Um olhar sobre Letícia
PUBLICAÇÃO
domingo, 13 de fevereiro de 2005
Ana Clara Garmendia<br>Equipe da Folha 
Curitiba - Letícia Sabatella é um nome forte na dramaturgia nacional. Já fez vários papéis importantes à frente de novelas globais. Vive no topo, onde todos aqueles que entram para a carreira artística almejam estar. Recentemente, encarnou mais um personagem principal ao dar vida à Maria na fase adulta da personagem da microssérie ''Hoje é Dia de Maria''. Deu um show de interpretação fazendo par romântico com, talvez o nosso maior galã, Rodrigo Santoro. É casada com o ator Ângelo Antônio com quem tem uma filha, Clara de 12 anos.
Tudo isso serve apenas como uma parcela do que Letícia é. Curitibana de criação: ''nasci em Belo Horizonte, mas vim para cá com quatro anos. A família de meu pai é de Ponta Grossa e de Curitiba. Minha avó, meu pai, minha mãe, irmã, todos moram aqui'', conta ao explicar o motivo de estar passando uns dias na cidade.
Nessa temporada por aqui ela concedeu entrevista à Folha enquanto se preparava para um sessão de fotos que faria para uma revista de uma companhia aérea nacional. De fala mansa e recebendo carinhosamente todos que se acumulavam ao seu redor (inclusive as camareiras do teatro Guaíra, onde foram feitas as fotos), Letícia surpreende pela energia que carrega consigo. É de uma beleza tão grande que, mesmo que não fosse atriz famosa, atrairia olhares onde quer que fosse. A pele branca e sem nenhuma marca de expressão, aos 33 anos, tem um motivo: ''é porque não como carne'', garante.
Como viveu em Curitiba até os 20 anos, quando entrou para a Globo, a atriz conhece o Guaíra como a palma da mão. Ali foi bailarina e iniciou os primeiros passos para a carreira de atriz. Durante muitos anos o local foi quase o ''pátio de sua casa''. ''Comecei a fazer balé aqui aos 8 anos. Convivíamos com muitas coisas: teatro, balé, orquestra, coral. Aí entrei no Coral Sinfônico do Paraná, lá pelos meus 17, 18 anos. Era amiga dos porteiros e assistia todas as peças que vinham para cá. Depois na faculdade (de teatro) a gente pedia para assistir por ser estudante. Então o Guaíra é o lugar que a gente frequentava. Minha avó mora do outro lado da rua e eu vivia por aqui.''
Depois dessa fase de balé, Letícia foi fazer faculdade de teatro na PUC-PR, onde ficou por apenas dois anos. Parou para atender ao chamado para um teste para a minissérie ''Teresa Batista'' e não saiu mais da Rede Globo e nem do Rio de Janeiro. E foi nessa época, num primeiro trabalho que fez com o diretor Luis Fernando Carvalho, que teve acesso ao material de ''Hoje é Dia de Maria''. ''Foi quando eu estava fazendo o 'Dono do Mundo' que o Luis me mostrou esse texto pela primeira vez'', conta ao tecer vários elogios ao trabalho do diretor.
Fora esse perfil extremante profissional, Letícia tem outras facetas. Uma delas é a de viajar pelo País para pesquisar coisas como a origem do teatro na cultura popular. ''Quando eu era menor tinha muita vontade de sair daqui, ir para a Europa, mas quando você começa a viajar pelo Brasil e no teatro e televisão tem oportunidade de fazer isso você vê que ele é tão vasto, tão rico que fica um pouco saciada dessa sede de ir para fora.''
Toda essa preocupação com seu enriquecimento intelectual faz parte do temperamento e postura da atriz, mas ela sabe o que quer, melhor, sempre soube. ''Tenho até medo de parecer pedante. Eu tenho noção do meu tamanho, mas eu acho que não tem outro jeito de você dar sentido para sua vida. Acho que a minha escolha pelo teatro não foi a princípio para ser famosa, para fazer novela das oito, para ter um status social e dinheiro. Pelo contrário, fui até desestimulada. Na minha família ninguém tinha escolhido isso. Eu tinha uma sede. Desde pequenininha. E apesar de todo o aparente culto à vaidade que possa vir a ter essa coisa da projeção de maquiagens, figurinos na verdade, a vaidade é o que menos importa. O ator em si, na hora que ele está atuando, ele não tem sexo, não tem posição social. Ele está a serviço.''
Essa atitude profissional de Letícia acabou por torná-la uma famosa que não é invadida pela mídia. Para ela existem tantas celebridades que não há motivo para aparecer o tempo todo. O jeito que encontra para não ser bombardeada é deixar-se ser vista quando está em algum papel que necessite aparecer e depois sumir, ir para o mato, coisa que adora. Fora isso, na vida normal é mãe, dona-de-casa, e se envolve com outros projetos como participar de debates sobre o futuro do planeta.
Recentemente ela e o marido estiveram em Porto Alegre no Fórum Mundial. Essa é uma parte forte na personalidade de Letícia. O futuro do planeta está na sua órbita mental. E ela faz disso um estilo de vida. Contribui com sua parte. Durante a entrevista, a produção lhe mostrava as roupas que iria usar para a sessão de fotos. Letícia respeitou as decisões dos produtores quanto às escolhas das roupas e sapatos, mas ao ver uns casacos de pele da grife Dolce & Gabanna, foi conferir para ver se eram de verdade. Ela não usa peles e nem jóias.
Apesar de achar um colar de ouro com diamantes ''muito bonito e delicado'', educadamente, fala que prefere não usar. A saúde dos garimpeiros está comprometida por causa da vaidade humana. E é a isso que se atém. Emprestar sua beleza e talento para fotos como as que ilustram a matéria, tudo bem, mas aliá-la a recursos que dizimam com vidas de animais e homens, nem pensar.


