Faz muito tempo que a culinária deu adeus àquela cara de 'avó querida' estilo Dona Benta. As cozinhas do mundo inteiro passaram a ser invadidas por jovens criativos e modernos. Enrique Duim Negrini, cambeense de 19 anos, é exemplo disso.
Mal colocou a mão no diploma de gastronomia e, na primeira tentativa de mostrar por que veio ao mundo, conquistou uma cobiçada vaga na equipe do fenômeno Cirque du Soleil, que começa a temporada de apresentações do espetáculo Varekai, no dia 15 próximo, passando por oito capitais brasileiras.
''A oportunidade para o Cirque du Soleil apareceu graças a minha professora de faculdade, Claudia Hintz, que me indicou e, como teste, fui trabalhar no camarote da Stock Car, na Corrida do Milhão. Até hoje não recebi o feedback dessa corrida, mas o resultado deve ter sido bom, pois estou aqui hoje. Para ser contrato fiz um teste do cardápio duas vezes, sendo um deles para a aprovação do Cirque'', disse ele para a equipe da FOLHA.
Com contrato inicial de um ano e com uma carga horário de 14 ou mais horas diárias de trabalho, Negrini vai comandar as cozinhas do Catering International, que serve a comida para os engenheiros e cargos importantes do Cirque, e o Tapis Rounge (tapete vermelho) como é chamado o camarote, que vai atender, com uma requintada culinária, de terça a quinta-feira, 500 pessoas, e de sexta a domingo, mil pessoas.
Para o cardápio do Cirque, Enrique elaborou um misto da cozinha clássica italiana e francesa, com alguns toques de ingredientes nacionais, assim como o queijo coalho, melaço de cana-de-açúcar, carpaccio de abacaxi, quiche de cabotiá com carne seca, além de brie com geleia de pimenta, endívias com manga e kani, copinho de capuccino, entre outras delícias.
''É um desafio gigante, além de ser necessário um grande conhecimento na área para ensinar os funcionários, já que em todas as capitais será contratado um contigente não-fixo, tendo poucos dias para treinar e definir equipe, comandar cerca de 15 pessoas dentro da cozinha, trabalhando com personalidades diferentes e tendo apenas 19 anos, é sem dúvida a maior responsabilidade da minha vida'', disse.
Jovem e já dono de um currículo vitorioso, para ele conquistar destaque na profissão que escolheu não foi algo que dispusesse de muitas regras. Dedicação e trabalho, segundo o chef, são as determinantes. ''E me desculpe o palavreado, mas tesão em cozinhar também. Vontade de aprender, ir além, testar, não ter medo. Para ser um chef não basta apenas ter o conhecimento, tem que cair no mundo, conhecer, não ficar sentado em uma aula, mas, sim, trabalhar na área, ter vontade de experimentar tudo, ver chances de aproveitar o sabor de algo que nunca ninguém fez. É inexplicável tudo que sinto! Quando a segunda chega e estou de folga, quero conhecer restaurantes ou, senão, cozinhar em casa. É simplesmente viciante!''.
Tendo esse momento como um divisor de águas em sua vida - e com total visão de que para desenvolver um apurado paladar não basta apenas ter teoria -, mas, fundamentalmente, cultura e vivência, assim que cumprir seu contrato com o Cirque, Enrique pretende rechear ainda mais suas habilidades em viagem para a Europa, fazendo cursos no Instituto Paul Bocuse e Le Cordon Bleu e, mais tarde, concretizar o sonho de todo chef.
''Com essa experiência e bagagem de vida pretendo abrir o meu restaurante. Vou fazer uma boa pesquisa antes, mas a ideia já está montada. Será uma gastronomia jovial, delicada, mas muito saborosa, buscando o equilíbrio entre o Oriente e Ocidente'', revelou.
A exemplo de muitos brilhantes talentos, ele também começou cedo. Desde muito pequeno, mais precisamente aos cinco anos, Negrini já dava pitaco e experimentava novos temperos no restaurante de seu pai, em Curitiba. Adorava preparar pães de queijo, repetia receitas sempre incrementando-as e dando novas formas de apresentação.
''Nessa mesma época o restaurante do meu pai fechava de sábado à noite e, então, descíamos para a praia, onde, além de curtir o mar, tinha o prazer de acordar de madrugada com meu pai para ir escolher os peixes direto com os pescadores para a compra do restaurante. O prazer em servir, de ter pessoas reunidas em volta do que você criou, de conseguir mesmo em momentos difíceis adoçar - mesmo que por instantes - a vida de alguém, é o que mais me fascina nesta profissão'', finaliza o jovem que se coloca como uma promessa no mundo da arte culinária.

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