Uma aventura na África
PUBLICAÇÃO
sábado, 31 de maio de 2008
Katia Michelle<br>Equipe da Folha 
Curitiba - Pergunte a uma criança o que ela quer ser quando crescer. Você poderá ouvir as mais criativas respostas, de super-herói a astronauta, mas algumas crianças, mesmo sem influência da família, já dão uma prévia da carreira que vão seguir. Foi o caso da curitibana Mariana Paula Souza. Aos cinco anos, eu já estava decidida: queria ser arquiteta, conta a jovem profissional. Aos 28 anos, ela está vivendo experiências que poucas na sua idade já viveram. Depois de assinar três projetos em Angola, ela acaba de ser convidada para assumir mais um desafio: vai projetar uma cidade universitária naquele país.
E não é uma região qualquer. Localizada na costa ocidental da África, Angola tenta se reconstruir após um período de quase três décadas de guerra civil. Os efeitos foram devastadores para a população. Mariana esteve lá, no mês passado, e conferiu uma realidade que ela desconhecia. A população sofreu muito com a guerra. O resultado é que tudo lá é muito pobre e as diferenças sociais são gritantes, conta. Durante a semana que passou na região, ela viu ruas e cidades em péssimo estado de conservação e sentiu na pele as diferenças sociais em alguns locais que freqüentou, como os restaurantes, que têm áreas separadas de acordo com o poder aquisitivo da clientela.
Nada disso assustou Mariana. Eu estou muito feliz por estar fazendo parte da reconstrução daquele país. Isso sempre foi meu ideal, conta. Na época em que era estudante, ela já havia tentado um intercâmbio para arquitetos no Golfo, mas como ainda não era formada, a parceria não aconteceu. Mariana concluiu o curso de arquitetura em 2002, mas a sua experiência profissional começou bem antes. Ela foi aprovada, por exemplo, em um estágio na Prefeitura de Curitiba, reservado para quem tem um bom desempenho acadêmico.
Antes de seguir carreira própria, Mariana também fez estágios com arquitetos renomados, como Manoel Coelho e Iara Mendes. Também durante o curso começou a fazer alguns projetos para amigos e, logo que se formou, já tinha uma boa carteira de clientes à espera do seu diploma. Paralelo ao desenvolvimento de projetos, no entanto, logo que se formou, seguiu para França e fez alguns cursos no Museu do Louvre, em Paris. Na volta, assinou o projeto de um sobrado para o namorado, com quem se casaria mais tarde e com quem tem uma filha, de apenas cinco meses.
A relação com Angola surgiu por acaso, quando um cliente pediu um projeto de um sobrado na cidade de Catoco, há dois anos. O projeto rendeu o convite para que Mariana projetasse dois prédios: um residencial para estudantes e um multifuncional. Os prédios que reúnem várias funções, aliás, são uma tendência na arquitetura moderna, revela. Os projetos prediais já foram concluídos e faltam apenas algumas questões burocráticas para que as contruções comecem. A previsão de conclusão das obras é de um ano.
Até lá, Mariana estará com um outro projeto para África pronto. Dessa vez, um pouco mais complexo. Ela foi convidada a fazer um projeto de uma cidade universitária em uma área de 25 mil metros quadrados, nas proximidades de Luanda, capital de Angola. Antes da guerra, a região era considerada um centro agropecuário, conta. Raízes e características que serão resgatadas durante o projeto.
Mariana terá o prazo de um ano para desenvolver a proposta que, assim como as outras que assinou para aquele país, será financiada pela iniciativa privada. Até lá, deve voltar à África algumas vezes. É uma experiência que está sendo muito válida. Uma oportunidade única, considera a jovem arquiteta. Mas concomitante aos projetos, ela também desenvolve ações por aqui. Se prepara, por exemplo, para a sua quarta participação na Casa Cor Paraná, que começa na segunda quinzena de junho. Este ano, ela assina o ambiente Leaving da Casa da Praia, mas em outras edições já assinou espaços como Galeria de Arte e dois ambientes comerciais.
Reformas de espaços e casas residênciais em Curitiba também estão lotando a agenda da arquiteta, uma característica que ilustra a mudança de perfil do consumidor brasileiro. As pessoas perderam o medo do arquiteto e já sentem necessidade de chamar o profissional quando vão fazer alguma reforma, mesmo que seja pequena, observa. Uma realidade que não deixa espaços para arrependimentos sobre a escolha profissional que ela fez ainda menina. Decisão de gente grande.


