Um novo mergulho
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sexta-feira, 25 de maio de 2018
Lais Taine<br>Reportagem Local 

Um recado pendurado na porta indicava o gesto carinhoso à esposa. Nas paredes da casa, imagens da família recém-criada. O professor chega à casa já invadida pela equipe de reportagem. Alto, quieto e com uma estranha timidez. Cumprimenta a todos, pede conselhos sobre a roupa e senta no cômodo que faz de estúdio para seus vídeos no YouTube. Uma nova linguagem a ser descoberta por Rogério Mendonça, 47, o professor Biti.
Já bem conhecido por alunos de cursinho em Londrina, o professor de literatura e história da arte criou há três meses o canal Bitinices, através do qual pretende dividir sua paixão por esses conteúdos. "Acredito na formação de pessoa, muito mais do que na formação de vestibulandos, e luto por isso. Acredito que a literatura tem esse poder de contaminar todo mundo e de fazer pessoas agirem melhor", defende. Para isso, investe em equipamentos e conta com a ajuda de um profissional que edita e da esposa Gabriella Gomes Salgado de Mendonça, que auxilia nas gravações e nas redes sociais.
A pretensão é divulgar literatura, mas sonha em tirar sua renda disso. "Claro que todo mundo pensa nisso, ninguém se joga assim se não pensar na parte prática, mas há em mim uma coisa assim: eu descobri um canal, eu descobri um meio de falar, por que não compartilhar isso? Por que não viver essa utopia tentando atingir mais pessoas?", justifica-se. O principal argumento ainda é sua paixão. "Repara, eu estou pagando para trabalhar dessa vez e estou gostando. O que é muito legal", salienta.
Ultrapassar a sala de aula, entrar em contato com ex-alunos, vestibulandos de outras regiões, pessoas que simplesmente gostam de literatura. "Eu quero criar um clube de leitores nacional e que a gente troque informações sobre as grandes obras. Eu sou apaixonado por literatura brasileira. Tenho como projeto fazer com que as pessoas não só se apaixonem por literatura, mas passem a se apaixonar pela cultura nacional, eu sou um fã da cultura brasileira. Livros como Dom Casmurro, Memórias Póstumas de Brás Cubas, Grande Sertão: Veredas só não estão no patamar das grandes obras universais para o mundo por causa do limite da língua portuguesa", justifica.
Raízes
A história do professor começa por Ibitinga (interior de São Paulo), de onde vem o seu apelido e marca registrada. "Muito novinho fui morar em Ibitinga. Quando eu saí de lá para fazer faculdade em Assis, eu falava que vinha de Ibitinga, só que o ibitinguense tem um sotaque, com um T mudo e todo mundo achava legal. Aí ninguém me chamava de Rogério", conta. Para facilitar, um grupo de amigas reduziu para Biti e assim ficou.
Sem saber, a turma do curso de Ciências da Computação, o qual escolheu por afinidade com matemática e que veio a desistir por paixão à literatura, registrou o apelido que o acompanha até hoje. Foi apenas um ano para ter a coragem de se jogar no curso de Letras, pela Unesp (Universidade Estadual Paulista). "Achei que esse curso me completaria mais, mas eu falo: nem um e nem outro eu tinha vocação. Eu nunca cresci falando: eu sei exatamente o que eu quero fazer, fui me descobrindo, me adaptando e ficando feliz", afirma.
A literatura começou muito antes do curso. Apaixonado pelos romances policiais na adolescência e pela leitura infantil de Monteiro Lobato, Biti tinha nos livros o passatempo. "Eu não tinha afinidade para ler a tal da literatura mais erudita, clássica, que hoje eu trabalho. Mas gostava dessa literatura mais gostosinha", conta sem reprovação, pois acredita no processo de amadurecimento para chegar ao bom livro. Foi como chegou ao que chama de "livro da minha vida", o Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa.
Duas tatuagens não deixam mentir. No antebraço direito a representação do livro, no esquerdo, o nome da personagem e da filha: Diadorim, 2. Ela, no colo do pai, sorri quando menciona a origem do nome, recebendo um beijo na testa. A travessia, a terceira margem do rio, autoconhecimento e coragem. O professor fala como se estivesse contando a sua própria história. E estava. Define-se como "alguém que descobriu no regional que havia o universal. Alguém que descobriu que não faz diferença onde você está no mundo, as essências são sempre as mesmas, então tudo é como você mergulha naquela essência. São as lições que Guimarães Rosa ensina na literatura", enfatiza.
Mas nem sempre foi tão fácil assim. A primeira leitura foi com o incentivo de uma minissérie da Rede Globo, aos 17 anos. "Vendo aquela minissérie eu falei: que coisa é essa? Vou ter que ler esse livro", mas recorda a dificuldade: "Nossa Senhora! Falei: deixa eu voltar para a minissérie, quem dá conta disso, gente? Não entendi nada", ri. Quando foi para a faculdade, leu, releu... "Já fiz seis leituras desse livro e a cada leitura uma coisa nova. Se eu tivesse que falar minha trajetória no livro seria o descobrir que você tem que ter coragem de fazer alguns mergulhos, mesmo que você tenha a segurança das margens externas, visíveis."
Quantos mergulhos foram necessários para chegar ao estágio de agora? Menino do interior, que começou a trabalhar desde cedo, aos 13, Biti entrou para a carreira pública aos 19. Estava com a vida garantida. "Meus pais são pessoas muito humildes, eles vieram da roça, um fez até a 4ª série, outro até a 3ª, são aqueles dois que venceram. Ele conseguiu aquilo que era o sonho de todo pai mais antigo: eu não tive chance de estudar, mas eu acredito que a educação vai dar ao meu filho uma qualidade melhor de vida'", orgulha-se o segundo filho de três.
Em 1995 estava com o diploma, em 1996 começou a dar aulas por indicação de um amigo. Passou por vários colégios e cursinhos em Marília até ser convidado a vir para Londrina pelo amigo Dilson Moura, professor de história. "Eu fui pisar em Londrina e me apaixonar pela cidade e por tudo que a cidade me ofereceu." Desde então, não pensa em sair, a não ser para dar à filha novos conhecimentos, horizontes e oportunidade de se jogar.
E nessa travessia, o professor vai reconhecendo as margens, devagar, cuidadoso, mas com a coragem suficiente para mergulhar mais uma vez. "Eu brinco que eu sou um cara muito feliz, eu conto que eu vivo contando mentira pra todo mundo e alguém me paga pra fazer isso. Então é muito prazeroso", brinca.


