Curitiba - Olhar para trás e não ter arrependimentos. Fazer uma balanço da carreira e da vida pessoal e concluir que tudo foi aprendizado e realização. Poucas pessoas podem fazer essa conclusão sem titubear. Dora de Paula Soares, ou simplesmente ''Dona Dora'', como é conhecida, pode. E o faz sem receios. Aos 72 anos, proprietária de uma das escolas de dança mais conceituadas do Paraná, a Studio D, ela carrega uma história de superação e disciplina.
Nascida em Belo Horizonte (MG), ela se mudou com a família para o Rio de Janeiro aos 9 anos. Mas foi só aos 14, ainda na Cidade Maravilhosa, que começou a dançar. De lá para cá não parou mais e até hoje dá aulas de balé diariamente, na escola que fundou em Curitiba há 29 anos.
Formada em piano pelo Conservatório Brasileiro de Música, no Rio de Janeiro. ela acumula ainda as formações em balé, pelo Teatro Guaíra, e pedagogia e letras pela antiga Faculdade de Filosofia da Universidade do Paraná.
Dora mudou-se para Curitiba aos 19 anos, depois de se casar. Foi aluna e posteriormente professora na Escola de Danças do Balé Guaíra, mas teve que dividir a paixão pela dança com a família. Foi na capital paranaense que ela teve sete filhos. ''Eu tinha meus filhos, trabalhava muito para recuperar o corpo e a disposição e depois voltava a dançar. Foi assim durante anos, até que ficou difícil conciliar'', conta.
Mas a paixão pela dança falou mais alto. Ela ultrapassou obstáculos e dificuldades enfrentadas na escola do Teatro Guaíra e decidiu se especializar ainda mais na dança para criar algo seu, já que não concordava com os métodos administrados pelas professoras do Guaíra na época. No início da década de 1970, ela foi para França com o objetivo de pesquisar o melhor método e com a idéia fixa de abrir a própria escola. Estudou na Ecole de Dance de Cannes e na Royal Academy of Dancing, em Londres. Decidiu por este último como o mais adequado para o seu Studio D, que abriu assim que retornou da Europa
Um ano depois de inaugurada, a escola de dança, uma das primeiras da Capital, já despertava a atenção de todo o Estado pelo profissionalismo dos espetáculos das ''meninas'', como Dora costuma chamar suas alunas. ''Eu planejei muito para abrir a escola e calculei que precisaria de 100 alunos para pagar as despesas. Em um mês eu tinha 300 alunos e em um ano, 2 mil'', revela. Como novo conceito, além do método inglês, ela incluiu um forte embasamento aos espetáculos apresentados pelo Studio D. ''Em 1979 apresentamos o 'Bodas Campestre', mesclando profissionais e alunas. Eram cerca de mil alunas no palco. Foi uma coisa incrível''.
Ela recorda que foi a primeira vez que uma escola montou um balé com coreografia e cenário. ''Isso melhora muito a auto-estima das alunas. Elas se sentem profissionais. Além disso, as pessoas viram que um espetáculo de escola não pode ser feito apenas com um pano preto atrás e dança. É preciso muito mais. E eu sempre quis o melhor'', declara.
Nos quase 30 anos da escola, cerca de 20 mil bailarinos e bailarinas já fizeram ou ministraram aulas ali. Hoje, muita gente ganhou fama internacional, como Ana Botafogo, Lu Grimaldi, Eliana Caminada, Patricia Santos e Cristina Caprilo, para citar algumas.
Ana Botafogo, por exemplo, é uma grande amiga da família. Morou na casa de Dora, quando esteve em Curitiba integrando o corpo de baile do Balé Guaíra. Por diversas vezes, nos últimos anos, ela veio a Curitiba para ministrar aulas exclusivas na escola. Mas essa é outra história. Serve apenas para ilustrar como, ano após ano, Dora continua investindo na formação das suas alunas. Nessas quase três décadas, muita coisa mudou na administração. Ela não está mais à frente da parte administrativa do Studio D, como fez isso desde o início por exemplo. ''Eu entrava na escola de manhã e não sabia se tinha chovido lá fora'', revela. Hoje ela conta com a ajuda dos filhos. ''Mas sempre tomo as decisões'', brinca.
Uma coisa que ela não deixou de fazer, por exemplo, é ensinar. Aos 72 anos, tem uma disposição invejável e ministra aulas para as turmas avançadas todos os dias. Um passeio pelos corredores da escola, que tem quase mil metros quadrados, revela o carinho que alunas e ex-alunas (muitas se formam e retornam como professoras de dança) dedicam à Dora. ''Nosso conceito sempre foi o de ser uma família. E somos'', resume.
Dedicando-se apenas às aulas noturnas, Dora ainda tem tempo de investir em outra paixão: a bijuteria. Ela produz, em casa, peças como colares, brincos e pulseiras de uma linha chamada Bijoux Ballet. Os acessórios são vendidos na própria escola, mas ela já exporta para Alemanha. O segredo de tanta disposição: ''Eu sempre fui muito perfeccionista. Para tudo e em tudo o que faço''.

Conceitos de Dora
- O balé - É o mais perfeito exercício de condicionamento físico
- A felicidade - Reunir a família para comer uma feijoada
- O segredo da juventude - Boa saúde e uma herança genética favorável
- O acessório indispensável - Brincos
- O futuro - Viver até os 100 anos.

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