Paris- Rosane Mazzer nasceu em Londrina e foi criada por uma família de origem italiana. Logo cedo, aos 17 anos, resolveu sair de casa para estudar em São Paulo, na faculdade de Propaganda e Marketing. Essa primeira saída talvez tenha sido a única que chegou a chocar a família porque, daí em diante, Rosane iria ganhar o mundo e nunca mais, pelo menos até os dias de hoje, iria voltar para sua cidade natal. Da capital paulista vieram mais oportunidades e hoje ela vive e faz sucesso em Paris com seu bar-restaurante Favela Chic, que agora começa a se estender para Londres onde ela acaba de abrir uma filial do Favela , um feito que para quem vive fora pode ser considerado uma grande conquista.
Rosane, como muitos brasileiros, foi acometida por motivos que levam muita gente a sair de seu país. Primeiro, uma história de amor e, segundo, o que aconteceu com muitos jovens de sua geração. ''Na verdade, eu tive uma história de amor com um estrangeiro, mas tinha vontade de morar fora e quando cheguei aqui descobri que fazia parte de um milhão de brasileiros classe média que saíram do Brasil, que tinham o desencanto da minha geração.
Naquela época, eu tinha 23 anos, havia a esperança de que as coisas fossem mudar radicalmente. Naquele momento o sentimento que tive foi: tudo bem, vai levar mais 30 anos para as pessoas começarem a entender onde estamos, onde vamos? A ter consciência da cidadania e poder mudar alguma coisa. Então eu vim numa história de amor. Acho que o amor é que dá coragem para as pessoas tomarem as decisões, mas depois eu entendi que tinha um motivo maior.
O amor durou o tempo necessário para trazer Rosane para a França. ''Durou 1 ano e quando acabou eu segui minha vida. Não queria fechar uma porta em cima de uma tristeza muito grande. Quando tenho uma dificuldade maior sempre acho que vão se abrir outras portas''. Rosane partiu em busca de seu passaporte na Itália, e lá mergulhou em várias histórias de seu passado e descobriu coisas incríveis sobre a família e a imigração.
Com o documento conseguiu permanecer na Europa sem problemas de visto. Desse jeito tocou sua vida e continuou fazendo amigos e desenvolvendo sua teia de conhecimentos. Como sempre foi muito independente e contra algumas imposições da sociedade se virou sozinha. ''Sou contra o casamento. Não acredito em casamento com papel passado. Ou eu casava ou teria que me virar sozinha''. Nessa linha de pensamento e no movimento de ir e voltar ao Brasil, acabou aprendendo alguns idiomas essenciais, fez muitos bicos e chegou a trabalhar na Euro Disney. Uma experiência que iria lhe dar mais pique ainda para tratar com o público. ''Toda a experiência é incrivelmente útil, mesmo que na hora você não entenda. Eu procurei morar fora porque eu tinha a necessidade de amadurecer de um jeito esperto, com uma visão mais ampla do mundo''. Na Euro Disney trabalhava com todos os padrões americanos, fantasiada de aeromoça. Foi aí que desenvolveu o que chama de ''uma alergia monstruosa aos Estados Unidos. A sua prepotência com relação ao mundo é insuportável''.
Dessa fase, Rosane chegou ao ponto-chave. ''Pensei em montar uma coisa com identidade brasileira. E o Favela foi consequência de umas festas que eu já fazia aqui''. Rosane sempre curtiu a noite e conseguiu, no bairrro onde morava, um lugar para abrir um boteco. Tudo sem dinheiro e sem pedir ajuda financeira para ninguém. ''Eu aluguei um boteco completamente quebrado. Ele ficou um mês sem nome. Foi um milagre. Eu não tinha noção do que poderia fazer e daí eu fui fazendo acordos com as pessoas. Abri completamente no negativo''. E o que pegou primeiro? ''Estar no lugar certo, com as pessoas certas, na hora certa, num lugar bacana, com música boa''. Desse jeito, meio improvisado, nasceu o Favela Chic. O nome obviamente veio da mistura de elementos que Rosane foi colocando no lugar para torná-lo mais agradável.
Seis meses depois o Favela era um sucesso. Vivia cheio e já não cabia mais gente. Foi então que Rosane e sua comunidade (ela foi agregando pessoas legais a sua equipe que hoje chama de comunidade) se mudaram.
Exemplos do que o Favela Chic representa hoje para a cultura brasileira e o que ela faz pelo Brasil aqui fora? Foi no Favela que o cantor e compositor Seu Jorge iniciou sua carreira. Isso em 1999. Sobre essa passagem ela conta: ''Ele veio sozinho. Foi a gente que produziu ele''.
O estouro de moda que as sandálias Havaianas passam aqui fora tem dedo de Rosane. Foi ela quem incentivou um amigo a importar o produto que hoje virou cult por aqui. ''A gente se associa. O lançamento da marca foi feito no Favela. Eu sou fã de Havaianas tem bastante tempo. Trazia de presente para os amigos e um dia encontrei um cara que estava querendo representá-las aqui, ele me perguntou no subsolo do Favela o que eu achava e eu disse: cara, se joga''. Hoje a comunidade do Favela tem sete sócios. ''Eu não sou uma empresária que quer montar impérios. Me interessa montar projetos''. Com essa mentalidade, Rosane conseguiu desenvolver um outro sentido ao espírito de comunidade.
Essas pessoas que Rosane fala somam 35. E entre eles aparece mais uma londrinense: Daniele Cardoso Mazzer. ''Ela é minha prima e vive ha dez anos na Europa. Agora ela foi para Londres cuidar do Favela e destravou que nem missionária. Fez todas as conexões. Um trabalho imenso''.
Rosane viveu durante dez anos com Jerome, com quem trabalha no Favela. Agora, mesmo se separando, ela tem um bom balanço da história dos dois: ''Eu não casei. Encontrei o Jerome, a gente se apaixonou. Tivemos gêmeos. Construímos muita coisa juntos''.
Projetos? ''Tenho muita vontade de colocar um pé no Brasil, de montar algo auto-suficiente, entre a Bahia e o Ceará''.
E sobre Londrina, qual o efeito da cidade natal em sua vida? ''É uma fonte de energia, mas num outro sentido. Uma cidade que tinha um movimento cultural que abriu meus olhos. E ter crescido lá, com toda a liberdade de uma cidade pequena, foi muito bom. Acho que o momento que vivi foi perfeito''.

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