Um mestre em mutação
PUBLICAÇÃO
sábado, 24 de julho de 2004
Ana Clara Garmendia<br>Equipe da Folha 
Ana Clara Garmendia
Equipe da Folha
Curitiba - O professor Leopoldo Schernner completou 85 anos na última quinta-feira. Coincidentemente foi um dia após ter concedido entrevista exclusiva à Folha em sua casa, em São José dos Pinhais, município vizinho de Curitiba, onde nasceu e nem sempre viveu. Schernner é o mais respeitado mestre da língua portuguesa do Estado. Estudou no Rio de Janeiro, onde aprendeu com mestres maiores como Manuel Bandeira. A bagagem, no entanto, não o faz prepotente, ao contrário. Hoje, o homem que tem livros na grande maioria de poesias que nem ele sabe ao certo enumerar (nunca me preocupei em contá-los) , ainda tem tempo para repensar e mudar idéias passadas.
O tempo é realmente o chamado mestre. Por exemplo, quando comecei a lecionar, eu ensinava com entusiasmo algumas coisas. Depois lia outras e dizia: espera, não é assim. Tinha de me retratar porque as coisas não eram como eu imaginei, conta logo nos primeiros momentos de uma deliciosa conversa no sofá de sua sala.
Schernner não é só um professor de língua e literatura portuguesa. Vai mais além. É um homem cujos anos de magistério, mais de 50, lhe ensinaram a não ser o dono da verdade. Acho que até aqui você sabe isso e aquilo. Daqui para frente você pode alterar. É como a ciência. Ela nunca é definitiva, mas o fato de ele mudar de opinião com relação a determinados fatos, não o faz um indivíduo sem afirmações bem claras. A chamada democratização do ensino trouxe a queda dele.
Essas e muitas declarações de Schernner são verdadeiras aulas de sabedoria. Com um livro de Manuel Bandeira na mão, que casualmente ele estava dando uma espiadela, declara que começou a escrever seus próprios livros muito tarde. Era tímido. Tinha vergonha do que escrevia, mas besteira sempre escrevi, contou.
A segurança para começar a escrever veio depois de anos que lecionava. Achei que a experiência que eu já tinha podia me facultar a possibilidade de escrever. Comecei escrevendo poesia e, de um modo geral, me mantive nela.
Uma das publicações comunitárias a que Schernner se refere é o Sala 17, no qual um grupo de alunos unidos e entusiasmados pela sabedoria do professor iniciaram um projeto comunitário. Sempre gostei de incentivar meus alunos. Achei que era uma obrigação do professor fazer isso. E montamos um livro de 300 e poucas páginas, inclusive com duas edições, como um estímulo a alunos que já escreviam e eu contribuindo também.
Nesse projeto não fazia parte um dos muitos alunos célebres de Schernner: Paulo Leminski. O poeta recebeu os ensinamentos do mestre em duas ocasiões: no Colégio Estadual do Paraná e, depois, durante algum tempo, na Faculdade de Filosofia.
A análise de Schernner sobre talvez um dos maiores poetas que o Paraná já teve é bem profunda. Ele era muito fechado, retraído. Fez o colégio normalmente e depois foi para faculdade e não se adaptou. Eu não sei bem, mas ele deve ter suportado meio ano por aí e desistiu. Achou que não valia a pena. Ele tinha a linha dele e não precisava de mestres. Ele sabia estudar.
Esse fato de não precisar de mestres também é um assunto respeitado por Schernner. Ele acredita que existam aqueles que podem ser seus próprios mestres, assim como Leminski. Agora me ocorre que Leminski pode ser um caso desses. Ele lia. Tinha possibilidade de síntese. E ser autodidata é possível em todos os setores.
Schernner aprendeu na vida também que a leitura de outros autores ajuda e muito a cada um encontrar seu próprio estilo.
A vitalidade do professor, que também é um dos membros da Academia Paranaense de Letras, é impressionante. Justo ele que tantos erros viu e que tantas vezes teve que mudar suas opiniões, ainda consegue relembrar mais encantamentos do que desilusões nos anos em que trabalhou com alunos. Eu tive grande satisfação em ter alunos inteligentes que questionavam as aulas. Quando eu perguntava: entenderam? Se todos ficavam calados, eu dizia: não pode ser, digam que não entenderam!.
Esse prazer de ver suas idéias serem contestadas bate em cheio com a teoria de que quem não muda é burro (defendida por várias personalidades como, por exemplo pelo escritor norte-americano Walt Wiltman e o jornalista Paulo Francis, entre outros) ajudou a personalidade de Schernner ir se alterando. Sempre pedi para meus alunos trazerem outros artigos para lermos, debatermos, discordarmos.
Uma das grandes mudanças de opinião da vida de Schernner envolve um fato engraçado. Durante anos, ele corrigiu as provas de vestibulares da Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Paraná. Dessas leituras tirava pérolas. Escritos como casa com z e uma série de erros crassos, grotescos ou primários. Pois bem, essa exposição a qual Schernner expunha os vestibulandos lhe gerou um grande arrependimento. Eu confesso, veja bem, de ter rido, de ter achado interessante, de ter publicado erros que chamávamos de pérolas.
Schernner pensou muito tempo para chegar a conclusão de que não deveria ter cometido aqueles atos. Me arrependo mesmo. É essa coisa de voltar atrás, de ter que pedir desculpa por um erro que cometemos antes. É o seguinte: esses coitados desses alunos, que cometeram erros absurdos, primários e incríveis, a culpa não é deles, é do professor. Eles não tiveram um professor que os ensinasse.
Foram anos para o arrependimento chegar. Hoje, Schernner está aposentado, mas não longe das letras. Ele trabalha como assessor da reitoria da PUC e é o responsável pela revisão de todos os textos oficiais que saem em nome da entidade.
Com a chegada da nova idade, Schernner ainda quer continuar trabalhando. Fora as atividades na PUC, uma vez por mês ele se reúne com outros poetas para debater textos. Há 25 anos pratica essas conversas. O grupo ganhou o nome de Encontrovérsia. A turma de hoje é formada por Schernner, o psiquiatra Edival Perrini, a psicóloga Jandira Kondera Mengarelli e o advogado e jornalista Luiz Alberto Pena Kuchenbecker. Juntos eles já lançaram quatro livros e não devem parar por aí. Schernner está cheio de gás.


