Um furacão de mulher
Curitiba- Fernanda Rocha não tem muitas milongas e dúvidas para decidir o que quer fazer de sua vida. Isso no plano pessoal e profissional. Desde 1991 embrenhada pelos caminhos da comunicação, a publicitária que acabou virando um dos mais famosos rostos da televisão paranaense, foi desviada pelo interesse pela notícia ao caminho do jornalismo. ''Fazia o segundo ano de publicidade, quando passei a me interessar pelo jornalismo. Precisei fazer um trabalho para a faculdade na televisão e fui fazer um estágio na CNT. Lá passei a apresentar um programa de televisão com o Ronaldo Pinheiro, que é ator'', conta, acrescentando: ''Comecei assim. Fazendo matérias. Fui trabalhar na Rádio Educativa como locutora e nas horas em que esperava para anunciar as músicas, lia dois, três jornais por dia. Foi surgindo essa proximidade com o jornalismo e cheguei a conclusão de que eu deveria terminar a publicidade e fazer o curso de jornalismo, porque exigia o diploma.''
Essa imersão nos veículos de comunicação do estado foi natural e nunca mais Fernanda saiu de perto dos microfones e telas. Com uma voz forte e uma personalidade mais ainda, a jornalista é um furacão de mulher. Alta, morena, sempre produzida, corpanzil, Fernanda só precisaria ser inteligente para se tornar o sucesso que é. E isso é outro atributo que não lhe falta. Dedicada, é capaz de largar tudo de uma hora para outra para ingressar num projeto em que acredita.
Dos primeiros passos na CNT e na Rádio Educativa ela foi em frente. Por um tempo chegou a se mudar para Brasília. Foi uma das profissionais chamada para trabalhar na campanha de reeleição de Fernando Henrique Cardoso à presidência da República. Missão cumprida Fernanda tinha que prosseguir. ''Cheguei até a ir ao Rio de Janeiro conversar sobre a possibilidade de trabalhar na Globo News, mas eles estavam numa fase difícil, mandando muitos jornalistas embora e eu acabei viajando para fazer um curso fora.''
Ao regressar a Curitiba, recebeu o convite do amigo e jornalista Gil Rocha para entrar no time da Televisão Paranaense, a Globo daqui. Lá ficou por quatro anos. Foi o tempo em que apresentou um dos jornais da casa e também quando se tornou uma referência em qualidade de trabalho no Estado. Nessa fase teve um período de adaptação desgastante. ''Passei por um período de recrutamento lá. Porque enquanto eles não te contratam você não põe a cara no vídeo. Foi muito humilhante. Acho que eles testam a tua vontade de ficar. Eu já não estava aguentando mais.''
Passada essa fase em que teve que se sujeitar ao baixo salário e ao compasso de espera, ela começou a apresentar o Paraná TV. E como que é ser um dos rostos mais conhecidas da televisão? ''Tínhamos um índice de audiência violento. De cada dez, sete curitibanos viam o jornal. Você acaba virando bala 'zequinha', figurinha carimbada. Acho que tem uma parte legal de as pessoas reconhecerem teu trabalho, mas a exposição é muito maior que qualquer outra coisa. Você não tem mais sossego, onde você vai elas querem falar. Acham que são conhecidas. Elas te conhecem, mas você não. A maior parte do tempo é bacana, mas tem horas que você não tá a fim.''
Fernanda compara o assédio contando: ''Imagine se todos os profissionais fossem abordados fora de seus trabalhos e tivessem que estar sempre representando ? Eu não era aquela mulher, burra, gorda, assexuada de terninho. Aquilo lá era um personagem. O cabelo, o jeito, o modo de falar. Eu era muito mais espontânea, tinha mais autonomia. Lá eu tinha que entrar num padrão. E foi muito complicado para mim''. Esse período trouxe sucesso, mas também uma série de complicações pessoais. Depressões e alergias apontavam que alguma coisa não ia bem no seu inconsciente. ''Cheguei a tomar antidepressivos. Imagine eu, que sou uma pessoa superalegre. Para mim era uma violência. Eu me agredia todo dia.''
Alegando que não tem nada a ver com a empresa e sim com os ditames do jornalismo televisivo de uma âncora, o que realmente existe, Fernanda chegou a conclusão de que não teria como progredir mais ali. ''Eu ia morrer em atrás daquela mesa. Apresentando sempre o mesmo discurso. É tudo igual no Dia das Mães, no Natal. É tudo muito repetitivo e maçante. O telejornalismo tem esse aspecto de esgotar quem trabalha no dia-a-dia.''
Desta fase que culminou com a sua saída, provocada por ela, Fernanda passou a viver de uma forma mais solta. Sempre teve trabalho, é expert em apresentar cerimoniais e ainda teve a experiência de ser diretora de jornalismo da Educativa. Mais um desafio. ''Era uma missão de implantar um departamento de jornalismo com a cara da TV Cultura. A princípio eu tinha carta branca, foi um período muito legal. Mas depois houve uma intervenção muito forte do governo do Estado. Essa parte política ficou muito evidente na emissora e aí acabei saindo também. Achei que tinha cumprido minha missão.''
Com isso Fernanda ficou novamente dona de seu passe. Foi aí que ela e seu amigo, o jornalista Rafael Regnier resolveram colocar o projeto de um programa que está no ar, há pouco mais de um mês na CNT. Com formato informal o ''Em Casa'' vai ao ar todos os sábados, às 13 horas, e tem meia hora de duração. Ali dá para ver a verdadeira Fernanda ou alguma de suas faces. Descontraída e sempre sorridente, ela mostra que realmente tem muito mais para dar à televisão do que simplesmente interpretar leitura de notícias em frente a uma bancada.
Mas e como é a Fernanda na hora de se relacionar com outras pessoas, na hora de namorar, como funciona seu processo seletivo? ''Sempre foi normal essa coisa de ser conhecida. Sempre fui monitora de turma, hasteava a bandeira no colégio. Só mudou a escala. Sou bem eclética. Não tenho uma fórmula definida''. Outra coisa que não incomoda Fernanda é o fato de já haver uma resistência dos homens a mulheres poderosas e independentes. Mas ela não está nem aí. ''As pessoas falam: você assusta. Mas acho que é a lei de Darwin. Só vem quem aguenta''.

mockup