Um hobby, uma nova vida
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sábado, 21 de fevereiro de 2015
Karla Matida Reportagem Local 
Cerca de 12 anos atrás, uma crise de estresse mudou a rotina do engenheiro e empresário londrinense Nilson De Mari. Nos três meses em que ficou afastado do trabalho, decidiu sair em busca de um hobby. "Tive várias ideias e uma delas foi aprender a tocar um instrumento musical", lembra.
Filho do acordeonista Juliano De Mari, a música sempre esteve presente. "Mas nunca tive a leitura ou a habilidade", conta Nilson De Mari, que escolheu o cavaquinho para dar início a uma nova fase. "Pedi uma ajuda ao meu pai e ele foi atrás de um (cavaquinho) para mim. Mas ele era perfeccionista e voltou dizendo que não tinha encontrado um bom e que eu teria que mandar fazer."
Foi quando conheceu o luthier Theodomiro Mendes de Carvalho. "Achei caro por algo que poderia nem gostar ou seguir adiante", conta. Mesmo assim fez a encomenda com uma proposta diferenciada. "Propus que ele me deixasse vê-lo fazer o cavaquinho."
A estranheza inicial do acordo acabou se transformando nos primeiros passos para uma nova e produtiva fase de De Mari. "Ele me ensinou o beabá", afirma. Outros mestres vieram, incluindo o paulista Antonio Tessarin. "Há um estigma de que os luthiers não gostam de passar seus conhecimentos para os outros, mas o Tessarin é uma pessoa desprendida. Assim como me ajudou, ajudou muitos outros."
Do francês luth (alaúde), luthier é "o profissional especializado na construção e no reparo de instrumentos de corda com caixa de ressonância". Mas para De Mari, ser luthier, mesmo depois de mais de uma década, ainda é um hobby. "E nunca vai deixar de ser", avisa. Ele justifica dizendo que como hobby, segue sem pressão e com liberdade para criar, com tempo para suas pesquisas.
Para dar forma a um novo instrumento entre violas, violões, cavaquinhos e até mesmo um bouzouki De Mari conta que leva cerca de três meses para finalizar o serviço. O tempo reduziu para um mês com a ajuda de Júlio Angelosi, "meu braço direito e meu sucessor", diz sobre o assistente a quem vem ensinando o ofício.
"A luthieria não tem fim", garante De Mari, que está sempre desenvolvendo pesquisas. "A engenharia me ajudou de uma maneira muito forte, é imprescindível você saber lidar com números", lembra o luthier, que, adulto, uniu dois universos que permearam sua infância, a música e a marcenaria. "Desde pequeno fazia brinquedos, como carrinho de rolimã", conta. Com o passar do tempo e com uma condição financeira melhor, as ferramentas também tiveram um upgrade. Para De Mari, não adianta apenas ter a capacidade, é preciso ter o equipamento para dar o acabamento.
Sem tocar os instrumentos que produz artesanalmente, o luthier buscou a parceria de músicos como Simão e André Siqueira para aumentar ainda mais a qualidade do produto final. Desde que começou, De Mari numera tudo. O último a ficar pronto foi o 172º. Com a clientela distribuída na região de Londrina, o luthier já enviou suas criações para o Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Se o site que leva seu nome ajuda muito, o boca a boca também faz a diferença entre as indicações.
Entre as marcas registradas do luthier londrinense, o traste torto é resultado de suas pesquisas e estudos para a afinação. Para os leigos, o tal detalhe pode até passar despercebido, mas para o músico, a criação de De Mari faz toda a diferença. Além de produzir novos instrumentos, ele também trabalha com restauração. "O instrumento revive", explica o luthier, que ganhou uma nova vida com o hobby. "Nunca mais tive crise de estresse."


