Uma estranha no ninho
PUBLICAÇÃO
sábado, 14 de maio de 2005
André Bernardo<br> TV Press 
A pele alva e os traços suaves, clássicos, tornam Simone Spoladore a candidata ideal para heroínas à moda antiga. No cinema, a atriz cumpriu sua sina em filmes como Lavoura Arcaica e Desmundo. Na tevê, viveu tipos de época em Os Maias, como a cortesã portuguesa Maria Monforte, e Esperança, como a camponesa italiana Caterina. Em América, ela tem a chance de interpretar, pela primeira vez na tevê, uma personagem moderna e contemporânea: a advogada Heloísa. No início, tinha a sensação de que toda palavra que dizia soava falsa. Era como se estivesse interpretando mais do que deveria. Para mim, um tipo atual é tão difícil quanto um de época. Talvez até mais..., tenta explicar.
Na trama de Glória Perez, Simone dá vida à advogada que abandona a carreira no Brasil para acompanhar o marido Neto, interpretado por Rodrigo Faro, aos Estados Unidos. A adaptação, porém, não é das mais fáceis. O sonho da Heloísa é conciliar a vida amorosa, profissional e familiar. Infelizmente, ela não consegue e isso resulta numa crise conjugal, lamenta.
Simone, hoje com 26 anos, viveu situação parecida aos 18, quando deixou a casa dos pais em Curitiba e passou a morar em São Paulo e, posteriormente, no Rio. As pessoas na minha terra são mais reservadas. No Rio, são todos falantes e expansivos. Isso mostra o quanto somos diferentes, apesar de vivermos no mesmo país, arrisca.
A tímida Simone demorou a se enturmar. Sou capaz de entrar muda e sair calada de um jantar. Em festas, então, é um terror, jura. O acanhamento porém, não atrapalhou a carreira. Ela já ganhou o Prêmio BR de Cinema Brasileiro de 2002 por Lavoura Arcaica e foi eleita melhor atriz pela Associação Paulista de Críticos de Arte, em 2004, por Desmundo. Mesmo assim, admite, está mais solta. Tanto que, outro dia, não se acanhou quando um rapaz brincou com ela em plena Cinelândia, no Centro do Rio: Ué, Heloísa, você não devia estar em Miami? O que está fazendo aqui?. Nunca fiz um trabalho tão popular quanto América. Vou ter de me acostumar a esse tipo de abordagem, acredita, sorridente.
Quando se mudou para São Paulo e, mais tarde, para o Rio, ela também sentiu um forte choque sócio-cultural. Não sei se a minha experiência foi tão traumática quanto a da Heloísa. Afinal, eu estava realizando um sonho, que era o de vir para o Rio. Ser atriz no Brasil e, principalmente, sobreviver dessa profissão é muito difícil. Já a Heloísa, não. Ela apenas abriu mão do próprio sonho para acompanhar o marido. Mesmo assim, ajudou muito. Sempre ajuda. Na época, foi difícil para caramba. Eu me sentia muito sozinha, sem amigos, nem perspectivas. E, além disso, era muito menina. Só tinha 18 anos... Eu me sentia insegura, tímida, retraída... Mas feliz também. Caso contrário, fica parecendo que era um sofrimento só, não é?.
A atriz, que na novela larga tudo para acompanhar o marido, garante que jamais faria isso. O trabalho para mim é imprescindível. Quando estou mal, por exemplo, o trabalho sempre me ajuda muito. Se estou atravessando uma crise violenta, mas estou trabalhando, isso me garante uma sustentação muito grande. Por isso mesmo, não poderia largar meu trabalho por ninguém. Nem a pessoa agüentaria que eu fizesse isso por ela. No final das contas, fica pesado tanto para você quanto para a outra pessoa.
Primeiro trabalho contemporâneo na tevê, a personagem Heloísa exigiu muito de Simone, porque, às vezes, a gente tem uma visão meio estereotipada de certas profissões. Quando pensava em advogada, logo me vinha à cabeça a imagem de uma profissional séria, compenetrada... Foi bom para desmitificar a imagem que eu fazia dos advogados. Essa aparente naturalidade dos personagens atuais não é fácil de ser obtida. Para mim, pelo menos. Fazer um personagem contemporâneo é tão difícil quanto um de época. Talvez até mais...
Para Simone, fazer novela das oito, na Globo, no início parece que vai mudar alguma coisa, mas, depois, não muda nada. No caso dela, o que mudou mesmo é que conseguiu se firmar no Rio. Se não estivesse trabalhando, teria de voltar para Curitiba. Afinal, meus pais não têm condições de me sustentar aqui no Rio de Janeiro. Isso mudou. E para melhor. O que muda também, segundo ela, é o assédio do público. O universo da Glória é muito popular. Diria até que nunca fiz um trabalho tão popular quanto este.
