Uma história de amor aos livros
PUBLICAÇÃO
sábado, 25 de abril de 2009
Bia Moraes<br> Colunista da Folha 
Algumas pessoas são o exemplo vivo de que regras existem para ser quebradas. Áureo Gomes Monteiro Júnior é um desses casos em que o improvável acontece - e dá certo. Em um mundo cada vez mais pautado por paradigmas, ele conduziu a vida seguindo o próprio coração.
Áureo já largou emprego bem remunerado, em empresa sólida, para se lançar na aventura de empreeendedor. Em vez de se espelhar nos inúmeros exemplos de sucesso empresarial, apostou em seu talento autodidata. É um intelectual, edita livros, mas não tem diploma de curso superior. Vive intensamente e com paixão - porém, o mesmo coração que lhe diz os rumos é um órgão fisiologicamente fraco, necessitando cuidado constante.
Fundador e diretor-geral da Editora Aymará, Áureo pode dizer que sua vida se entrelaça desde sempre com os livros. O painel decorado com imensas fotos em seu escritório entrega: além da Aymará e da biblioteca pessoal, a esposa e uma sobrinha ocupam seu coração. Que também convive com um marcapasso e duas próteses.
''Pretendemos, sim, ter filhos'', responde prontamente ao ser questionado sobre o futuro da família. Áureo lembra que o casamento com Analize Nicolini, em 2006, foi um dos momentos inesquecíveis da vida. Hoje, ela é consultora de marketing da Aymará. Sobre a biblioteca... ''Já estamos preparando nova mudança'', diz, explicando que o espaço destinado aos livros na residência do casal está ficando pequeno - pela terceira vez, aliás.
Além de quase quatro mil livros, a casa também tem um desfibrilador - aparelho de primeiros socorros essencial para cardiopatas, condição de saúde com a qual o empresário convive desde 1996, quando teve uma infecção no coração. Ele fala sobre o assunto para deixar claro que não limita a vida, nem os sonhos, pela doença. Pelo contrário. ''Meu lema é olhar para a frente e construir algo. Mais do que ter atitude positiva, o negócio é ter atitude propositiva''.
Aos 32 anos, Áureo nem de longe se deixa abater. Dirige uma empresa nova, e muito bem-sucedida, que não para de crescer e apresentar bons resultados. Desde o início, há quatro anos, a Aymará tem o objetivo de gerir empreendimentos educacionais de maneira inovadora. Formada por uma equipe de colaboradores escolhidos a dedo, todos experientes na área editorial e no setor educacional, a editora tem sede em Curitiba e unidades em Salvador, Brasília, Porto Alegre, São Carlos e Santo André.
Os valores da empresa são os mesmos que Áureo aplica na própria vida. ''Todos são instigados a realizar seus sonhos'', observa. O foco é humanista, voltado para o desenvolvimento do indivíduo, com respeito à diversidade e valorização da relação entre ensino e aprendizagem. A sede da empresa parece um daqueles escritórios que se vê em fotos, mas que não parece ser de verdade - moderna, colorida, respirando criatividade e interação. Ali, diz Áureo, se investe em projetos que promovem a construção do conhecimento e da cidadania, na formação da solidariedade. Orgulhoso, ele comenta que ainda neste ano editará títulos de conhecidos autores paranaenses.
O jovem empreendedor tem o mesmo olhar apaixonado do menino que devorou todos os livros da biblioteca da escola pública onde estudava, em Presidente Prudente, no interior de São Paulo. Quando cursava a sétima série, ganhou uma bicicleta. Era um sonho concretizado e também sinal da carreira futura, pois a almejada bicicleta era o prêmio do concurso de redação entre alunos da cidade.
O rapaz do interior teve seu primeiro emprego aos 14 anos, como balconista de uma loja de autopeças. Lembra que tinha talento para vendas. ''Pensando bem, continuo sendo vendedor. Só que hoje vendo sonhos - e vender ideias é mais difícil do que vender produtos'', observa.
O primeiro vestibular foi para Mecatrônica. Depois, mudou para Geografia. Sem nunca, porém, deixar de lado a paixão pelos livros e letras. ''Costumo ler uns dez livros ao mesmo tempo'', comenta. Em casa, o rapaz sempre teve apoio dos pais - então, na hora de dar o passo mais sério em busca da carreira, não teve faculdade que o segurasse. Veio para Curitiba morar com parentes, em busca de futuro melhor, e acabou se tornando funcionário de uma grande empresa no segmento educacional, depois do emprego inicial em indústria de brinquedos pedagógicos.
Dali, Áureo não parou mais, desenvolvendo e implantando projetos educacionais, até sentir que havia chegado a hora de concretizar o sonho maior: abrir uma editora. Por conta do trabalho na empresa, conhecia as carências e demandas de professores em todo o Brasil. Percebeu o nicho a ser explorado - a falta de integração das tecnologias e a ausência de identidade dos projetos públicos educacionais.
Sobre não ter concluído curso superior, o empresário simplifica. ''Reconheci em mim desde cedo a capacidade de aprender por conta própria. Há os que precisam da educação formal e os que necessitam de mais liberdade. Estou na segunda turma'', esclarece, revelando que o princípio da diversidade é respeitar as características de cada pessoa, sem impor padrões.
''Outro dia acordei e me dei conta: puxa, sou um editor! Um cara que sempre amou livros, hoje os edita'', diz o rapaz que ama também tocar piano e viajar pelo mundo. São os sonhos se realizando.


