Curitiba - Ela se compara ao coelho que está sempre atrasado, elétrico personagem do clássico ‘‘Alice no País das Maravilhas’’, de Lewis Carroll. E não por acaso. Radicada em Curitiba, a londrinense Vera Grace Paranaguá Cunha tem pressa de viver. Raramente perde um compromisso. Mas desde que decidiu assumir a própria carreira, tudo na sua vida tem acontecido muito rápido e ela não deixa nunca de correr atrás dos seus sonhos, quase todos – ao menos os profissionais – realizados.
  Vera passou no primeiro concurso que prestou para procuradora do Estado, em Curitiba, depois de estudar num regime auto-imposto de 12 horas diárias. Atualmente é presidente da Associação dos Procuradores do Estado do Paraná. Nascida na quarta geração de uma família de médicos, ela surpreendeu a todos quando decidiu cursar direito. Para ela, foi uma opção mais racional do que a primeira que pensou em cursar: arquitetura. ‘‘Eu sempre fui uma pessoa muito concreta e, de repente, me vi numa área abstrata. Ao contrário do que eu pensava foi fantástico’’, conta.
  Enquanto cursava a faculdade, na Universidade Estadual de Londrina, ela se casou com o juiz Ruy Cunha Sobrinho. Com a união do casal, o direito ganhou outra dimensão na vida de Vera. ‘‘Até então, a referência que eu tinha em casa era a medicina, meu pai sempre gostou de conversar sobre o trabalho dele’’, lembra. Filha do médico e ex-prefeito de Londrina Dalton Paranaguá, ela chegou a interromper os estudos para cuidar dos dois filhos. Mas por pouco tempo. ‘‘Eu apostava na independência da minha profissão. Sempre soube que seria responsável pela minha auto-existência’’, diz.
  Tanto que, quando o marido foi transferido para Jaguapitã, ela continuou em Londrina para terminar a faculdade. Enquanto os filhos, o advogado Guillhermo e o engenheiro agrônomo Diego, eram pequenos, ela se dedicou à família. Quando o casal e as crianças mudaram-se para a Capital, depois de um curto período em Cascavel, ela decidiu estudar para ser procuradora do Estado, um concurso que muitos advogados prestam por anos antes de ser aprovados. ‘‘Eu não me via só como mulher de juiz e mãe. Queria algo mais’’, salienta. A princípio, ela até pensou em assessorar o marido, mas ele a encorajou a trilhar o próprio caminho profissional.
  Foi assim que, durante nove meses, ela se impôs um regime militar. Não atendia nem mesmo telefone. E ainda prometeu aos filhos que, se fosse aprovada, daria o primeiro salário a eles, desde que a deixassem estudar. Ela passou no primeiro concurso que prestou, mas não deu o salário aos meninos. ‘‘Foi a minha única promessa não cumprida. Achei que eles eram muito novos’’, brinca. Na procuradoria, começou a se envolver com a vida institucional e percebeu que existia muita carência no trabalho. Novamente foi à luta, e agora está entre as poucas mulheres que assumiram a presidência da Associação dos Procuradores do Estado na história da instituição.
  A decisão de se candidatar foi concomitante à indignação da procuradora com a realidade das condições trabalhistas. ‘‘Nós somos os advogados dos três poderes, mesmo assim não temos o poder de mudar essas condições’’, lamenta, complementando que existe uma crise de identidade quando se fala dos procuradores do Estado. Engajamentos à parte, Vera diz que não se esquece dos ensinamentos do pai. Em muitas ocasiões, Dalton Paranaguá dizia: ‘‘As coisas que se resolvem politicamente se conversam dentro de uma situação política’’. E dentro desse espírito ela assumiu, há pouco mais de um ano, a Associação dos Procuradores do Estado. Outra coisa que meu pai costumava dizer era: ‘‘Quem quer faz, quem não quer manda’’, brinca.
  Entre todos os compromissos profissionais, ela encontra tempo para dedicar-se à família e a um passatempo que está tomando uma dimensão cada vez maior em sua vida: o paisagismo. Há oito anos, quando o marido herdou uma fazenda no Norte do Estado, ela começou a se preocupar com a jardinagem da área. Passou a questionar porque algumas plantas vingavam no local e outras não. Como não encontrava ninguém que tivesse as respostas, começou a ler sobre o assunto e agora cuida pessoalmente do jardim da popriedade. Lá, cultiva o hábito do avô agrônomo, que chamava todas as árvores e flores pelo nome científico.
  É na fazenda da família que ela costuma dedicar-se também aos cavalos, outra de suas paixões. Os animais, aliás, estão ligados a um sonho – um dos poucos – que a procuradora revela que ainda não foi realizado. ‘‘Quero que venham os meus netos para eu poder ensiná-los a andar a cavalo’’, confessa, antes de citar uma frase atribuída ao Padre Cícero e que ela utiliza para responder se existe alguma coisa que ela ainda não realizou: ‘‘Queiras o que está próximo e serás onipresente’’.

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