Até onde seu sonho pode te levar? O do paranaense Waldemar Niclevicz o levou ao topo da montanha mais alta do mundo – o Everest - e da mais letal – o K2 -, entre outras inúmeras conquistas. Nascido em Foz do Iguaçu em 1966, Niclevicz escalou sua primeira montanha aos 16 anos, uma consequência natural da sua ligação com o meio ambiente. "Nascer em Foz me deixou desde cedo muito próximo da natureza. Isso foi fundamental para ter a vida que tenho hoje. Até os 12 anos morava em uma chácara, em contato com a terra, com animais, com árvores e rios, desde muito pequeno já pescava com meu pai. Isso é muito legal para uma criança."
Ele conta que Curitiba o apresentou às montanhas, através da Serra do Mar. E foi o Pico do Marumbi, em Morretes, no litoral paranaense, sua primeira experiência de escalada."Eu tinha 14 anos quando fui pela primeira vez para a Serra do Mar. Eu recebi um chamado da montanha, senti um impulso em chegar naqueles pontos mais altos que eu via. Mas foi só com 16 anos que eu subi pela primeira vez o Marumbi. Quando cheguei no alto tirei uma foto e tinha um mar de nuvens muito bonito embaixo. Eu escrevi na foto depois: ‘a solidão nos leva a momentos inesquecíveis’. Fui em busca desse tipo de sentimento que desde o início a montanha me proporcionou ou fazia despertar dentro de mim – a introspecção, a busca de si mesmo, os amigos - porque o companheirismo é muito forte no alpinismo e a coisa mais pessoal que seria o encontro com Deus. Sou muito religioso e desde aquela época minha comunhão com Deus é junto à natureza", diz.
Dali em diante, Niclevicz não parou de superar desafios. Sua primeira grande montanha foi o Monte Aconcágua, considerado o ponto mais alto das Américas, escalado aos 21 anos. "Para mim esse dia foi o início da minha carreira profissional. Toda a sensação que eu tive ao chegar no alto do Marumbi, foi multiplicada exponencialmente. Eu tenho uma foto minha, sozinho, chorando, a barba congelada. O tempo estava muito ruim e foi a primeira vez que eu senti uma emoção realmente espontânea, eu tentava controlar aquilo e não conseguia. Por isso decretei esse o início da minha carreira profissional. Fui em busca das montanhas, do que elas me proporcionam."
Aos 25 anos, ele foi o primeiro brasileiro a escalar o alto do Everest, a mais alta montanha do mundo, o que colocou seu nome no alpinismo mundial. "Hoje tenho uma reputação muito boa fora do Brasil como alpinista e isso me traz dois orgulhos. Um de ser alpinista e outro por ser alpinista brasileiro. Para mim isso é uma honra e uma responsabilidade muito grande."

Equilíbrio e fragilidade

Tantas escaladas trouxeram a Niclevicz inúmeras experiências pessoais e o conhecimento de diversas culturas. "O meu trabalho sempre teve um enfoque antropológico muito grande, de entender o homem e o seu meio, principalmente o homem na montanha. A natureza tem um equilíbrio muito sutil e você tem que respeitar essa fragilidade senão ela acaba desaparecendo e você não consegue sobreviver nesse lugar."
Essas e muitas outras histórias estão reunidas no livro "O Brasil no Topo do Mundo", uma autobiografia ilustrada com 1.320 fotografias, lançado na última semana em Curitiba. De todas as fotos, Niclevicz conta que apenas uma é de autoria de um amigo e todas as outras são resultado de sua paixão pela imagem. Além de todo o equipamento de escalada, ele leva também apetrechos fotográficos.
Embora não tenha feito cursos de fotografia, o alpinista conta que aprendeu muito com as discussões no Fotoclube do Paraná, em Curitiba. "Os lugares a que eu vou são muito bonitos, mas se você não tiver essa capacidade técnica e o amor pela fotografia não consegue traduzir o que está vendo. Espero o melhor momento, por isso me considero um fotógrafo", explica.
Aos 48 anos, Niclevicz não pretende parar de escalar tão cedo e tem inúmeros projetos, como escalar as 14 montanhas com mais de 8 mil metros - ele já completou sete - e completar o projeto Mundo Andino, desenvolvido na Cordilheira dos Andes. Dividindo seu tempo entre as escaladas e as palestras, que ajudam a custear seus projetos, já que está sem patrocínio, ele se prepara para algo tão grandioso quanto o Everest. Dentro de aproximadamente seis meses, Niclevicz e a esposa - Silvia Bonora Niclevicz, também alpinista – estrearão como pais. Até esta entrevista, o casal ainda não sabia o sexo do novo membro da família. "O bebê certamente vai mudar alguma coisa. Vou passar a dividir minha vida com mais uma pessoa. Vamos tentar inseri-lo na natureza e se ele se tornar um alpinista vai ser gratificante, mas isso vai ser uma escolha dele", destaca.

Serviço
O livro "O Brasil no Topo do Mundo" está à venda nas livrarias e no site www.obrasilnotopodomundo.com.br

mockup