Ao falar sobre assédio, a atriz reconhece que os dois primeiros anos que passou no Rio foram os mais difíceis. No início, eu era realmente muito tímida e, a certa altura, até eu mesma fiquei preocupada com a minha timidez. Às vezes, ia a certos lugares e simplesmente não falava nada. Era uma sensação horrível. Felizmente, as coisas comigo aconteceram devagarinho... Não houve uma explosão. Hoje, já posso me dar ao luxo de conversar com as pessoas. Sinto-me mais solta. Essa transformação está sendo fundamental para mim.
Mas o que realmente a afligiu no Rio não foi o assédio do público ou uma eventual perda de privacidade. O que a angustiava mesmo era estar longe da família. Sentia muita falta de meus pais e de minhas irmãs. Na época, não percebia tanto, mas hoje noto o quanto Curitiba é uma cidade pequena se comparada ao Rio de Janeiro. O ritmo da cidade e dos cariocas é diferente. Eu estranhei muito. Com o passar do tempo, as coisas começaram a se ajeitar. Já estou gostando de morar no Rio, de dirigir na cidade, de curtir a noite carioca, essas coisas. Finalmente, estou levando uma vida normal.
Filha de bancários, Simone Spoladore nunca pensou em seguir a profissão da família. Desde criança, mostrou inclinação para a dança. Não por acaso, fez balé dos 6 aos 14 anos. Só parou quando resolveu enveredar pelo teatro. A estréia nos palcos aconteceu aos 16 anos, quando atuou no espetáculo Meno Male, de Juca de Oliveira. Decidi aprender a interpretar para ajudar minha expressão como bailarina. Mas acabou acontecendo o contrário: a dança me ajudou a interpretar, analisa.
Muito antes de despontar em Esperança, Simone já tinha sido sondada para outras novelas da Globo, como Terra Nostra, do próprio Benedito, e Andando nas Nuvens, de Euclydes Marinho. Mas nenhuma delas entusiasmou a atriz. O bom ator está nas escolhas que faz, desconversa. Convite mesmo ela só recebeu para Coração de Estudante, de Emanuel Jacobina, mas também refutou, alegando falta de tempo. Na época, estava às voltas com o lançamento do filme Lavoura Arcaica, dirigido por Luiz Fernando a partir do livro de Raduan Nassar. Se eu fosse um rosto conhecido do público, a personagem poderia perder o impacto. Por isso, preferi deixar a tevê para depois, justifica.
Por trás do criterioso processo de seleção de Simone estava o diretor e ex-namorado Luiz Fernando Carvalho. Foi ele que a levou para a tevê depois de conferir sua performance no filme. A estréia na tevê aconteceu em Os Maias, de Maria Adelaide Amaral. Estreei na tevê como protagonista, fiz uma personagem do Eça e fui substituída pela Marília Pêra. O que mais poderia querer?, brinca a atriz.
Mas tanto Os Maias quanto Esperança não fizeram o sucesso esperado, e ela até acha que foi bom. Se a audiência fosse muito grande, talvez eu tivesse perdido a noção de realidade. No fundo, acho que perdi mesmo. Se tivesse feito sucesso, então, talvez fosse ainda pior. Diria que foi no tamanho certo para eu ficar madura. No começo, televisão assusta muito. As pessoas passam a esperar de você uma coisa que você não é. Elas querem que você seja perfeito o tempo todo. E, convenhamos, não é assim que funciona...
Mas a tal noção da realidade ela começou a perder mesmo ao ficar ficar longe dos pais. Isso me fez perder um pouco a referência. Houve um momento, após Esperança, que fiquei muito mal. A primeira coisa que fiz foi voltar para Curitiba e passar uns meses lá. Foi a melhor coisa que poderia ter feito. Em Curitiba, lembrei-me de como eu era antes de vir para o Rio. Da menina que gostava de estudar teatro, tomar café, fazer aulas de dança... É como se tivesse reencontrado comigo mesma...
Ainda este ano, Simone volta às telas com Vestido de Noiva. O filme foi dirigido pelo primogênito do dramaturgo, Joffre Rodrigues, a quem Nelson confiara, décadas atrás, a responsabilidade de dirigir uma versão cinematográfica da peça que revolucionou o moderno teatro brasileiro. No clássico de Nelson Rodrigues, Simone interpreta a protagonista Alaíde, moça recém-casada que é atropelada e submetida a uma operação de emergência. A ação se passa, simultaneamente, em três planos de consciência: realidade, memória e alucinação. Fazer uma personagem do Nelson era um sonho antigo. Quando me chamaram, nem acreditei. Foi um presentão!, derrama-se.


