Um quarto escuro na memória
PUBLICAÇÃO
sábado, 22 de maio de 2010
Angela Raizer Barbosa<br> Reportagem Local 
Rua São Jerônimo, número 81, final da década de 70. Lá dentro, no primeiro andar da casa, um quarto escuro iluminado por uma tênue luz vermelha aguçava a curiosidade do pequeno Saulo, então com seis anos de idade. Proibido pelo avô de ultrapassar o limiar da porta, ele só via o que era feito naquela penumbra, quando encontrava a banheira cheia de fotos, flutuando na água (parte do antigo processo de revelação).
Porém, essa curiosidade infantil não passou despercebida ao olhos sempre atentos do avô: aos nove anos de idade, o garoto ganhou dele uma máquina fotográfica - foi o único entre mais de 20 netos a receber esse tipo de presente, sinalizando assim um caminho que menino iria seguir 30 anos depois. Com a máquina nas mãos, Saulo se jogou na aventura de sair fotografando tudo o que encontrava pela frente, incentivado pelo avô, que logo foi seduzido por um desses flagrantes. ''Era uma paisagem, no Salto Apucaraninha: a água caindo ao fundo formava uma névoa e, em primeiro plano, havia uma flor. O vovô gostou tanto que mandou ampliar, me fez assinar e emoldurou'', lembra Saulo, hoje com 38 anos, que esteve em Londrina no mês passado para a abertura de sua exposição ''Tréfonds'', na Casa de Cultura (já encerrada).
Quanto ao avô, foi somente no início deste século que os paranaenses descobriram o belíssimo trabalho do agricultor Haruo Ohara, que, de 1938 a 1970, fez da fotografia um hobby, paralelamente ao seu trabalho na lavoura. Silenciosamente, quase secretamente, ele produziu milhares de fotos do nascimento da Londrina urbana e rural, somando mais de 10 mil negativos, que em 2000 passaram pelas mãos de Saulo e do fotógrafo Orlando Azevedo. Na ocasião, eles selecionaram 1.000 negativos para a 3 Bienal Internacional de Fotografia, realizada em Curitiba, evento que catapultou o acervo de Haruo, doado pela família ao Instituto Moreira Salles em janeiro de 2008. A nova geração de londrinenses teve o primeiro contato com algumas dessas imagens em 1998, na mostra realizada pelo Festival Internacional de Londrina (Filo).
Passada a fase de descobrimento de novos ângulos, Saulo deixou a fotografia de lado para se dedicar mais aos estudos no Vicente Rijo, mas sempre observando o trabalho do avô, até sua morte, em 1999. ''Fui a última pessoa que esteve a seu lado no hospital na noite em ele que morreu'', lembra.
Hoje, a casa da Rua São Jerônimo ainda pertence à família. Saulo e os dois irmãos estão na Suíça, ele em Vevey, a cidade que ficou famosa por abrigar Charles Chaplin, o gênio do cinema, em seu autoexílio.
Saulo chegou à Suíça no rastro dos irmãos músicos, depois de concluir o colegial no Vicente Rijo, se formar em Direito pela UEL e de dois anos e meio no Japão, trabalhando como dekassegui. ''Uma temporada duríssima, de trabalho insano, mas valeu a pena. Pude juntar uma grana e ir para a Suíça realizar meu sonho e fazer um curso superior de fotografia na Escola de Artes Aplicadas. Prestes a se formar, Saulo se dedica agora exclusivamente à faculdade e às fotografias, que ele produz como se fossem telas. Na exposição realizada em Londrina, chamam a atenção os retratos de pessoas adormecidas, ou quase, flagradas em uma espécie de torpor. ''Gosto de fazer portraits, focar as pessoas meio dormindo, uma espécie de analogia entre a morte e o sono. A morte como expressão de um sono eterno e o dormir como a experiência mais próxima que se tem da morte'', define Saulo, que prefere fotografar ''o ser humano e a natureza; animais, nunca''.
Saulo revela que tem obsessão em obter o lado mais humano dos fotografados, ''captar alguma coisa além da imagem, despertando outras interpretações como se fosse uma pintura''. E sonha em viver desse trabalho. Confessa que na Suíça ''está em casa'', mas sempre com saudades dos amigos que têm aqui.
Quanto à cidade que seu avô captou com tanta sensibilidade, uma constatação: ''Londrina muda muito, sempre que chego aqui vejo que desapareceu alguma coisa e surgiu outra no lugar. Já fiquei horrorizado com a destruição da Casa dos Anões e, agora, com o novo Calçadão'', desabafa Saulo.


