Ana Maria Barreto não é de meias-palavras. Talvez, por isso, seja considerada ‘‘polêmica’’. Pelo menos essa palavrinha se insinua com frequência quando algum repórter a procura para uma entrevista ou alguém se refere a ela. Ana Maria discorda: ‘‘Não sou polêmica. Sou uma espécie em extinção: sempre digo exatamente o que penso. Puxei a meu pai, um homem inteligente, educado, que dizia o que pensava, com educação’’.
Baiana de nascimento e radicada em Londrina desde 1970, quando se casou com o neurologista João Vianey Esmeraldo Barreto, mãe de Verônica e Ana Verena e avó de Ana Teresa, a marchande ironiza: ‘‘Ser sincero está fora de moda’’. Segundo ela, ‘‘se as pessoas dissessem o que realmente pensam, a vida seria mais fácil’’. E acrescenta: ‘‘Também não sou do contra. Sou, sim, franca e de idéias bem definidas. Não fico em cima do muro. Se isso é defeito, eu tenho esse defeito. Pra mim, é qualidade.’’
Ana Barreto conta que, desde criança, esteve rodeada por obras de arte, na casa dos pais, em Salvador. De uma visita à terra natal trouxe alguns trabalhos que começou a vender em sua casa, em Londrina. Incentivada pelo artista plástico Caribé, inaugurou sua galeria – a Bahiarte – em outubro de 1973. A primeira coletiva já incluía pesos pesados das artes plásticas brasileiras, como o próprio Caribé, Érico da Silva, Mirabô Sampaio e Scliar, entre outros.
A marchande trabalha com mais de 90 nomes e já trouxe para Londrina e cidades da região obras de Juarez Machado, Sergio Telles, Cláudio Tozzi, Aldemir Martins, Bianco, entre muitos outros. Por diversas vezes trouxe os artistas para a abertura das exposições. Ana Maria orgulha-se de manter uma relação de amizade com a maioria dos pintores cujas obras comercializa. Tanto que já foi retratada por 15 deles: Juarez Machado, Darcy Penteado, Luiz Jasmim, Martinolli, Farnesse, Zé Paulo Moreira da Fonseca, só para citar alguns. Vários desses retratos enfeitam a parede do seu quarto – ‘‘onde pouca gente entra’’. Um está na sala de estar e outro na de TV. ‘‘Não penduro todos porque vai parecer que me acho linda’’, brinca. E se pergunta: ‘‘O que minhas filhas vão fazer com tanto retrato?’’
Foi ela quem conseguiu, através de doação, todas as obras do acervo do Museu de Arte de Londrina. Um ‘‘feito’’ aplaudido por muitos e criticado por outros tantos, que defendem a valorização do artista local pelo espaço. ‘‘Não sou dona do Museu, não administro o museu. Apenas faço parte de um grupo de pessoas (ela se refere à Samalon - Sociedade dos Amigos do Museu de Arte de Londrina) que fez de tudo para que a cidade tivesse um museu de alto nível. E o entregamos à cidade’’, defende-se.
Ana Maria Barreto diz que nunca desprestigiou os artistas locais. ‘‘Atuo no mercado de arte e, antes de fazer uma exposição de qualquer artista, seja ele local ou de renome nacional, tenho que trabalhar esse artista’’, explica. Mesmo assim, a marchande já incluiu, em coletivas, trabalhos de artistas londrinenses como Udhy Jozzolino, Jane Bordin e Wania Tibery. ‘‘A obra dessa última, inclusive, foi capa do catálogo’’, observa.
Embora se considere uma pessoa sem muita vaidade, Ana Barreto admite ser criteriosa com a casa: ‘‘Gosto de um lençol bonito, de uma mesa bem arrumada, mas sem frescura. E, claro, adoro obras de arte. Tinha quadros antes mesmo de ter móveis na minha casa’’, lembra. Também tem um fraco por sabonetes de griffe, como Chanel, Bulgary e Givanchy.
Da Bahia, sente falta da família e da comida – embora seja uma cozinheira de mão cheia, principalmente dos pratos típicos baianos. Mas a receita que ela faz questão de passar adiante é a do sucesso: ‘‘Tenho uma filosofia de trabalho, uma filosofia de vida. O sol nasce para todos, e vence aquele que luta com sinceridade, com honestidade e com garra. Todo o resto é bobagem.’’

mockup