas preferem os saltos médios'', explica ela, que esteve três vezes do outro lado do mundo conferindo os gostos e o modo de viver da clientela nipônica.
Participante da Associação Brasileira dos Estilistas (Abest), Franziska também conta com o apoio da ApexBrasil, agência federal de exportações e do Ministério do Turismo. Antes de desembarcar no norte de Paraná, ela já tinha passado por Natal e Ribeirão Preto. ''São mercados bem diferentes. No Nordeste, as mulheres preferem os saltos, no interior de São Paulo, as rasteiras'', avisa.
Recém-chegada a Londrina, a cidade ainda era uma incógnita para ela. Tanto que chegou de casaco e logo precisou se trocar já que a temperatura batia nos 30 graus. Mas é claro que a alemã brasileiríssima não se incomodou com o clima tropicaliente. Não foi por acaso que ela trocou o velho continente pelo Brasil.


