Ele retrata pássaros como ninguém. Já pintou 300 gralhas em único painel, em homenagem aos 300 anos de Curitiba, nos anos 1990. Diz que o gosto pelas aves começou quando ainda criança, em Jacarezinho, e viu o pai construir um viveiro gigante nos fundos de casa. ''Eu gostava muito de ir até lá. Quando comecei a pintar, foi intuitivo. Logo os pássaros apareceram na tela''. E os pássaros pintados por Rogério Dias já voaram meio mundo. Quem os vê, logo remete ao pintor que já é curitibano de coração.
Dias saiu da pequena Jacarezinho na década de 60, e desembarcou na capital paranaense em busca de trabalho, aos vinte e poucos anos. Na cidade natal, aprendendo a observar as impressionantes pinturas da Catedral de Jacarezinho, já tinha tomado o gosto pela pintura. Porém, na época, a arte não era considerada uma profissão e, além do mais, o moço precisava sobreviver. ''E viver de arte naquele tempo era quase impossível''.
Dias foi parar na publicidade quase por acaso, depois de fazer slides para a cinema. ''Eu passava o tempo fazendo séries de slides, mas uma decisão do Jânio Quadros proibiu essa prática antes das exibições dos filmes e eu fiquei desempregado'', conta. Foi então que ele arrumou emprego na extinta e mítica agência de publicidade Prisma. Lá conheceu nomes que se transformaram em ícones da história da arte paranaense, como o fotógrafo Jesus Santoro.
Nessa época, lembra, a arte e a publicidade estavam muito ligadas. ''Certa vez estávamos com tudo pronto para gravar um comercial e o tapete não tinha chegado. Não tive dúvidas. Fui lá e pintei um tapete no chão'', lembra Dias, que trabalhou como diretor de arte, designer gráfico e até ator. Mas o tempo de convivência com outros artistas, como o poeta como Paulo Leminski e os também desenhistas Solda e Retamozzo, também traz recordações da luta contra o alcoolismo. ''Entre a firma e o bar, sobrava tempo para pintura'', conta, hoje recuperado.
Ele passou por duas internações e encampou uma verdadeira luta contra o vício. Por conta dele, desenvolveu o distúrbio bipolar, doença que trata há quatro anos e que o obriga a tomar remédios diários. Mas nada atrapalha a sua arte. Depois de passar por outras agências de Curitiba e acumular prêmios e trabalhos em destaque entre as décadas de 60 e 80, ele passou a se dedicar exclusivamente à pintura.
''Um dia fui intimado pelo Solda (um dos chargistas mais importantes do Estado). Estava na agência e ele me disse: você vai continuar vivendo desse salário de fome ou vai ter coragem de viver da sua arte? Na mesma hora, peguei minha caixinha de tinta e fui à luta''. Ele conta que passou a se dedicar quase que exclusivamente às artes plásticas, também para fugir do alcoolismo. ''Se você quer ser pintor, não pode ficar preocupado com o mercado. Porém, a realidade brasileira é outra: ou você coloca seus quadros numa galeria e espera reconhecimento ou vai dar aulas'', reclama e até brinca que hoje os artistas curitibanos estão fazendo um caminho inverso e voltando para feirinha do Largo da Ordem. ''Não deixa de ser uma maneira de mostrar o trabalho'', diz.
Aos 64 anos, prêmios e exposições acumuladas, Dias não precisa mais se apresentar. Ele é reconhecido em grande parte do mundo. Reconhecimento, no entanto, não quer dizer retorno financeiro. ''As contas vão acumulando. A crise também chega ao ateliê'', lamenta sem perder o humor. Atualmente, Dias passa o tempo pintando no charmoso ateliê anexo à sua casa, próximo ao Parque Barigui.
É lá, escutando os passarinhos do pacato bairro, que ele transforma as lembranças em arte. Os pássaros estão presentes em quase todas as telas, mas nem por isso Dias pode ser chamado de artista de um tema só. Ele também arrisca outros traços, abstratos ou literais, mas que não perdem sua característica: a de transpôr para a tela um jeito muito próprio de ver a vida.

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