Um olhar para a moda
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domingo, 21 de dezembro de 2003
Rosângela Vale<br>Reportagem Local 
As primeiras imagens de Londrina, vistas pelos que entravam no Centro de Eventos para assistir as apresentações do Estação Fashion evento que mostrou, em novembro, as coleções de verão de grifes locais eram de uma cidade diferente. Nos banners que decoravam a ante-sala dos desfiles, Lago Igapó, Zerão, Teatro Ouro Verde e Bar Valentino ganharam ângulos e cores talvez visíveis apenas para quem aprendeu a enxergar a cidade de fora. Um olhar estrangeiro sobre o que é tão familiar.
Atrás das lentes que deram esse tom fashion à Londrina estava a fotógrafa cambeense Alessandra Oliveira, 31 anos, vinda recentemente da Itália. Artista plástica por formação, ela descobriu a fotografia no segundo ano do curso da UEL e, desde então, nutre uma paixão inesgotável pelo assunto. Os primeiros trabalhos foram no palco. Ela clicou algumas peças de Mário Bortoloto e, no final da faculdade, em 1998, já tinha um ateliê em sociedade com a fotógrafa londrinense Fernanda Magalhães. ''A gente dava aulas, montava exposições e prestava assessoria'', lembra.
Os conhecimentos autodidatas sobre design gráfico teve um escritório em Cambé no início da década de 90 e trabalhou na área de criação de uma agência em Londrina deram um upgrade na sua formação profissional. Tanto que seus projetos experimentais lhe renderam duas indicações ao prêmio Funarte (em 1997 e 1998), de abrangência nacional.
Com a pós-graduação em fotografia, Alessandra iniciou a carreira acadêmica. Foi professora do curso de desenho industrial, na Unopar, e de publicidade e jornalismo, no Cesumar, além de coordenar a agência experimental do curso de publicidade e propaganda da Unipar, em Umuarama. Recém-casada, com emprego estável e casa própria, a fotógrafa deu uma reviralvota na vida ao aceitar o desafio lançado pelo marido: largar tudo e embarcar para Milão, onde ele faria uma pós-graduação e ela tentaria um emprego em alguma agência.
Antes de viajar, o casal assistiu a um episódio do Brasil Legal, apresentado por Regina Casé, sobre os brasileiros descendentes de italianos que deram certo por lá. Um dos entrevistados era o badalado designer gráfico Giovanni Bianco (sócio da italiana Suzana Cucco no conceituado Studio Cucco, especializado em moda). Alessandra lembra de uma cena específica em que ele mostrava uma sacola laranja de feira, criada para a grife Dolce & Gabbana, um dos trabalhos mais significativos dele até então. ''Meu marido falava: 'Você vai conhecer esse cara'. E eu dizia: 'Não viaja, desce das nuvens''', conta Alessandra.
Já na Itália, portfólio na mão, lá foi Alessandra bater de porta em porta. Como a resposta era sempre negativa, não teve outro jeito. ''Deixei a agência do Giovanni por último. Não acreditava que tivesse chance'', diz. Dez dias depois da entrevista, Alessandra estava entre os dez designers contratados (todos de nacionalidades diversas) do Studio Cucco.
''Desenvolvíamos todo o conceito de pesquisa para fazer as campanhas: vitrines, catálogos, castings para desfiles. Montei um estúdio dentro do escritório e fazia fotos para capas de CD, backstage, produtos. Do briefing à impressão, eu era a única que acompanhava todo o processo'', relata. Na época, o Studio atendia as contas das grifes Gil Sander, Valentino, Frette e Maska, entre outras. Numa das tardes em que o marido passou pelo local, Alessandra levou-o ao depósito: lá estavam eles diante da sacolinha laranja de feira. O sonho era real.
Com uma respeitável bagagem profissional, um filho recém-nascido e muitos planos, Alessandra voltou ao Brasil em março desse ano. Um dos projetos já foi colocado em prática: um estúdio para criação de catálogos de moda, englobando todas as etapas, do conceito da marca à edição das fotos. A idéia é oferecer às confecções regionais linguagem de moda e design gráfico compatíveis com o mercado fashion nacional. Mas os planos não param por aí. Alessandra e o marido querem organizar rodadas de negócios internacionais, viagens anuais à Itália, para alavancar as exportações das empresas locais, juntando assim a parte criativa com a comercial. O carente mercado de moda local agradece imensamente.


