"Não tenho do que reclamar, hoje eu não trabalho, não durmo com goteira na minha cabeça, tenho uma secretária, tudo isso com a ajuda do meu filho", diz Ane Cristiane Machado, 54
"Não tenho do que reclamar, hoje eu não trabalho, não durmo com goteira na minha cabeça, tenho uma secretária, tudo isso com a ajuda do meu filho", diz Ane Cristiane Machado, 54 | Foto: Anderson Coelho



A camisa verde e amarela pendurada na parede da sala denuncia o orgulho. Se pudesse resumir Ane Cristiane Machado em uma palavra seria: brasileira. Aos 54 anos, a mulher negra, forte, da periferia, da batalha e de sorriso largo pode hoje assistir aos jogos da Copa sob uma visão privilegiada de torcedora e com uma vibração maternal. Da panela d’água na cabeça à matrioska da Globo, a mãe do jogador Fernandinho, 33, vive em Londrina, mas está na Rússia para acompanhar o filho nos jogos da seleção, que começam neste domingo (17).

"A expectativa é muito grande para essa Copa. Estou esperando trazer essa taça e nada menos que isso", brinca. A torcida é grande e próxima. Dona Ane viajou para a Rússia na última terça-feira (12) para despejar boas energias ao filho. A depender da confiança da mãe, a seleção tem muito para impressionar e Fernandinho uma responsabilidade que nem imagina. "Já pensou se for com um gol dele ainda? Ele não vai saber que o gol é meu, mas eu sei que é pra mim", ri.

Toda essa expectativa em um país que dona Ane conheceu no ano passado quando gravou o programa "As Matrioskas", da Rede Globo, transmitido nas últimas semanas. O programa uniu as mães de Neymar, Gabriel Jesus e Fernandinho na Rússia. "Quando a produção me ligou para me convidar, eu até pensei que fosse trote. Eu aceitei e foi muito gostoso, uma experiência maravilhosa", afirma. O programa mostra um pouco da personalidade esfuziante que dona Ane não escondeu durante a entrevista.

No sofá da sala, chora, ri, brinca e dá bronca nos netos que liberam a energia infantil pelo apartamento. Mostra um pouco os atributos de quem foi a filha mais velha de sete e teve que aprender desde cedo a conviver com as dificuldades. "Meu pai é músico, então nós moramos em vários lugares do Brasil e passamos dificuldade. Lembro quando não tinha água encanada, então eu descia o morro para buscar água na cabeça e já levava um monte de roupa para lavar", emociona-se.
Nessas mudanças da família, foi sozinha morar com uma tia que ofereceu melhores condições. "Fiquei cinco anos morando em Ribeirão Preto com ela. Não vi mais minha mãe e meu pai nesse tempo. Foi difícil, porque essa minha tia era uma pessoa muito rude, eu me tornei praticamente uma empregada dela. Eu apanhava de fio de ferro", recorda. Hoje, afirma não ter guardado mágoa e até agradece o fato de ter aprendido muitas coisas.

"O reencontro com a minha mãe foi superemocionante", conta entre lágrimas, lembrando que a família veio a Londrina em busca de emprego para o pai. "Eu lembro que a gente não sabia o endereço dela direito, a gente procurando lá no Lindoia (zona leste). Eu estava uma moça, tinha 16 anos, e era menina quando saí de perto dela", recorda. Dois dias depois, começou a trabalhar como doméstica na cidade.

Sofreu com o abandono do pai e a mudança da família de volta para Ribeirão Preto, mas aqui havia encontrado o pai de Fernandinho e Thaís, 28, um casamento que durou 10 anos e teve uma separação conturbada, com idas e vindas dos filhos entre Ribeirão e Londrina. Matricular o filho na escola de futebol quando vivia lá no interior de São Paulo foi uma alternativa para amenizar o sofrimento.

Enquanto a mãe trabalhava, Fernandinho estudava, jogava bola, cuidava da casa e da irmã mais nova, que veio de um outro relacionamento. "O Fernando tinha 11 anos. Eu deixava os passes para eles trocarem pelo que quisessem e ia trabalhar a pé. Às vezes, eu via pelo buraco no muro o Peter (treinador da escola de futebol) correndo com a Gabi no colo e o Fernando parando para dar água, trocar fralda. Ela tinha uns dois anos, aprendeu a andar e a falar com ele, tanto que ele é o ‘pai’ dela", orgulha-se.

Aos 14 anos, Fernandinho veio morar com o pai em Londrina, treinou no PSTC e aos 16 foi convidado para jogar no Atlético-PR, onde o menino cresceu e teve o talento reconhecido. "Antes ele treinava como uma criança normal, mas conforme foi crescendo, quis seguir carreira. Eu levava a sério por ele, porque ele estava fazendo uma coisa que gostava e o fazia feliz", afirma a mãe coruja. Hoje, o filho mais velho de dona Ane joga pelo Manchester City depois de ter passado pelo Shakhtar Donetsk, na Ucrânia. Esta será a segunda Copa do Mundo dele representando o Brasil.

Independentemente do trabalho de cada um, Machado não faz distinção dos filhos. A menina que Fernando carregava, Maria Gabrielli, 22, também está fazendo sucesso como atriz, apresentando-se em Malhação. A mãe faz questão de elogiá-los e mencionar como os três estão bem hoje. Promessa que fez lá no passado, quando trabalhava na casa da tia: "nenhum dos meus filhos vai passar por isso". E cumpriu.

Dos trabalhos domésticos, hoje só os de casa. "Sou uma eterna dona de casa, não abandonei minha profissão, tenho meus netos comigo. Quando os filhos chegam, querem a comida da mamãe", brinca. Dona Ane veio para Londrina em 2012, onde Thaís já vivia e Fernandinho tem uma casa - na Gleba Palhano (zona Sul), exatamente na rua de cima do apartamento da mãe. "Agora ele comprou um apartamento novo para mim aqui no bairro, eu vou morar lá quando chegar de viagem, por enquanto estão mexendo nele e não me deixam ver. Ele e minha nora têm dessas coisas", ri.

Hoje dona Ane gosta de acordar tarde, brincar com os netos, estar com a filha e ter a sua rotina. Vai ao Pilates, faz fisioterapia para cuidar de uma fibromialgia que desenvolveu e trata a labirintite. Fora isso, diverte-se, viaja, namora. "Não tenho do que reclamar, hoje eu não trabalho, não durmo com goteira na minha cabeça, tenho uma secretária, tudo isso com a ajuda dele (Fernandinho). As viagens... Eu não paro, ele pergunta se eu não canso", brinca.

Não cansa. Com o coração apaixonado, viaja com frequência para o Rio onde vive o namorado. Já esteve em várias partes do mundo, mas não pretende sair de Londrina. "Tenho muitos amigos aqui, as pessoas me tratam bem, independentemente de ser mãe do Fernando ou não. Londrina é o lugar que eu gosto, que encontrei a minha paz", afirma. Sair da cidade agora só para abençoar o filho. Que a bênção seja poderosa e faça a alegria de várias donas Anes pelo País. E que a taça da Copa do Mundo 2018 seja como a personagem desta história, antes de tudo, brasileira.

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