Um olhar sob o véu
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 26 de setembro de 2001
Fernando Miragaya<br> TV Press 
Recentemente, Giovanna Antonelli foi pega de surpresa duas vezes. A primeira foi com o sucesso da Capitu, que ela viveu em ''Laços de Família''. A segunda foi consequência da primeira. A boa repercussão da personagem fez com que a atriz de 25 anos fosse chamada para protagonizar a muçulmana Jade em ''O Clone''. O carisma dessa bela carioca, exposto ao interpretar uma garota de programa na trama de Manoel Carlos, abriu portas para que ela ganhasse o principal papel na próxima novela das oito da Globo, que estréia dia 1º de outubro. ''Realmente não esperava ser chamada para protagonizar, assim como não imaginava que a Capitu ia fazer tanto sucesso na época de 'Laços''', reconhece a atriz.
Mas a palavra protagonista parece não provocar deslumbramento em Giovanna. Afetações de qualquer gênero, aliás, não constam no comportamento da atriz. ''Não tenho essa dimensão da protagonista na minha cabeça. Meu comprometimento é sempre o mesmo em qualquer trabalho, com qualquer personagem'', afirma. Giovanna chega a dizer que faria esta novela, independentemente do papel. ''Há grandes papéis e para mim uma novela não funciona se você não tem grandes profissionais envolvidos. Um protagonista não vive sozinho'', pondera.
Só que, graças ao fato de ser protagonista, Giovanna acabou se deslumbrando com outro aspecto ligado à trama de Glória Perez. Jade é uma jovem muçulmana determinada, que vai lutar pelo amor de Lucas, papel de Murilo Benício, apesar de as tradições a terem obrigado a se casar com Said, personagem de Dalton Vigh. Para dar início a esse triângulo, a atriz ficou um mês no Marrocos gravando as primeiras cenas de ''O Clone''. No país do Norte da África, ela ficou impressionada com a cultura e com o universo muçulmano, que define como ''mágico''. ''Cada vez que eu olhava, via uma coisa nova. É um outro mundo, uma outra vida'', espanta-se.
Antes de percorrer e gravar nas cidades marroquinas de Fes e Marraquesh, porém, Giovanna teve um curso intensivo de três meses sobre a cultura árabe. Além de escurecer os cabelos, ter diversas aulas de dança do ventre e aprender o básico do árabe, falado por dois terços da população do país, a atriz - e todo o elenco - assistiu a filmes iranianos, participou de workshops e de palestras sobre clonagem humana e sobre as tradições e o cotidiano do mundo muçulmano. Mas a teoria só serviu mesmo de base. ''Tudo que aprendi na teoria coloquei na prática no Marrocos. Foi fundamental para compor a Jade'', diz.
A experiência em terras marroquinas também serviu para desmistificar algumas idéias quanto ao mundo árabe. Giovanna percebeu que ''a sociedade ocidental tem muitas visões estereotipadas e generalizadas do mundo muçulmano''. Principalmente em relação às mulheres, já que não é todo país muçulmano onde a mulher tem de andar pelas ruas cobertas dos pés à cabeça. A atriz garante que viu mulheres com e sem tibalas, usando ou não véus e até meninas de calça jeans. ''É cultural de região para região. No deserto, as mulheres andavam de mantos pretos, mas descobrimos que era para manter a temperatura do corpo'', explica.
Por essa razão, Giovanna acredita que ''O Clone'' vai ajudar a mudar a ótica que o Brasil tem do universo muçulmano, achando que árabes são sempre fundamentalistas, fanáticos ou suicidas. ''Não tem gente que até hoje acha que no Brasil só tem índio? Às vezes a gente tem uma visão errada de um lugar que não conhece'', compara. Só que a novela teve o trabalho redobrado com os recentes atentados terroristas nos Estados Unidos, associados a fundamentalistas islâmicos. Mesmo assim, Giovanna garante que não existe uma preocupação do elenco ou da equipe de ''O Clone'' em relação a isso. ''A novela só fala de coisas boas, uma história de amor muito bonita e mostra um mundo tão mágico e com tantos aspectos bons que as pessoas vão gostar'', aposta.


